SEPARANDO OS CONCEITOS
O filósofo contemporâneo Soren Kierkegaard escreveu um texto denominado "Temor e Tremor", que trata da relação entre
a Fé e a Ética. No entanto, apesar de ser cristão, ele não defendeu uma Ética Religiosa, quase pelo contrário,
afirmou haver uma independência, senão uma tensão, entre o comprometimento religioso, por meio da Fé, e a Ética.
O exemplo escolhido não poderia ser mais ilustrativo. Ele lembra o episódio bíblico do Gênese 22, onde Abraão
estava disposto a sacrificar o próprio filho em obediência a Deus. Trivial que não foi necessário fazê-lo,
poir era um mero teste de fé, no entanto, tudo indica que ele iria mesmo fazê-lo, sem questionamento, em total
submissão.
Kierkegaard então lança a questão de como devemos avaliar Abraão eticamente. É mais do que evidente que degolar
uma criança inocente é Anti-Ético, no entanto, no tal contexto religioso, seria ainda pior não seguir o ditame
divino. Fora do âmbito religioso não há discussão, o ato é anti-ético, mas e dentro do âmbito cristão?
Como ficaria então o Quinto Mandamento? Ainda que este só viesse a ser revelado posteriormente ao tempo de Abraão.
Mas hoje, como julgar Abraão?
O que seria então mais importante, respeitar o preceito ético universal de que não devemos cometer o infanticídio,
ou obedecer cegamente a uma divindade? Isso traz uma série de dilemas terríveis, entre eles, agora já além da
obra de Kierkegaard, o que indaga que espécie de seguidor esse Deus prefere, o que apenas lhe obedece cegamente
sem questionamento, ou o que tem autonomia e bom senso para decidir por si próprio?
Se aceitarmos a segunda opção, Abraão teria falhado em seu teste, talvez Deus quisesse um homem que questionasse
o porquê de tal ato, e ou se recusasse a fazê-lo em nome da compaixão. Mas muitos religiosos dirão que isso seria
um orgulho inapropriado ao ser humano, que deveria na verdade se submeter ao poder divino superior. Isso também
destruiria a base da Fé, pois a subordinaria à razão. Lembrando que já não mais estou me atendo ao livro
Temor e Tremor.
Se admitirmos a primeira opção, teremos então que o perfil psicótico de um terrorista religioso suicida seria o
modelo ideal de seguidor de Deus. O indivíduo que obedece acriticamente, sem hesitação. É comum reforçar-se ao
longo de toda a Bíblia, bem como do Corão, a importância da entrega total à Deus, o Temor e obediência como as
maiores virtudes. Mas a questão inevitável fica ainda mais aterrorizante, e leva àquele que é talvez o maior
e mais decisivo dilema ético da religião.
COMO PODEMOS SABER QUE ALGO VEM DE DEUS?
No caso, como saber que a instrução que o profeta recebeu era mesmo de Deus? Não poderia ser também do
Diabo? Ou espíritos diversos com poderes sobrenaturais? Anjos caídos? Super Paranormais? ETs? X-Mens?
Com essas opções acima, a simples apelação a uma mera demonstração de sobrenaturalidade é infrutífera,
então, como saber?
Se decidirmos apenas por confiar numa autoridade, como Abraão fez, lembrando novamente que aqui estou além da
obra do filósofo,
então qualquer coisa que vier desta fonte é necessariamente BOM, por ser divino. Então assassinato, roubos,
estupros e escravização TAMBÉM PODEM SER BONS! E sendo assim, a Religião não só fica independente da Ética,
mas se tornam mesmo antagônicas. Nessa opção, teremos que reconhecer que o fundamentalista islâmico que
se explode e mata dezenas de vítimas, bem como os que atiram aviões contra prédios, podem muito bem estar
certos, ou ao menos agindo de modo autenticamente religioso. Nesse caso, a Religião seria uma terrível
ameaça à Ética, à Paz e à própria Humanidade.
Mas e se optarmos por, ao invés de confiar numa autoridade, julgarmos por nós mesmos se tal ordem de
fato deriva de Deus? Então poderíamos dizer que qualquer instrução que violasse o bom senso ético necessariamente
não poderia ser divina, mas talvez um demônio tentando nos enganar. Poderíamos então afirmar que ordens
advindas do divino seriam imediatamente reconhecidas como justas, sábias, fundamentalmente éticas.
No entanto essa opção apesar de inegavelmente mais sensata, não só declara ainda mais a independência entre
a Ética e a Religião, como ainda resulta que a religião de fato é dispensável, que no caso não precisamos
da divindade para saber o que Certo ou Errado. Sendo assim, no que se refere a Ética, religião é completamente
dispensável.
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Portanto espero ter demonstrado definitivamente a total independência entra Religião e Ética. A religião
pode continuar sendo necessária por ser talvez uma forma de compreender o mundo e superar a mortalidade,
mas não como parâmetro de orientação ética.
Embora não desenvolva essa reflexão, Kierkegaard obtém um resultado semelhante ao isentar Abraão de culpa,
declarando que ao entrar num estado de Fé, o humano religioso se coloca fora do âmbito ético. Com uma
brilhante explanação, ele sugere que o "Cavaleiro da Fé" é alguém isolado do mundo, num estado psíquico
de arrebatamento que o deixa além da moralidade, no caso da ética. Seria como alguém que não estivesse
em condições mentais normais. Isso, claro, pode isentar Abraão de culpa, mas não livra a religião de seus
dilemas.
Na realidade basta avançar mais na leitura da Bíblia para conferir diversas ações divinas reconhecidamente
atrozes, como a morte dos primogênitos do Egito no livro do Êxodo, e ainda mais adiante em Deuteronômio e Josué
as tribos de Israel massacrando nações adversárias, exterminando inclusive bebês, fazendo escravos, pilhando
riquezas e destruindo a religiosidade alheia, e tudo isso é feito sob ordens diretas de Deus, que também
os auxilia com armas de destruição em massa, como chuvas de pedras contra o exército inimigo que bate
em retirada. E tudo isso muito depois da promulgação dos 10 mandamentos. Mesmo se avançarmos para o Novo
Testamento, veremos atitudes estranhas mesmo para Jesus Cristo, como amaldiçoar uma figueira ou atirar a
criação de porcos de um homem precipício abaixo. Nestes casos todas parecem ser melhor interpretadas como
alegorias e símbolos bastante instrutivos e éticos, alguns deles até mesmo sugerindo a independência entre
a Ética e a religiosidade, como na parábola do Bom Samaritano. E mais adiante nas epístolas paulinas,
há até mesmo lugar para a posição de quem um homem não cristão pode ser salvo mediante suas ações em
respeito à própria consciência. Mas mesmo assim ainda temos a idéia da punição perpétua no Inferno,
uma idéia indefensável sob qualquer parâmetro ético concebível.
Ou seja, tudo isso é Bom do ponto de vista da Fé. São atos e pontos de vista morais, "éticos", por alguns
considerados como ditames de sabedoria e bondade infinitas!
De fato, pela minha definição, são sim atos e posturas morais. Pois defendo como Moral um âmbito relativo
e contextual, e neste caso obedecer a Deus é a maior virtude, sendo o Bem em si. No entanto como podemos ver esse
mesmo raciocínio não funciona em outros contextos, outras culturas e mesmo numa civilização que se desenvolveu
tendo a idéia que a Bíblia é a palavra de Deus.
Por outro lado, chamo de Ético tudo aquilo que é espontaneamente reconhecido por qualquer ser humano.
Nenhum de nós quer sofrer, mesmo o masoquistas apenas tem uma noção de prazer diferente. Sendo assim a
Regra de Ouro se aplica universalmente, e com ela a restrição do assassinato, pois ninguém quer ser
assassinado, geralmente. Também a restrição do roubo e da mentira, pois ninguém quer ser roubado ou
enganado, bem como a restrição da agressão, da perversão, do abuso e etc. Pois ninguém quer sofrer tais
coisas.
Isso então é Ético e é totalmente independente da Religião.
ÉTICA E NATUREZA
De onde mais poderia derivar a Ética que não do próprio Ser Humano?
Como vimos, a idéia de que é necessária uma divindade, um poder super humano, para nos ensinar o óbvio, é no
mínimo tremendamente confusa e contraditória. Então de onde mais poderia vir a Ética? A Regra de Ouro?
Minha resposta se mantém: do próprio Ser Humano, mais especificamente da EMPATIA, ou de um casamento entre a
Empatia e o desejo de Bem-Estar.
Muitos no entanto não pensam assim. O dogma da maldade intrínseca do Ser Humano é largamente difundido, e o
mais curioso, por pessoas que muitas vezes consideram-se não-cristãs, ou mesmo anti-cristãs.
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Os motivos para isso podem ser infindáveis, inclusive a incômoda hipótese de que um indivíduo que se
considere ruim sem dúvida deve ter dificuldades em reconhecer a bondade nos demais, e prefere generalizar
seu estado para toda a humanidade.
Mas independente disso, essa noção é evidentemente contraditória, pois para considerarmos uma coisa Má,
necessariamente temos que ter uma noção de Bem, sendo assim, de onde vem essa noção?
Pode de um ser inerentemente mau derivar a idéia de Bem?
Num sistema religioso isso é até mais defensável, porque pode-se argumentar que a idéia de Bem vem da
divindade, mesmo assim, como já vimos, essa argumentação também não se sustenta, e de qualquer modo,
a contradição sempre é inevitável, pois mesmo que não fosse capaz de produzí-la, poderia um ser mau,
reconhecer a idéia de Bem?
Notemos inclusive que os filósofos que colocam a fonte da ética no próprio ser humano não compartilham
da idéia da maldade humana inata, como Kant, Rosseau e Marx. Mas é curioso que haja não-religiosos,
incluindo opositores do cristianismo, que compartilham de seu dogma fundamental, que é a natureza maligna
humana.
Alguns no entanto colocam que a fonte do Bem não é a divindade, mas a própria Natureza, supondo que existe
uma Ética intrínseca no mundo. Assim o pensava Schopenhauer, inclusive considerando que a suposição de que
o mundo não tivesse uma natureza moral era uma execrável postura.
Hoje em dia tal noção é muito popular, aparecendo nas mais diversas roupagens. As mais comuns são as que
declaram que não existe o mal na natureza, que apesar das aparentemente violentas relações entre os
seres vivos, não ocorre nada que possa de fato ser considerado mais do que uma luta intrínseca pela
sobrevivência, onde não há lugar para a perversão.
Algumas pessoas inclusive gostam de afirmar que não existe o assassinato, o roubo ou o estupro na
natureza, e sendo assim a conclusão é inevitável. Todo o Mal deriva da Humanidade.
Não irei apelar para as miríades de dados que os zoólogos podem nos fornecer para por em cheque tal noção,
que podem ser vistas inclusive em obras de Darwin, Richard Dawkins, Stephen J. Gould, este último curiosamente
entretanto, apesar de agnóstico, compartilha de uma noção de que a Ética é domínio da Religião.
Mas mais uma vez esta pressuposição da maldade originada do Ser Humano cai na mesma contradição, e como o
dizia Feurbach, e só mais uma forma de projetar o que temos de humano, fora do humano, insistindo em ver
no externo aquilo que só existe em nós mesmos. Neste caso a bondade.
Minha posição é que o Ser Humano é intrinsecamente ambíguo, mas com uma tendência inata para assumir que o
Bem é o caminho que deve ser seguido. Sendo assim, embora eu prefira não usar esses mesmos termos, não seria
errado dizer que o Ser Humano é por Natureza Bom.
Mas em termos de melhor precisão filosófica, posso trabalhar com a hipótese da neutralidade humana, mas nunca
com a hipótese da maldade inerente. Alguns poderiam argumentar de forma inversa, como um ser Bom poderia ter
uma noção de Mal? Mas creio esse argumento facilmente refutável, pois parece um ponto pacífico que o
Bem é um conceito positivo, assim como a Luz, e o Mal somente sua ausência, tal como a Escuridão. E sendo
assim é o conceito positivo que de fato constitui a definição, e a noção.
Além do que um ser inerentemente mau seria auto destrutivo, suas tentativas de socialização rapidamente
seriam frustradas pelas guerras entre as nações, e no entanto, apesar dos pesares, a história da civilização
tem sido uma história de integração de culturas e fusão de tribos e nações.
Por fim, quero apenas defender que a Ética é intrinsecamente humana, e só faz sentido em termos humanos,
ainda que possua alguns fundamentos aparentes na natureza. Mas ao que tudo indica a Natureza, o Universo,
são fundamentalmente a-éticos.
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ÉTICA E RELIGIÃO NA HISTÓRIA
Comprometi-me em fornecer muitos exemplos de como as religiões promoveram ações antiéticas ao longo
da história. Alguns já foram citados, mas é algo que não é necessário mais do que algumas palavras para
qualquer um com um mínimo de conhecimento histórico.
Cruzadas e Guerras Santas em Geral, Inquisição e Caça às Bruxas, Conversões Forçadas, e diversas outras
coisas, perpetradas por grupos de praticamente todas as religiões, são mais do que suficientes para
nos convencer disso.
Muitos hão de alegar não sem razão que tais eventos se deram pela negligência da observação das próprias
normas religiosas. Algo difícil de defender quando vemos diversas passagens na Bíblia ou no Corão que
de fato apregoam tais posturas, ainda que sejam contrabalançadas por outras diametralmente opostas.
Mas mesmo fora disso, nada muda o fato de que os sistemas religiosos parecem incapazes de deter tais
processos.
Alguns podem se surpreender, mas defendo a posição de que não existem, nunca existiram, guerras
de causas religiosas. Mas as religiões legitimaram muitas guerras e atrocidades, cujos verdadeiros
objetivos eram políticos, e econômicos, sociais ou étnicos. Mas o raciocínio em si pouco muda, dada
a já referida incapacidade das religiões de se oporem fortemente, como modos de pensar coesos, contra
esses já referidos processos, muitas vezes os sacralizando.
Já forneci minha explicação básica, de que a Ética é para a religião inessencial, portanto a
recorrência de posturas antiéticas em seus cânones, instituições ou membros muito pouco pode fazer
para afetar suas estruturas fundamentais.
No entanto permanece na mentalidade popular a muito difundida idéia de que a Ética só é possível em bases
religiosas. Pesquisas recentes inclusive tem apontado essa opinião como majoritária nas américas, destaque
para a nação que recentemente reelegeu um presidente antes "eleito" num processo de votação fraudulento
e que demonstrou várias posturas antiéticas em seu governo, mas que no entanto, apresenta uma imagem de
homem religioso e acabou sendo acolhido pela maioria da população como um representante da moralidade.
Fenômenos como esse denotam uma tensão em nossa sociedade, um conflito de concepções morais distintas,
que envolvem de um modo ou de outro as diversas tradições que a humanidade desenvolveu em termos de
noções morais e éticas.
Na tradição filosófica distinguimos várias correntes de pensamento ético, em especial o Consequencialismo,
o Deontologismo ou Ética dos Deveres, o Perfeccionismo ou Ética das Virtudes, o Eudaimonismo ou
Ética da Felicidade, e a mais recente Ética do Cuidado. E é claro, temos as Morais Religiosas e o Sistema
Jurídico.
Gostaria então de simplificar esses sistemas e estabelecer uma dicotomia de modo a explicar melhor nosso
dilema contemporâneo. Num esquema que já apresentei num furioso ensaio denominado
50 MILHÕES DE CRETINOS!
Num primeiro grupo estou reunindo o Consequencialismo e boa parte do Deontologismo, bem como elementos
dispersos de outras éticas. Chamo esta de ÉTICA DA FINALIDADE.
Ela propõe que o valor de uma ação está na Consequência que se tem em vista. Ou seja, não numa mera
consequência ainda que acidental, mas naquilo que o agente tinha a intenção de promover. Desta forma
unimos elementos de Intencionalidade presentes nas Éticas de Deveres, que ainda que subjetivos, são
normalmente aceitos por todos como relevantes para avaliar o valor de uma ação ao menos num nível
íntimo.
Digo que é mais ou menos essa linha de pensamento que impera no senso-comum secular.
Em contrapartida estou agrupando outra parte do Deontologismo, especificamente a parte de maior
ênfase em deveres imperativos, e o Perfeccionismo, ou sua maior parte, para explicar a Moral Religiosa.
Chamo a esta ÉTICA DO PRINCÍPIO.
Nesta estaria inclusa a mentalidade de senso-comum religiosa, que estaria envolvida em posturas como a
que descrevi mais acima.
Como podemos ver, estou estabelecendo uma dicotomia, ou melhor, estou criando um sistema explicativo dual
para entender nosso dilema contemporâneo e extremamente atual. E que no entanto, pode ser utilizado para
entender todo o dilema histórico a qual tenho me referido.
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Considerando que o que está em julgamento é o valor ético das ações humanas, digo que a Ética da FINALIDADE
crê que o valor da ação deve ser medido no Objetivo que se quer alcançar, independente do Meio que se use.
Como diria o Utilitarismo, que se lance mãe de procedimentos essencialmente anti-éticos, como o assassinato,
pode ser que o resultado final possa justificar os meios, como no caso de eliminar um perigoso infanticida.
Por outro lado, a Ética do PRINCÍPIO supõe que o valor ético da ação é determinado pelo seu ponto de partida,
ou seja, a ação será Boa caso se baseie numa fonte Boa, no caso Deus, ou o homem virtuoso, que é aquele que
está comprometido com a religião, que está, em termos cristãos protestantes, justificado pela Fé.
Creio que o dilema atual pode ser visto assim.
O que pretendo demonstrar é que, apesar desta ÉTICA DE FINALIDADE possuir problemas, a ÉTICA DO PRINCÍPIO
é contraditória, e tem como resultado as mais diversas distorções possíveis, explicando o que tem ocorrido
historicamente e justificando minha Terceira Tese, que afirma que tentar derivar a Ética da Religião é
extremamente problemático, se não suicida.
O motivo é simples. Enquanto a Ética da Finalidade tende a definir o Bem como aquilo que é universalmente aceito,
como a Regra de Ouro, uma vez que se preocupa com o Bem Estar geral visado, a Ética do Princípio não tem
como definir o Bem de nenhum modo compreensível. Ou seja, enquanto a definição de Bem da Ética de Finalidade,
que seria o Bem-Estar, prazer, felicidade e etc, é meramente discutível, a definição de Bem na Ética de
Princípio é simplesmente inexistente, ou quando parece existir, é fundamentalmente contraditória e vazia.
Pois se uma ação é Boa devido a partir de uma Origem Boa, como então sabemos que tal origem é de fato Boa?
Voltando ao dilema da religião: Como saber se uma instrução divina é de fato proveniente de um Deus Bom?
Se é pelo seu conteúdo, então quem define o conteúdo além de nós mesmos?
Se é pela autoridade da fonte, como então entendemos que ela é de fato Boa?
Não há resposta! No máximo pode-se dizer que tudo que vem de Deus é Bom, ou que somente o homem renascido em
cristo pode agir eticamente, ou somente o que se faz justificado pela Fé. Mas nada disso explica o que é
o Bem. Apenas usa a palavra como mais um sinônimo para aquilo que é determinado por um imperativo religioso
inexplicável.
Posso ser acusado de estar criando uma versão espantalho da noção ética religiosa, mas tenho uma larga experiência
em diálogos com religiosos, em geral protestantes, que representam muito bem essa linha de pensamento. Em especial,
a idéia da Justificação pela Fé funciona como um identificador de Virtude. O "Cavaleiro da Fé", como diria
Kierkegaard, é um Homem Virtuoso, e capaz de fazer o bem, ainda que Kierkegaard não ponha dessa forma. Por outro
lado, nada do que a pessoa não religiosa fizer terá valor, pois neste ponto de vista as "obras são inúteis", e
portanto não importa a dimensão do benefício e bem estar geral promovido por uma ação de uma pessoa não justificada pela
Fé. Ela simplesmente será sem valor algum, se não fundamentalmente maligna.
Partindo do dogma fundamental do cristianismo, que é a maldade intrínseca do Ser Humano e sua incapacidade de
se salvar por si próprio, adicionando-se o elemento Calvinista da Depravação Humana total, decorre que o
Bem só pode advir da divindade. E finalmente cai-se então no dilema de o quê afinal define o Bem nessa linha
de pensamento. A resposta que tenho colecionado é, ou o silêncio, ou a repetição do dogma.
No entanto é essa linha de pensamento que elegeu um presidente tido como virtuoso por ser religiosamente
comprometido, apesar de ter protagonizado posturas eticamente inaceitáveis como mentir em assuntos de
geopolítica para justificar uma guerra, e ainda promovê-la sonoramente declarando ter apoio de Deus.
Com essa mesma linha de pensamento, se uma instrução supostamente derivada da divindade apregoar que devemos
atirar um Boeing numa torre matando milhares de pessoas, essa ação será considerada Boa e justificada.
Se apregoar que deve-se bombardear, invadir e pilhar um país "pobre", mesmo que não exatamente em nome de Deus
mas em nome de Virtudes como Democracia e Liberdade, também será considerada Justa e Boa.
E assim, a Ética se auto destrói sob a Moral religiosa, cujos valores são tão permanentes quanto uma bolha
de sabão, e os piores tipos de inversão podem ser feitos, esquecendo-se completamente da Regra de Ouro e
perpetrando qualquer tipo de ação em benefício dos mais diversos interesses sob a máscara da moralidade.
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EMPATIA: UMA NOVA DIMENSÃO DA ÉTICA
Apesar de incomensuravelmente mais defensável que a Ética de Princípio, esta Ética de Finalidade também não
escapa de problemas típicos do Utilitarismo e Deontologismo. Creio eu, que tais podem ser tranquilamente
superados com o uso adequado do conceito de EMPATIA.
Ela satisfaz também apelos da Ética do Cuidado, e se harmoniza perfeitamente com a Regra de Ouro, pois
qualquer ação que crie um desnível de bem estar entre os envolvidos tende ao mal. Ou melhor, as ações
teriam seu valor ético ampliado na medida em que contribuem para o máximo bem estar médio, respeitando
a sensibilidade de cada um, o que ecoaria em parte no antigo Eudaimonismo grego.
De certa forma é isso que doutrinas de Compaixão e Caridade sugerem, inclusive a Cristã. Qualquer nível
de contato entre dois indivíduos deveria considerar o sentimento de Empatia, de modo a inibir qualquer ação
deliberadamente anti-ética.
Em termos práticos, isso significa estimular o sentimento de Empatia que todos temos, que pode estar adormecido
mesmo por uma questão de auto defesa emocional. A dessenssibilização é um perigo para toda a sociedade,
pois é fato notório que a maioria dos humanos tem uma resistência natural contra atos homicidas por exemplo.
Há uma comprovada dificuldade em cometer um primeiro assassinato, no entanto uma série de fatores podem
reduzir essa resistência, adormecendo a empatia. Há exemplos históricos grotescos, como os treinamentos
de exércitos espartanos ou nazistas, que visavam estimular ao máximo a agressividade, reduzindo ao mínimo
a sensibilidade.
Tivemos também ao longo da história uma cultura de apreciação do sofrimento alheio, como as vias-cruxis,
esquartejamentos e torturas em praças públicas, podendo ser vistos inclusive por crianças, incinerações
ao vivo e sessões de humilhação pública. Todos fatores socialmente estimulados que não faziam outra
coisa que inibir ao máximo nossos impulsos altruístas espontâneos.
É uma grande conquista da civilização contemporânea ter abolido esses comportamentos hediondos, ainda que
muitos deles restem. Temos estendido nossa empatia não só para outros povos, mas até mesmo para animais e
plantas. É inegável que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas hoje em dia em nosso contexto cultural
já não mais é admissível uma sessão de chibatadas em praça pública.
Dessa forma, considero qualquer proposta no sentido de instituir punições cruéis e públicas uma afronta
às conquistas éticas de nossa civilização contemporânea. É totalmente inaceitável que alguém hoje em dia proponha que
o estado aplique castrações para estupradores, linchamentos ou punições que inevitavelmente viriam a
dessenssibilizar os cidadãos. Por mais terríveis que sejam os crimes praticados pelos algozes da sociedade,
esta tem que estar acima deles, e não agir com impulsos vingativos e métodos brutais.
Uma coisa é que alguém tenha um forte sentimento de revanche. Algo aceitável no Ser Humano, mas isso não
pode ser institucionalizado como era antigamente. Fazê-lo seria uma porta aberta para o retorno de todas
as formas de perversões que hoje em dia tanto nos envergonham que tenham ocorrido no passado.
Também não estou apoiando a estúpida máxima ingênua que muitas vezes vemos afirmar que o indivíduo que se
vinga de um agressor na mesma moeda é tão ruim quanto o agressor. Longe disso. Praticar uma agressão
equivalente por revanche é muito menos ruim do que praticar a mesma agressão por motivo fútil. O próprio
judiciário reconhece isso. No entanto, concordo sim que tal ação vingativa é menos boa do que uma
postura de superação e indulgência.
A temática da Empatia, ademais, permite não só uma descida da teoria ética de pedestais metafísicos para
um plano material e tangível, como permite também soluções dos problemas típicos dos modelos éticos
mais entrelaçados com nossa experiência concreta, como o Consequencialismo, bem como satisfaz perspectivas
deontológicas de intenção.
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Em termos de quantificação utilitarista, ela permitiria eliminar todas as distorções. Pois além de um valor
teórico de quantidade de Bem a ser mensurado para cada indivíduo envolvido, deveria ser medido também um
Índice de Empatia entre cada um dos envolvidos, e mais especificamente, o nível de diferença entre o
Bem estar de cada um, dessa forma, notaremos que qualquer evento que consideramos intuitivamente como anti-ético,
invariavelmente dará um resultado de valor negativo.
A fórmula para esse cálculo seria:
Onde VE é o Valor Ético. B a "Quantidade" de BEM de uma pessoa envolvida na ação, e E
o nível de EMPATIA, ou no caso, o desnível entre a Quantidade de Bem de um indivíduo e a de um outro.
Citarei apenas 3 exemplos simples. Consideremos que o Bem Estar de alguém pode variar de +10 a -10, sendo este
último o pior mal-estar possível. E é claro que devemos lembrar que isso se refere apenas a um valor teórico,
que não poderia ser usado para finalidade práticas mas sim para compreensão de elementos da uma teoria Ética.
Esse valor também é subjetivo, pois estaria levando em conta não um simples prazer imediato, mas também as
perspectivas de bem-estar futuros relativos em seus mais variados níveis.
Vejamos primeiro, em cada um dos 3 exemplos, uma quantificação utilitarista simples.
1 - Casal tendo relação sexual Harmoniosa.
"Quantidade de Bem" do Homem = digamos, +7.
"Quantidade" de Bem da Mulher = +8. O Resultado seria a soma dos valores, +15, o que resulta numa ação boa.
Mas adicionemos um terceiro indivíduo, no caso um bebê cuja necessidade alimentar está sendo no momento negligenciada
enquanto o casal faz amor. A criança estaria num estado de Bem de -3, por exemplo. Nesse caso, o resultado final da
quantificação continuaria positivo, +12. Ou seja, apesar de sabermos que há algo eticamente errado nessa situação,
a quantificação utilitarista simples ainda lhe dá um valor positivo!
Agora vamos adicionar a medida de Empatia. Esta seria nada menos que a soma da diferença de Bem entra cada um
dos envolvidos.
Entre a Mulher e Homem = 1; Entre o Homem e o Bebê = 10; entre a Mulher e o Bebê = 11.
Basta agora somar todos esses valores e dar-lhes um total negativo, no caso -22. Então somamos este ao nível de
Bem estar da quantificação simplificada, que era +15, o resultado é -7. Ou seja, o ato, intuitivamente
anti-ético, passou a ser também teórica e matematicamente anti-ético!
Se removermos o bebê da equação, veremos que o resultado anterior diminui em um grau, caindo para +14.
Essa desvaloração se dá devido ao desnível de bem entre o casal, mas o valor continua sendo positivo.
Essa desvalorização devido ao adicionamento do cálculo de empatia me parece um preço pequeno a pagar
pelo ganho de compatibilização do cálculo com nossas intuições éticas fundamentais com base na regra de
ouro, como poderemos ver nos próximos exemplos, e lembrando de que é necessário somar as relações "empáticas"
entre TODOS os envolvidos, numa análise combinatória de pares.
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2 - Grupo de 5 pessoas se divertindo.
Digamos que os valores de Bem sejam +6, +5, +4, +8, e +7 e ou seja, numa quantificação simples
seria +30 o resultado final. Se adicionarmos o cálculo de empatia, o que nesse caso poderia até ser dispensado,
o valor irá cair para +10. Pois seriam 10 relações entre os indivíduos. Entre +6 e +5, +6 e +4... Depois
entre +5 e +4, +5 e +8... Até totalizar a soma dos desníveis em todos os pares possíveis, no caso -20.
O Valor Ético continuará muito positivo, mas havendo um desnível empático entre alguns indivíduos,
talvez o excesso de euforia de um incomode o outro. Vê-se logo que uma maior harmonia na relação empática
elevaria o nível do ato. Se todos estivessem na média, nível +6, o resultado final se manteria +30.
Se destes, 4 estivessem num nível +9 e um deles num nível +1, o resultado simples seria +37, mas o resultado
considerando as relações empáticas seria +5. Talvez caso os demais estivessem a se divertir as custas da
ridicularização do outro.
Mas se examinarmos casos mais extremos, onde os demais se divirtam as custas do intenso sofrimento do
outro, mesmo que seus níveis de Bem estivessem muito elevados, o ato seria fundamentalmente anti-ético.
No caso de valores +8 +9 +10 +9 e -4, para uma quantificação utilitarista simples haveria o resultado ainda
positivo de +32, mas adicionando-se os valores de empatia o Valor Ético do ato cairia para -26.
Portanto essa fórmula impede as falhas típicas de quantificação utilitarista, pois onde seu modelo falha,
deixando atos claramente anti-éticos receberem Valores Éticos teóricos positivos, o cálculo envolvendo
Empatia sempre deixará valores claramente negativos.
Passemos para um exemplo ainda mais amplo, e sempre lembrando que esses cálculos não tem pretensões normativas
pragmáticas, mas sim devidas ilustrações que simbolizem como o conceito de empatia tornaria nossas noções
teóricas de ética muito mais precisas e próximas da realidade.
3 - Batalha entre dois exércitos. Consideremos 200 envolvidos, metade de cada lado.
Digamos que 50 destes indivíduos, guerreiros natos e habilidosos, estão num estado de larga euforia, o dito
clangor da batalha, eles tem em média +6.
Destes, 120 estão num estado de tensão devido ao perigoso combate, numa oscilação entre a excitação da ação e o
medo de serem feridos ou mortos, sua média seria 0.
E 30 "levaram a pior", sendo mortos ou gravemente feridos, ficando em estágio de sofrimento. Sua média seria -7.
Numa quantificação simples basta multiplicar e somar os valores:
50x6 + 120x0 + 30x-7 = 300 + 0 + -210 = +90.
Ou seja, a quantificação utilitarista simples daria um valor positivo de +90 a essa barbárie! Apesar do que nos
dizem nossas intuições.
Agora adicionemos novamente o cálculo de Empatia. Para cada indivíduo seria necessário avaliar o desnível
de bem relativo a cada um dos outros. O cálculo é muito trabalhoso sem fórmulas mais precisas, mas é evidente
que o resultado é largamente negativo, pois seria avaliada a diferença entre os extremos. Num cálculo simplificado
teríamos a mera diferença entre 300 e 210, que é -90, que deveria ser somada ao resultado final. Como vemos, na
melhor das hipóteses o resultado seria 0! Mas na verdade seria muito menor, pois o desnível de empatia sempre traz
um resultado negativo, mesmo que os dois valores sejam positivos. O somatório de todas as combinações, que para
duzentos são nada menos que 19.900, seria então um número negativo extremo, a ser adicionado à equação.
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Na mesma linha, observemos que uma das maiores críticas à quantificação utilitarista cai por terra
com essa dimensão de Empatia. O famoso exemplo do Coliseu, onde uma grande platéia sente um imenso prazer ao ver
uma pessoa ser açoitada, torturada e morta. Na quantificação utilitarista simples, o resultado dessa ação é
inegavelmente bom, basta somar os índices de Bem pessoal. O do indivíduo sofredor seria desprezível comparado ao
somatório do de milhares.
John Stuart Mill tenta contornar situações como essa adicionando conceitos confusos como a distinção entre
purezas do prazer, ou apelando a estranhos "Juízes Competentes", uma espécie de apelo ao Perfeccionismo, que
afinal não conseguem contornar devidamente o problema sem cair em discussões metafísicas, ontológicas ou no
mínimo semânticas.
Mas se simplesmente considerarmos a Empatia, teríamos que adicionar uma relação empática de cada um dos indivíduos
com a vítima, ou seja, seriam milhões de valores negativos a serem considerados, que não poderiam ser compensados
pelos somatório dos valores entre cada membro da platéia, pois o desnível sempre dá resultados negativos.
No caso de duas pessoas em estado de Bem positivo, a diferença é pequena e não influi significativamente,
mas entre a de estado positivo e a negativo, e valor aumenta largamente, passando a ser significativo.
Muito mais poderia ser dito sobre esse tema, mas na verdade tenho pretensões de trabalhá-lo num Mestrado, dado
sua importância e amplitude. Espero que este trabalho sirva como uma introdução a algo muito mais amplo, um
projeto literário e filosófico de largas proporções no tema da Ética.
Áqueles que não se sentirem à vontade como minha distinção operativa de Ética e Moral, basta ignorá-la, embora
me pareça incômodo ter que me referir às mesmas idéias com termos como "Ética mais abrangente", ou
"Moral mais restrita".
Também espero ter esclarecido minhas predileções filosóficas pelo Consequencialismo e parte do Deontologismo,
em geral em detrimento de maior parte do Perfeccionismo, ainda que não tenha explanado mais claramente,
especialmente sobre o Eudaimonismo e a Ética do Cuidado. Esses temas ficarão para um futuro tratamento,
mas eu precisava tratar logo, aqui e agora, alguns temas introdutórios para esta disciplina de
Filosofia Contemporânea, uma vez que tal assunto é extremamente contemporâneo, e sempre será. Mesmo
porque no período medieval por exemplo seria impraticável defender uma ética não religiosa, com risco de vida
envolvido, e a dificuldade permaneceu até boa parte da Idade Moderna.
Isso não faz com o que o tema não fosse importante antes, mas somente aqui, na Contemporaneidade, parece ser
possível tratá-lo com mais segurança e profundidade, livre de certas limitações históricas.
Afinal, já disse e repito. Ética, ou Filosofia Moral, por sinal nomes que sugerem tratamento diferenciado para
os termos "Ética" e "Moral", ao menos nunca vi os termos "Filosofia Ética" ou simplesmente "Moral", para se
referir à disciplina filosófica.
Voltando. Ética é para mim o tema mais contundente e impactante da filosofia em termos práticos. A maioria de nós
pode viver sem nada saber de Epistemologia, Ontologia, Lógica, Teologia ou Teoria da Ciência.
Mas não podemos viver sem Ética.
Marcus Valerio XR 20 de Janeiro de 2005
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