O CAOS E OS ANJOS

Abordagens e Desenvolvimentos de Temas Relevantes à Obra O QUEIJO E OS VERMES

de Carlo Ginzburg

Universidade de Brasília, Dezembro de 2000, IH - Departamento de História, Disciplina: Introdução ao Estudo da História, Professor: Roberto Baptista Júnior

SUMÁRIO

ABERTURA

O CAOS E OS ANJOS

A FONTE DA DISCÓRDIA

A SANTA INQUISIÇÃO

O UNIVERSO É INFINITO

CRONOLOGIA

EVOLUÇÃO CULTURAL

JUSTIÇA HISTÓRICA

BIBLIOGRAFIA

Esta Monografia é referente a Obra de

CARLO GINZBURG

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O QUEIJO E OS VERMES

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O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição

Publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras

ABERTURA

A obra O QUEIJO E OS VERMES de Carlo Ginzburg é uma trabalho de História das Mentalidades, focando a vida privada e cotidiana de personagens não historicamente marcantes. Trata-se de uma narrativa sobre o processo inquisitorial promovido pela Igreja Católica contra um cidadão comum apesar de intelectualmente destacado no contexto onde vivia.

Poderia ser antes de tudo resumida no: Conflito entre a liberdade de pensamento individual contra a autoridade repressiva de um sistema padronizante de pensamento, tendo como combustível uma vasta cultura imemorial, obras clássicas de pensamento e uma bagagem de questões levantadas por intelectuais da época.

Nesta monografia, procurarei realizar uma obra ao máximo possível independente da leitura prévia do livro, pois o enfoque será dado não diretamente aos elementos levantados no trabalho de Ginzburg, mas sim aos inúmeros e ricos desenvolvimento relevantes ao que o autor põe em questão.

O próprio senso comum já faria uma boa idéia da obra apenas com o que foi dito nessas linhas acima, imaginando as arbitrariedades da Igreja "Medieval" contra pessoas geralmente indefesas, por "crimes" que hoje em dia não seriam considerados nem dignos de nota. Entretanto como tudo o que se refere ao "conhecimento" popular, a própria Santa Inquisição é vista de forma extremamente distorcida.

Se a maioria das pessoas de hoje já teria dificuldade de acompanhar o elaborado processo de efervescência intelectual do protagonista desta obra de reconstituição histórica, na virada da Idade Média para a Moderna então, as idéias de Menocchio, o singular moleiro em questão, soavam não apenas estupefantes, mas sobretudo assombrosas e ameaçadoras para uma estrutura social cuja base de poder dependia do controle de pensamento.

A singular "salada" de conceitos vindos de mitologias antigas, da Filosofia Grega, e das religiões da época, somadas a notável capacidade interpretativa livre de Domenico Scandella, vulgo Menocchio, produziam um resultado digno da própria conotação que este fazia a respeito do Caos primordial da criação produzindo os primeiros seres divinos, os Anjos. Baseado numa inocente e temporal noção de Geração de Vida Espontânea, ele dizia que o Caos era tal qual os ingredientes que produzem o Queijo, e os Anjos seriam os Vermes, que nessa concepção seriam produzidos pelo azedume característico deste derivado do leite.

Esta interessante analogia é só a ponta do autêntico Iceberg filosófico produzido, ou pelo menos reproduzido, por este moleiro, profissional de moenda, que dominava a leitura e tomara contato com várias obras literárias muitas das quais proibidas pela Igreja. E será este um dos principais assuntos a serem desenvolvidos adiante nesta monografia, uma avaliação das correlações e similaridades que tal cosmogonia tinha com produções filosóficas ou tradições religiosas marginais ao contexto, e suas potencialidades como uma forma pessoal e peculiar de ver o mundo.

Um outro assunto predominante, será a respeito da Santa Inquisição, fenômeno pouco compreendido pela maioria das pessoas mesmo que com alguma bagagem cultural, e de alguns outros personagens que tiveram venturas semelhantes à deste humilde mas ousado cidadão italiano.

Quase que englobando os dois temas anteriores, o terceiro assunto em destaque neste trabalho será a crítica, o mais racional possível, às causas e consequências da intolerância de um sistema dominador que tenha como base a ignorância dos dominados, tema recorrente a minhas produções intelectuais.

Recorrente também em meus escritos é o quarto assunto, enfocando uma perspectiva de desenvolvimento histórico visando observar um progresso que defenda minha postura otimista em relação ao futuro da humanidade, na contramão de uma tendência atual que se lança na desconstrução de diversas teorias e que acredita já ter erradicado qualquer resquício de "evolucionismo" histórico social.

Marcus Valerio XR

O CAOS E OS ANJOS

CAOS é um termo usado comumente pela maior parte da população, mas na maioria das vezes a única conotação associada é a de desordem. Já o Caos em questão, conceito filosófico que representa um tipo de "síntese" primordial onde estão presentes os principais elementos da natureza, é bem menos conhecido.

Esse Caos seria como uma sopa, aglutinando legumes, carnes, água e temperos numa massa contínua. Curioso é que este conceito é quase antagônico ao de desordem se observarmos que na desordem aparente deste Caos ocorre a mais perfeita ordem, pois de outra forma não seria uma boa sopa. Tudo está unido numa mesma mistura, numa união plena. Todas as potências do Universo estão ali.

O conceito de uma substância como essa é muito recorrente em propostas cosmogônicas filosóficas, mitológicas e científicas. Pois na impossibilidade humana de se conhecer o Primeiro Princípio, essa idéia atende bem as exigências de uma tentativa de explicação para algo que fora a matriz primordial de toda uma criação.

Vejamos um exemplos distante da tradição, judáico-cristã e européia em geral.

No início não havia nem Céu nem Terra, apenas uma massa disforme e agitada chamada Caos. Então Amenominakanushi, o grande Senhor do Centro do Celestial foi o primeiro das 5 grandes divindades que deste Caos saíram e criaram o Céu. Da última, Amenotokatachi, saíram as outras divindades que formaram a terra. Dentre eles o casal divino Izanagi e Izanami modelaram da lama divina da terra, que viera do Caos, formando as ilhas, e da obra de seus filhos surgiu o mar.

Mitologia Japonesa Xintoísta

Cosmogonias similares ocorrem não apenas nas mitologias Egípcia, Grega, e demais que poderiam ter influenciado direta ou indiretamente as interpretações da realidade que viriam a predominar na Europa medieval, mas até mesmo em mitos de origem das Américas.

E o mais interessante, as recentes cosmologias científicas também remetem a idéia de Caos. Haja visto as teorias de modelo Big Bang, que trabalham com a idéia de um Caos na Bola de Fogo Primordial. O Super Átomo do início do Universo, comportaria toda a matéria que existe hoje, da mesma forma que o Caos destas mitologias tinha todo o potencial para criar o Universo.

Fica claro então que a idéia de um Caos primordial não é uma simples transmissão cultural, ela está presente mesmo em tradições sem qualquer contato uma com a outra, e em diversos campos.

Como se pode ver no livro, o princípio primordial da cosmovisão de Mennochio é o Caos, a mais perfeita substância onde se fundem os 4 elementos primários, Terra, Água, Ar e Fogo. De algum modo, desse Caos, surgem seres, da mesma forma que do Queijo surgem Vermes de acordo com a concepção de Geração Espontânea. Esses seres são os Anjos, do qual Deus a princípio seria o mais perfeito de todos os Anjos.

Ao adquirir consciência e vontade, Deus decide construir o mundo, usando os elementos primordiais que pode encontrar no Caos. Embora ele pudesse tê-lo construído sozinho, o faz através dos Anjos, o que torna o trabalho muito mais rápido.

Não é a toa que tal visão choca-se uma sociedade onde a Gênese bíblica era o indiscutível relato da verdade. Esse simples raciocínio acima apresenta pelo menos 5 heresias, inconcordâncias, com relação a Bíblia, pois de acordo com esta:

1 - Deus cria a Terra do Nada! Ele não usa uma matéria primária como afirmavam diversos filósofos gregos e mitologias. De acordo com a Cosmogenia cristã, não há um Caos primordial.

2 - A Bíblia não menciona a participação dos 4 elementos na criação e edificação do mundo.

3 - Deus é o princípio primário do Universo, Eterno e imutável, incriado. Portanto ele não poderia ter surgido do Caos, e sim sempre existiu.

4 - Deus e os Anjos embora divinos possuem naturezas diferentes, ao contrário do que afirma Menocchio que ambos seriam diferenciados apenas por um certo grau de perfeição. A nivelação de Deus à mesma natureza do anjos é inadimissível.

5 - A única proposição de Menocchio que não só é anti-bíblica como anti-científica, é também a única que aparentemente passou desapercebida, e que não dizia respeito a criação do mundo em si. A de que os Vermes nascem do Queijo, Geração Espontânea.

Biblicamente todos os seres vivos teriam sido criados no momento da Gênese e nunca mais, eles não surgem espontaneamente pois a própria Bíblia declara que cada animal se reproduz segundo sua espécie. Porém, a noção de senso comum de que os seres vivos eram gerados sob circunstâncias específicas tais como os ratos nascerem do lixo, era tão forte que mesmo sendo herética, não causava susto.

É interessante que ninguém tenha mencionado isso. Talvez por que a idéia de uma geração espontânea fosse aparentemente evidente demais para ser negada mesmo com base no livro sagrado. Porém esse é o único conceito usado por Menocchio que é totalmente absurdo cientificamente. Todavia é também justamente esse conceito o mais empírico, que mais se baseava na observação e não na fé, sendo então em seu contexto, o mais "científico".

Portanto, basta essa introdução para que fique evidente a total discordância de Menocchio em relação a Bíblia, mas ele não para por aí, coloca uma série de outras propostas ousadíssimas e ou confusas. Como veremos a seguir.

OS 4 ELEMENTOS

Hoje em dia, às vésperas do Terceiro Milênio, após o estabelecimento da total soberania científica com relação a realidade física do Universo, deveria ser mais do que justo que visões antigas a respeito de como se constitui a realidade estivessem restritas ao passado. Porém basta uma boa olhada por uma livraria comum para vermos que não é bem assim. O misticismo, a mitologia, as religiões e diversas formas não científicas de interpretar a realidade ainda estão em voga, e o mais interessante, estão disseminadas pela maioria da população mundial com muito mais força que os conceitos científicos.

Isso não tira de modo algum a soberania da Ciência em diversos assuntos, principalmente naqueles mais sérios. Podem se juntar todos os feiticeiros do mundo e se rezar todos os terços, mas quando temos uma crise de epidemias, ou alguém está em estado grave num hospital, é o método científico que faz o trabalho pesado. Isso não tira entretanto o valor da subjetividade humana, afinal é plenamente científica a observação da importância do emocional na vida humana, inclusive na recuperação de estados graves de saúde, e isso sim, pode ser realmente influenciado pelo poderoso teor psicológico da "magia" que parece inerente ao ser humano.

Apesar do sucesso de nosso modelo atômico e das leis físicas, veremos claramente que um dos mais clássicos modos de se conceber a realidade ainda está fortemente impresso no inconsciente e consciente da humanidade. Os famosos 4 Elementos primordiais da matéria.

Foram os filósofos gregos a elaborarem essa abordagem, Terra, Água, Ar e Fogo comporiam toda a realidade, porém, seria injusto achar que isso é tão tolo quanto parece.

Primeiro devemos abandonar um percepção literal de tal proposta, ninguém está querendo dizer que tudo está pegando Fogo, ou que se espremermos um tecido sairá Água. Os 4 elementos na verdade, são representações de estados da matéria, Sólido, Líquido, Gasoso, e o controverso estado Plásmico, o do Fogo.

Sendo assim, poderíamos dizer que no metal, seria predominante o elemento Terra, Sólido, devido a rigidez do material, no tecido, haveria equilíbrio entre o Sólido e o Líquido, Terra e Água, que resultassem na plasticidade.

Podemos até mesmo elaborar um quadro comparativo:

FOGO

PLASMA

Plasticidade Ativa

QUENTE





FRIO

AR

GÁS

Plasticidade Moderada

ÁGUA

LÍQUIDO

Plasticidade Passiva

TERRA

SÓLIDO

Não Plasticidade

Espero mostrar com isso que a teoria dos 4 elementos não é tão ingênua quanto parece, ela tenta estabelecer uma categorização para a realidade, é o faz de forma bem eficiente. O erro é entretanto, tentar interpretar os nomes dos elementos de forma literal.

O moleiro Menocchio comete esse erro literal, mas seu raciocínio porém é correto ao interpretar os estados físicos da realidade. O problema maior nesse caso é que as referências bíblicas sobre os quatro elementos são insignificantes.

A Bíblia não tem nenhuma preocupação com a racionalidade no que se refere a representar a natureza, e a concepção dos 4 elementos é resultado antes de tudo do processo filosófico, que tenta entender o mundo através da Razão. Isso por si só, já gera no mínimo uma postura de interpretação diferente nos adeptos bíblicos daqueles que se preocupam mais com a contemplação racional.

Esse seria entretanto, o menor dos problemas, pois na realidade não há um choque flagrante entre as escrituras e a visão dos 4 elementos. Não a princípio. O problema viria antes de tudo, na Cosmo Gênese, onde a origem dos 4 elementos teria de ser explicada, pois a idéia de um Universo eterno há muito era inadmissível não apenas devido a fé cristã, mas à própria tendência a um pensar linear na mentalidade da época, que obrigava a se estabelecer um início e final para tudo. E essa origem segundo Menocchio, era o Caos, que agrupava os 4 elementos.

Para piorar, a idéia dos 4 elementos volta e meia, irá puxar a concepção de um 5o Elemento, para explicar a natureza das coisas não físicas que permeiam um visão espirituosa do mundo. Esse 5o Elemento poderá ser o Éter, a Quintessência, o Espírito, e uma série de outras coisas que tem um ponto em comum. O potencial para confundir a noção desse algo imaterial, haja visto que Menocchio não consegue explicar bem do que é feito Deus, os Anjos ou o Espírito Santo.

O ESPÍRITO SANTO

Dos pretensos Dois Bilhões de cristãos no mundo, duvido que sequer 1% deles saiba dizer corretamente o que é a Santíssima Trindade e em especial o Espírito Santo. Descontando os que estudaram teologia, eu esperaria apenas duas boas respostas. A primeira de que a Trindade e incompreensível à limitada mente humana, e a segunda de que o Pai é o criador de tudo, o Filho é Jesus Cristo, linha direta da humanidade com o Pai, e o Espírito Santo é uma luz que trás a sabedoria. Ainda assim esta última resposta não passa de sombra da paradoxalmente complexa e simples elaboração filosófica da Santíssima Trindade.

Para que fique mais claro a dimensão da questão, faço comparação com duas outras concepções trinárias anteriores a Teologia Cristã, que inclusive nelas se baseou.

Platão afirmava a existência suprema do LOGOS, assim como Plotino afirmava a do UNO, ambos equivalem ao DEUS PAI na teologia cristã, da seguinte forma:

1o LOGOS

UNO

PAI

Princípio Primário, Criador, Gerador, Eterno, Imutável, Ser

2o LOGOS

ALMA

FILHO

Princípio Secundário, Primeira Criação, Manifestação, Devir

3o LOGOS

NOUS

ESPÍRITO SANTO

Inteligência Manifestada, Leis do Universo, Expressão do Ser

Para compreender esse conceito insondável à limitada mente humana, imaginemos o Princípio como aquilo que sempre existiu, o UNO/PAI/LOGOS Gerador. Deste emana algo que existirá subordinado ao tempo, algo que vem a existir, no caso o Mundo/Universo. E assim como emana do princípio algo que vem a existir como físico, também emana o que vem a existir como espiritual, algo que irá reger a criação.

O 3o LOGOS platônico é a Inteligência do Universo, a sabedoria imanente que determina como as coisas funcionam no plano relativo. Quando ouvimos dizer que os profetas são inspirados pelo Espírito Santo, é porque eles captaram algo da sabedoria divina transcendente, eles "viram" a Inteligência e suas Leis.

Portanto, o Espírito Santo é aquele algo que nos faz perceber uma fração da plenitude, aquilo que inspira a busca à Deus. Plotino colocava inclusive que o NOUS interligava a ALMA ao UNO.

Entretanto, quando chegamos a teologia cristã, a concepção se complica, pois o Filho, que na verdade seria todo o mundo criado, passa a ser considerado apenas como sendo a figura pessoal de Jesus Cristo. Ao contrário, na filosofia de Plotino e Platão, resta uma concepção "Panteísta", pois o Mundo manifestado, a natureza, é o Filho, assim como a ALMA, que sendo uma pessoa da trindade então sugere que o mundo é parte do Princípio, de Deus.

Haveria então um Princípio Primário que cria o mundo, mas tal mundo é parte relativa do princípio, assim como a Inteligência que orienta o mundo, que tendo emanado também do princípio mas sendo distinta do mundo, é uma terceira pessoa. Seria como um mundo imanente, uma inteligência transcendente, e um princípio que a tudo gerou. Mas todos interligados e inseparáveis.

Talvez tenha sido para eliminar a sensação panteísta que isso causa, que a Igreja tenha acentuado a identificação do Filho com a figura de Jesus Cristo, eliminando a divindade do mundo, e assim justificando as afirmações de que a natureza, incluindo a natureza humana, seja inerentemente maligna, manchada pelo Pecado Original, promovendo em definitivo uma concepção maniqueísta de que o mundo material é Mau, e apenas o transcendente, o espiritual, é Bom, o que insisto em dizer soa um tanto contraditório uma vez que o mundo foi criado por Deus ainda que tenha sido manchado por Satanás.

O grande ponto, é que de fato pela maioria das teologias cristãs, Jesus Cristo fora a primeira Criação de Deus, antecipando o mundo e em certos casos até mesmo os Anjos. Seria então esse Filho, o criador coadjuvante de toda a demais criação. Na Gênese Bíblica podemos ver que a voz de Deus refere-se a si mesmo como Nós, podendo significar a pluralidade da trindade, ou no caso da teologia judáica, representando o casal divino primordial Javé e Shekinah.

Dessa forma então a expressão "Eu sou o caminho, a verdade e a vida", pode representar que a interligação entre o mundo e o Pai seja feita sempre por intermédio de Jesus Cristo, ainda que uma pessoa jamais tenha ouvido falar em Jesus, e Ele que irá conduzí-lo, no caso daquele que for salvo, ao Pai, que é o que dizem alguns teólogos protestantes.

Voltando ao Espírito Santo, fica claro que Menocchio não entendia bem o que este significava. Ele reproduz idéias que remetem de fato a uma inteligência inspiradora, mas com frequência o confunde com o espírito num sentido mais simples, cuja significância nada mais é do que um "sopro", um "ar".

Teologicamente o Espírito Santo não é superior ao Filho, mas Menocchio insiste em hierarquizá-lo entre o Pai e Jesus. Além disso diversas vezes confunde o Espírito Santo com Deus, o Pai nesse caso, e é difícil saber se isso se deve a uma sub percepção comum a maioria dos cristão, inclusive hoje, que não consegue diferenciar o Espírito Santo do Pai com tanta clareza quanto o diferencia do Filho. Ou se tal confusão se deve ao fato de que a concepção de Menocchio que tende ao Monismo, agrupando Transcendência e Imanência numa só substância, resulta numa concepção Panteísta, que afirma que tudo é Deus e não há separação entre criador e criação.

Para eliminar a dúvida de que Menocchio era afinal um panteísta em potencial embora se embolasse numa visão Monoteísta que separa radicalmente Deus da natureza, ele negou a divindade de cristo não como forma de desacreditar suas qualidades, mas que ele não poderia ser o ou estar tão ligado ao Pai propriamente dito.

Ele achava que se fosse assim não faria sentido que Jesus tanto tivesse sofrido, que teria provavelmente revidado, discordando que tal sofrimento numa concepção mais abrangente de divindade, era algo desejado e planejado, e que mesmo os romanos e judeus de fato, faziam sua própria vontade.

Esse desejo de querer qu um Deus criador se revoltasse diretamente contra as criaturas que aparentemente o feriam, é o que resta em Menocchio da concepção de um Deus separado da criação, Monoteísta. Um deus que poderia beneficiar um povo em detrimento de outro, e sendo assim o moleiro do Friuli, não conseguia atingir o Panteísmo propriamente dito. Panteísmo esse, única concepção teísta capaz de declarar "Tudo o que se vê é Deus e nós somos deuses"; "O céu, a terra, o mar, o ar, o abismo, e o inferno, tudo é Deus".

A SANTÍSSIMA MAJESTADE

Esse recurso é utilizado por Menocchio poucas vezes e não é melhor definido, infelizmente. Se os Inquisidores só investigaram tal assunto o tanto que está apresentado no livro, então devo dizer que os interrogatórios foram de péssima objetividade quer fossem no sentido de apenas investigar ou refutar.

Custo a crer que mesmo naquele diálogo representado no capítulo 26 o inquisidor não tenha insistido mais na questão da Santíssima Majestade, que por vezes de confunde com a Majestade de Deus.

Discordo de Ginzburg que isso seja uma das contradições de Menocchio, o que me parece é que tal Majestade é de fato um conceito paradoxal, tão ou mais complexo que o da Santíssima Trindade e que sendo assim, é naturalmente confuso. O problema talvez seja que Menocchio nunca chegara a elaborar melhor esse conceito.

Tudo indica, que essa Santíssima Majestade precedia o maior dos vermes, Deus. Era uma vontade acima da vontade de Deus, dos Anjos, do Espírito Santo e tudo mais. Sendo assim só poderia concluir que ela esteja associada ao Caos. À "vontade" do Caos.

Se ousar ainda mais, poderia até dizer que Caos (princípio), Santíssima Majestade (inteligência), e os Anjos (criação), comporiam a Trindade de Menocchio.

A grande dúvida porém será se o que ele quis dizer com essa Santíssima Majestade, fosse apenas uma vontade emergente e intrínseca do verme maior ainda em formação.

LÚCIFER, MIGUEL, GABRIEL E RAFAEL

Menocchio também elabora uma hierarquia de seres divinos, os 4 maiores vermes após Deus seriam seus capitães, os famoso anjos Lúcifer, o mais luminoso após Deus, Miguel, capitão dos exércitos celestiais, Gabriel, guardião celestial e anuciador, e Rafael, o que guardava o Paraíso. Passando batido por Metatron, que na Angeologia é na realidade o anjo mais próximo de Deus, mas é simplesmente ignorado pela maioria dos cristãos, e é o único cujo nome original não termina em EL ou AH. Lúcifer no original em hebráico é Samael.

Aqui é evidente a Heresia de Menocchio. Deus não teria criado esses anjos, eles também teriam surgido do Caos, e sendo assim sua cosmogonia se aproxima das mitologias politeístas onde o Deus supremo tem em geral uma origem similar a dos demais deuses.

Sendo assim a visão elaborada por Menocchio não poderia sob hipótese alguma ser Monoteísta, cujo principal atributo é que o Deus maior, ainda que compartilhe o Universo com divindades secundárias, tem que ser obrigatoriamente Eterno, incriado, portanto princípio e fim.

Mas também tal concepção não poderia ser Politeísta, pois nosso moleiro foge de todas as outras mitologias que propõem vários deuses ao colocar Deus como o regente máximo desde o princípio. Em qualquer panteão o Deus supremo final é sucessor de deuses anteriores.

Sendo assim, a única grande concepção teísta que resta seria o Panteísmo, que consegue abarcar todas as outras. Mas como já vimos Menocchio não estava preparado para mergulhar de cabeça numa holovisão de Deus. Ele estava impregnado de conteúdos Monoteístas, tentando desesperadamente validá-los numa concepção claramente Panteísta, o que é simplesmente impossível! Haja visto a Igreja ter alterado o conceito da Trindade, e haja visto a remanescência de atributos divinos como Onisciência, que sempre põem a teologia cristã em apuros ao se perguntar: Se Deus sabia que Lúcifer e o Homem iam cair, porque permitiu? Por que os criou sabendo o que aconteceria? Se permitiu por que puní-los por algo que era inevitável que fizessem?

Numa concepção panteísta é inaceitável que qualquer coisa, pois tudo é parte de Deus, seja separado e muito menos "punido" numa zona afastada de Deus, o Inferno. Fica claro na Gênese que o Abismo e as águas já existiam antes de Deus criar o mundo, e poderiam até mesmo existir independentes, mas isso abalaria a posição de Deus como criador supremo.

Como podemos ver de simples a questão não tem nada. O Monoteísmo a meu ver, parece na maioria das vezes, uma simples tentativa religiosa de justificar atos extremos e hostis contra o outro, o que numa visão panteísta não tem justificação. Um cosmovisão separada, que apesar do nome Mono é na verdade Dual e opositora, "maniqueísta", é uma forma de validar teologicamente uma cultura belicosa e conquistadora. Haja visto o fato de que todas as religiões Monoteístas são ou foram violentas, Bhramanismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo e Shikismo. Apenas essas religiões, ou as Politeístas que já estavam em fase de Monolatria como a Xintoísta Japonesa ou a Egípcia, concentrando suas adorações num único personagem no caso o Imperador ou Faraó, serviram ao longo da história para sancionar sistemas sociais de dominação e conquista.

Menocchio faz a mais curiosa mistura entre Pan e Monoteísmo, uma vez que Deus está em tudo e que o destino do ser humano e se reunir a ele no final da vida de um modo restitutório típico do Idealismo Monista, mas ao mesmo tempo esse Deus cumpre uma série de exigências da religião cristã, e para completar sua origem é típica do Politeísmo.

Há porém uma classificação teísta que pode enquadrar essa peculiar cosmogonia, o Henoteísmo, que é a concepção entre Politeísmo e Monoteísmo, onde há várias divindades mas também um Deus supremo, que necessariamente não tem que ser eterno.

Mas ainda assim, no fundo, Menocchio busca o Panteísmo, pois é a única cosmovisão que pode integrar todas as suas idéias, a de intrínseca ligação de tudo, da presença dos 4 elementos que no final convergem a uma substância única, o Caos, de um "espírito" comum a tudo e outras propostas.

É uma pena que ele não tenha tido a oportunidade de desenvolver melhor suas teorias, de elaborar uma teologia de retorno mais estruturada por exemplo. Recusando por completo a separação final entre Céu e Inferno por exemplo, colocando que todos voltariam no fim ao princípio, ele comprovaria definitivamente a recusa de um modelo de Universo dualista opositor como o da religião cristã e de quase todos os outros monoteísmos.

VIRGINDADE DE MARIA

A dúvida de Menocchio quanto ao nascimento virginal de Jesus me parece ser o elemento mais simples de toda sua Heresia. Deriva antes de tudo da espontaneidade de um povo em aceitar a relação sexual de forma plenamente natural. Não haveria então nenhuma razão válida para o fato de que Jesus não pudesse ser filho de José, seria algo aceitável sem nenhuma dificuldade, afinal todos os demais patriarcas o foram, e se mesmo homens nascidos do modo normal como os outros profetas, os santos e o Papa, podiam ser iluminados, em que isso implicaria em problema para Jesus?

Muito provavelmente Menocchio tomou por relevantes as opiniões que lera a respeito por não sentir qualquer dificuldade em aceitar que alguém como Cristo, mesmo tendo feito tudo o que fez, não pudesse ser apesar de tudo o "Filho de Deus", afinal todos somos filhos de Deus e Jesus seria apenas o mais grandioso.

Tudo me indica que Menocchio nunca desconfiou da razão teológica pela qual Jesus não poderia, sob absolutamente hipótese nenhuma, ter sido gerado em um ato sexual comum. Por que isso era tão absurdamente inaceitável para a Igreja que o Filho de Deus fosse fruto de uma união sexual.

Para compreender isso é preciso voltar ao mito de Adão e Eva e especular sobre uma de suas possíveis interpretações. É provável que tal mito traga de forma simbólica um drama humano bastante comum. Um casal de irmãos vivia sob a proteção de um severo mas provedor pai, tal como a maioria das crianças, viviam num "paraíso" onde pouco lhes era exigido. Mas por algum motivo eles violaram a regra máxima, ou mesmo a única, praticando uma relação sexual incestuosa.

É esse ato sexual que estaria oculto na mensagem do Fruto Proibido, há até mesmo uma relação quase óbvia da Serpente com o Pênis e do Fruto com a Vulva. O ato de comer o fruto, que posteriormente viria a ser ainda mais sugestivamente visto como uma maçã, é uma relação sexual tabu, a primeira transgressão que por violar uma regra ou por causar algum choque moral resultou num exílio.

Isso explicaria algo simplesmente incompreensível na religião cristã. Se Adão e Eva mesmo antes da queda já eram um homem e uma mulher, e não há qualquer sugestão de que seus corpos não tivessem orgãos genitais normais assim como em oposição não há qualquer sugestão de que praticassem sexo no Éden, e em consequência tinham o potencial para se reproduzir sexualmente como todos os demais animais que foram criados ao pares e deviam se reproduzir "segundo suas espécie", mas não o faziam, então afinal por quê? Por quê?! Sexo é pecado?!

Por que após a queda a ato sexual teria que ser inerentemente maligno, sujo e pecaminoso?! A única resposta que consigo ver é que de algum modo o sexo entre eles era proibido no paraíso, o que evidentemente é muito estranho.

Pela interpretação da Igreja Católica, o pecado original era a relação sexual, que marcava a única forma possível de quaisquer seres vivos sexuados se reproduzirem. E sendo isso pecado, qualquer ser humano era fruto do pecado, nascia sujo por natureza, manchado com a impureza dos orgãos genitais.

Se há um dos conteúdos bíblicos que a Igreja hiper amplificou foi a repressão sexual, algo sem paralelo em qualquer outra cultura humana em todo o planeta em qualquer época da história registrada, oral ou mitológica. Não há nenhum outro exemplo de repressão sexual que sequer chegue perto, a ponto de crimes sexuais como estupro, sedução, incesto e qualquer outro tipo de atrocidade relacionada, não ser tão grave quanto o simples ato de se sentir prazer sexual. A ponto inclusive de simplesmente INVENTAR um décimo primeiro mandamento que dizia "Não pecarás contra a castidade", ao qual tive o "prazer" de ser exposto na condição de doutrinando em minha aulas de catequese.

Examinar os motivos que levaram a tal postura é assunto que tem sido abordado em milhares de livros, e não cabe aqui especular mais sobre os motivos que levaram uma instituição a tornar como sendo o mais terrível dos crimes, justamente aquele do qual praticamente ninguém está isento de praticar.

O fato é apenas que sob tal ótica, Jesus jamais poderia ter nascido de um ato sexual normal, pois ele era puro, imaculado como ser divino, não podendo portanto nem praticar e nem ter sido gerado pelo sexo,

Por mais esmagadora que tenha sido a tentativa da Igreja em reprimir o sexo, ela jamais conseguiu atingir com a mesma intensidade todas as camadas populacionais sob a sua influência. O caso da aldeia de Montereale talvez exemplifique um local onde os traumatizantes ensinamentos da Igreja sobre sexo não tenham atingido plenamente. Além é claro que o nível de anti natureza de tal doutrina é tão gritante que ela jamais conseguiu se impor seriamente.

Para uma pessoa normal como Menocchio, que provavelmente nunca fora submetido a toda a dimensão teológica do sexo como pecado, não haveria qualquer dificuldade em aceitar cristo como tendo sido filho biológico de José, sem ferir-lhe as qualidades sobre humanas.

Para finalizar gostaria de ressaltar sobre o mito do nascimento virginal de Jesus o seguinte. O primeiro capítulo do Novo Testamento se dedica a traçar a linha genealógica ascendente de Jesus Cristo por mais de 40 gerações remontando até Adão, e justificando-o como um Judeu legítimo e herdeiro da tradição hebráica. Mas tal linhagem passa por José, não por Maria, a mulher, ser desprezível que no entanto o todo poderoso Pai precisa para colocar seu Filho, Terceira pessoa da Trindade, na terra.

A pergunta é: Se Jesus é filho direto de Deus com Maria, sem a intervenção de José, como ele pode ser descendente de Adão?!?!

LUTERANISMO

Num dado momento, nosso moleiro também foi acusado de protestantismo, em especial luteranismo ou anabatismo. De fato uma das opiniões de Menocchio remetia diretamente as teses de Lutero. Ele acreditava numa relação direta com Deus através do próprio Livro Sagrado, mais um recurso exclusivo das religiões monoteístas. Não havia então necessidade da Igreja e toda sua estrutura de autoridade como intermediária entre Deus e os homens.

Isso é apenas um dos múltiplos efeitos oriundos de uma maior circulação de conhecimentos escritos acessível a população. Podendo ir direto à fonte, cada pessoa pode elaborar sua própria interpretação e mesmo religião, o que a Igreja sempre tentou impedir ao praticamente proibir o acesso popular direto à Bíblia, obrigando os povos a aceitarem a palavra da Igreja em relação à revelação.

Lutero é também pouco mais que um fruto desse maior acesso ao conhecimento, como veremos a seguir.

A FONTE DA DISCÓRDIA

Com a tradicional divisão da História, vemos que seu início se dá numa obscura data relativa a invenção da escrita, por volta de 4.000 aC. Descobertas recentes deixaram ainda mais duvidoso se esse poderoso recurso de comunicação humana, responsável por um avanço revolucionário na transmissão cultural, teria surgido antes na Suméria, Índia, China ou Egito. De qualquer modo não se encontram quaisquer vestígios de escrita anteriores.

A predominância na antiguidade era da escrita Ideográfica, cujos símbolos representavam idéias geralmente usando formas que remetiam à aparência dos significados relacionados. Bem mais recente é a predominância dos sistemas fonéticos, como os kanas japoneses, o alfabeto fenício e os silabários árabes.

O sistema fonético poderia popularizar a escrita que antes era restrita principalmente a sacerdotes e dignatários governamentais. De bem mais fácil assimilação, apesar de desvantagens como em geral ocupar mais espaço, a escrita fonética poderia ter tornado possível que massas populacionais inteiras dominassem a técnica comunicativa que marca o início da história, porém tal acontecimento foi quase insignificante. Ainda seria necessário muito tempo, e ao advento de novas superfícies para escrita como o papel, para que tal popularização de fato ocorresse. Apenas na metade do segundo milênio da Era Cristã ocorreu uma revolução que não encontra paralelo em qualquer outro momento da história. A invenção da Imprensa, que permitiu que o mundo fosse inundado de informações.

A partir desse momento livros podiam ser impressos em grandes quantidades e facilmente distribuídos, panfletos podiam invadir as cidades e jornais seriam a principal fonte de comunicação. Sem dúvida isso aumentou o interesse pela hábito da leitura, e consequentemente o interesse por se aprender a ler, o que num sistema fonético é bastante simples. Alias foi somente aqui, que a invenção do sistema fonético viria a se tornar tão relevante, uma vez que simplifica muito as técnicas de impressão.

Durante 99% da história humana, 99% da humanidade foi ágrafa, sem escrita. Como pudemos ver a escrita ideográfica era restrita a elites e mesmo o advento da escrita fonética não alterou significativamente este quadro. Já o advento da imprensa e outros fatores históricos foram um impulso fortíssimo no alargamento desta habilidade a uma gama maior de pessoas, que embora tenha começado lenta fez com que hoje, as vésperas do século XXI, ocorra o fato inédito de que uma pequena maioria da população mundial seja habilitada a ler e escrever.

Não uso o termo Alfabetização e Alfabetizado por que isso excluiria as escritas não alfabéticas como a Chinesa e a Árabe.

Durante a maior parte da história escrita tivemos modelos sociais autoritários, baseados em classes menores e privilegiadas que controlavam classes maiores e submissas. Dentre os vários métodos de controle das elites sobre essas classes dominadas, estava o controle de informação e conhecimento. Toda a produção cultural mais elaborada, e o conhecimento que permitisse a perpetuação do poder estava centrada nas elites, enquanto a maioria da população sequer sabia ler e escrever.

Sem o domínio da escrita e leitura é impossível produzir conhecimento em larga escala, e sendo assim as massas em geral jamais tiveram a oportunidade de promover sequer uma reavaliação de sua condição social.

É notável que qualquer sistema dominante cultue em sua população a incultura. A ignorância é a fonte da fraqueza dos dominados, e sempre que possível as elites irão neutralizar qualquer tentativa organizada de elevação do potencial de conhecimento de massas que queiram manter sob controle.

O surgimento da imprensa foi um golpe duro na ignorância, a base de poder das classes dirigentes. Não a toa a Igreja Católica Medieval condenou a invenção de Guttemberg.

Na Itália do século XVI, onde ocorrem os eventos narrados na obra de Ginzburg, a circulação de impressos já era notável, e foi esse contexto, e somente por esse contexto, que o tal episódio Menocchio pode ser possível. Sem fontes físicas de informações, ele jamais poderia ter desenvolvido de forma tão rica suas especulações.

Sendo alfabetizado na língua vulgar, não Latim, e tendo praticado e aperfeiçoado sua capacidade de leitura, o moleiro estava apto a converter em idéias aqueles intermináveis caracteres impressos no vasto universo de cada livro. Objeto quase místico se pensarmos que é inútil para quem não sabe ler mas extremamente poderoso para aquele privilegiado que souber decifrá-lo.

Isso não inclui só a habilidade de leitura em si, mas também o interesse e a persistência, como podemos notar mesmo hoje onda a quase totalidade da civilização ocidental é alfabetizada mas mesmo assim uma minoria tem hábitos regulares de leitura.

Pessoalmente não conheço um só caso de alguém capaz de elaborar bem suas idéias e produzir algum conhecimento notável, que não tenha o gosto pelo menos ocasional de passar algumas horas de sua vida frente a um bloco de celulose prensada.

Menocchio era então, uma típica ameaça ao poder da Igreja, um indivíduo que estava disposto a desenvolver sua própria visão de mundo tendo como base conteúdos extraídos de diversas fontes literárias. Uma vez que já não era mais possível reprimir a produção e circulação de livros, e era cada vez mais inviável criar empecilhos para o aprendizado da leitura, restava apenas desencorajar o interesse dos cidadãos pelos livros, e se isso não fosse possível, restava então desencorajar esses cidadãos a elaborar suas próprias idéias baseadas nas fontes literárias.

Poderíamos então até mesmo relacionar as atitudes para que uma pessoa produza conhecimento:

1 - Possuir a habilidade da leitura nessa escrita

2 - Aperfeiçoar essa habilidade e exercitar o interesse pela mesma

3 - Tomar contado com várias fontes de conhecimento potenciais

4 - Passar a produzir um conhecimento elaborado com base nessas fontes

E notaremos então claramente a hierarquia de prioridades de um sistema social dominador no exercício de manutenção de seu estatuto. Ele precisa travar a produção de conhecimento em algum desses pontos. Vejamos como exemplo o caso da escravidão nas Américas na Idade Moderna. Em grande parte das colônias e países era proibido o ensino da leitura a escravos, não sendo isso possível, era preciso restringir essa habilidade apenas a tarefas básicas como as domésticas ou o exercício do comércio. Se o escravo tivesse o interesse em ler, era então necessário impedir que tomasse contado com determinadas obras, e finalmente quando mesmo esse obstáculo fosse quebrado, só restava desencorajar a produção de conhecimento, isto é, o questionamento, os novos pontos de vista, novas propostas de ação e etc.

Poderemos inclusive notar claramente que ainda hoje ocorre em vários países o ataque a algum nível dessa hierarquia de passos para o conhecimento. Uma vez não sendo mais viável na maioria dos casos atacar os itens 1 e 2, os esforços se concentram nos 3, coibindo fontes de conhecimento como foi o exemplo de nossa última ditadura militar, ou no item 4, desencorajando posturas intelectuais ainda que de forma sutil por meio da super valorização de conteúdos menos intelectualmente elevados como cultura física, estética ou esportes. Ou mesmo produzindo uma maciça overdose de valores disseminados pela mídia que vangloriam os instintos mais básicos do ser humano, e deixando o conhecimento para o segundo plano, que no caso da TV são os horários menos "nobres".

Na verdade em alguns locais, países teocráticos islâmicos por exemplo, ocorre que para manter o status quo de submissão feminina, as mulheres sejam proibidas de aprender a ler. Nível 1.

Podemos reestruturar esses passos, agrupando o 2 e o 4 por exemplo, mas mesmo assim veremos que quanto mais elevado seja o nível rumo a produção de conhecimento, mas difícil se torna o controle.

Hoje em dia na maior parte do mundo não se pode proibir a grafalização, tão pouco é possível coibir a livre produção literária e seria muito estranho mesmo para um governo mal intencionado, assumir um postura clara de desestímulo a leitura se ele precisa pelo menos passar a imagem de uma liderança preocupada com a cultura. O que resta então, é o desencorajamento dissimulado.

Até bem pouco tempo atrás, recém saídos de uma ditadura militar, havia expressões herdeiras de uma luta sobretudo intelectual que tinham projeção na mídia, sob a forma da MPB e mesmo do Rock Nacional que ainda que de forma primária, fazia seu exercício de crítica. Hoje em dia porém, apesar das críticas ácidas oriundas principalmente do Rap suburbano, o que têm dominado a mídia é uma massificação de conteúdos que em nada contribuem para o despertar de qualquer interesse na população sobre assuntos maiores que o pão de cada dia e o circo de cada fim de semana.

Ligando o televisor no horário "nobre", vemos Flamengo e Vasco, danças da bundinha e conteúdos novelísticos que mesmo quando bem intencionados, parecem ser tão primários que sua mensagem chega a escapar da percepção da maioria. Nada me tira da cabeça a idéia de que isso é deliberado, uma tentativa das elites de exercitar a incultura populacional tornando mais fácil por exemplo a eleição de governadores que não conseguem sequer pronunciar a palavra "catástrofe", mas que uma vez tendo o poder nas mãos são perfeitamente capazes de deflagrar "cratrastofis" sociais.

Mas podemos ver que isso é tudo o que resta a um segmento social viciado com séculos de controle coercivo inconsequente, é o máximo que na atual configuração podem fazer para ainda garantir parte de seu poder. Mas isso jamais será tão eficiente quanto o controle em qualquer um dos níveis anteriores, a produção intelectual embora precária, tem crescido, o nível geral de ignorância populacional cai progressivamente e revoluções como a Internet cada vez mais abrem as portas da comunicação e cultura.

Digam o que quiserem os pessimistas, mas para mim isso é antes de tudo um estridente, ainda assustador, mas agonizante grito de inconformismo daqueles que vêem o poder escoar-se de suas mãos, mesmo que para mãos diferentes.

Já estando acostumado com a predominante onda de pessimismo, fatalismo e quando não milenarismo que permeia boa parte da produção intelectual atual, já espero que muitos digam que sou um ingênuo iludido por ousar acreditar, ou me deixar enganar, que tenha havido qualquer melhora entre os modelos antigos e o atual. Na verdade muitos dirão inclusive que sequer houve mudança de modelo, apenas disfarce.

Em qualquer sala de aula de uma Universidade, basta perguntar quem acha que a situação de disparidade entre as elites dominantes e as dominadas não se alterou, ou mesmo se agravou na contemporaneidade, e pode se observar como já observei na maioria dos casos, que a maioria dos braços se levantará.

Cansei de colecionar discursos que afirmam que a aparente abertura democrática atual, tendo como vedete as telecomunicações, não passam de uma mera ilusão e que na verdade o abismo entre dominantes e dominados está ainda maior, que a opressão está ainda mais forte e que nunca antes as elites se deleitaram tanto em suas posições de poder.

Só acho estranho é que ninguém ousa dizer, mesmo entre os defensores mais árduos dessa visão fatalista, que preferiria viver antes num sistema antigo do que no atual. Duvido que alguém tenha a coragem de declarar que ao invés de navegar na Internet sendo iludido que está num mundo democrático quando no fundo não passa de um escravo de uma sistema Globalitário, preferiria estar se esgueirando pelas sombras, fisicamente, com medo de ser apanhado por um sistema que não permite sequer uma opinião, proibida, para que pudesse pelo menos discutir se o atual sistema é ou não mais aceitável.

A Liberdade total de ação individual é impossível no âmbito de qualquer sociedade. Por mais avançado e democrático que seja o sistema, os cidadãos terão que abrir mão de muitas condutas que lhe seriam liberadas num estado mais próximo ao natural. Sendo assim a grande questão no que se refere a uma sociedade mais justa não estaria focada na simples liberdade de ação mas antes de tudo na de Pensamento.

Mesmo que estejamos submetidos a obrigações por parte do Estado, se pudermos pensar e nos expressar livremente, teremos uma atuação mais equilibrada entre governantes e governados. Se alguém não concorda com uma política, pode tornar isso público, divulgar suas objeções. Tais objeções poderão ser vista por todos, e poderão convencer grupos importantes. Com isso, ao ser confrontado em suas políticas, o Estado terá que argumentar a seu favor, se conseguir convencer com uma explicação racional, visando uma melhora global e prática para a sociedade, manterá sua política, se não, perderá moral, e a pressão exercida poderá promover um novo direcionamento.

Mas agora pergunto: Como tal é possível se num certo Estado não se puder sequer falar?

Num sistema opressivo onde o pensamento é vigiado, não há qualquer possibilidade de comunicação entre as classes, e políticas podem ser feitas livremente no sentido de beneficiar claramente grupos específicos em detrimento de outros. Se a manifestação de livre pensamento estiver aberta, fica muito mais difícil um desenvolvimento desequilibrado sancionado oficialmente ainda que disfarçado. É por isso que insisto em que SOB HIPÓTESE ALGUMA um sistema deve se opor a livre expressão, e qualquer Estado que o fizer, estará fadado ao derradeiro fracasso.

É principalmente isso que vejo de positivo hoje em dia, nossa liberdade de expressão. É claro que as elites como eu já disse, acostumadas com séculos de poder, ainda possuem seus recursos para se não coibir, pelo menos direcionar e manipular o pensamento, através do controle sobre os meios de comunicação como já coloquei anteriormente. Mas pelo menos já estamos no caminho da liberdade, basta desenvolvê-la, embora de fato, ainda haja muita luta pela frente.

A Igreja Católica no episódio Menocchio, se defrontava com um típico caso de nível 4 na escala de produção de conhecimento por mim elaborada, e aplicava a repressão da forma mais direta possível. A tentativa de restringir a disseminação da imprensa é implacavelmente racional na lógica de uma instituição que precisa da ignorância alheia para se manter.

Menocchio não é o único e nem sequer um raro caso de alguém que após ter acesso a um universo mais amplo de idéias, começa a querer se libertar da obscuridade medieval que já agonizava em pleno renascimento iluminista. Provavelmente muitos dignatários do Vaticano previram que com a disseminação em massa de escritos os casos de heresias iam aumentar dramaticamente. Possívelmente devem ter sido pronunciadas frases do tipo "se essa maldita invenção do Guttemberg pegar vai ser um caos".

Evidentemente estavam certos.

A SANTA INQUISIÇÃO

A grande maioria das pessoas com um mínimo de instrução tem algo a dizer sobre a famosa Santa Inquisição, entretanto basta colher as opiniões para observar a predominância de uma profunda ignorância a respeito de um tema tão complexo. É claro que nada muda o fato de que pessoas, muitas vezes inocentes, foram perseguidas, torturadas e mortas, mas até aí seria o mesmo que pensar que a afirmação "uma guerra onde o mundo inteiro lutou contra os nazistas", revela algo que possa ser chamado de "conhecimento" sobre a Segunda Guerra Mundial.

A Santa Inquisição foi estabelecida oficialmente pe1o Papa Gregório IX por volta de 1234 dC, e só foi se encerrar na sua forma mais tradicional em 1834 quando a Inquisição Espanhola, o último foco oficial de queima de hereges, bruxos e pagãos, foi oficialmente terminada. Só isso já derruba a noção de senso comum de que a Inquisição fora um fenômeno simplesmente Medieval, pois nesses 600 anos, não só a maior como a mais intensa fase inquisitorial ocorrera na Idade Moderna.

Além disso ela não é um fenômeno uniforme e local. França, Inglaterra, Alemanha, Itália e etc., tiveram na maior parte do tempo, fenômenos inquisitórios distintos. E por fim, nem sequer é um fenômeno exclusivamente católico, as Igrejas Protestantes também tiveram, embora com outros nomes, violentos tribunais de fé que em várias épocas, executaram muito mais pessoas que a Inquisição Católica, excetuando a espanhola.

Para efeito de uma melhor compreensão podemos dividir a Inquisição em 3 fenômenos distintos:

- O Julgamento dos Hereges. (geralmente teólogos, filósofos e cientistas, não raro da própria Igreja)

- O apuração das práticas de outras religiões "tradicionais", principalmente Judaísmo, nos convertidos

- A perseguição às religiões pagãs obscuras, e investigação de feitiçaria. (Caça as Bruxas)

Heresia é uma proposta filosófica que diverge da estrutura tradicional. Como com o tempo propostas heréticas tendem a gerar novas seitas desmembrando a religião original, ou mesmo reestruturá-la profundamente, a Igreja Católica não hesitou em manter severa vigilância contra atitudes consideradas heréticas.

E nesse caso que se enquadra o Caso Menocchio, como veremos mais adiante.

A perseguição a outras formas religiosas significativas como Islamismo e Judaísmo, nada tem a ver com a heresia propriamente dita, antes poderia ser chamada Apostasia. Trata-se em parte basicamente de eliminar a "concorrência" de peso, e de paralelamente promover uma programa radical de conversão forçada. Sendo o cristianismo uma religião missionária, se acha na obrigação de propagar seu modelo de fé o mais amplamente possível e mesmo que utilizando táticas questionáveis, pois em seu raciocínio, o fim justificaria os meios.

É importante lembrar porem que a Inquisição só possuía jurisdição sobre os cristãos, não podendo julgar membros de outras religiões. O ocorrido é que em diversos casos, ex judeus e muçulmanos insistiam nas práticas de suas religiões antigas ou mesmo cristãos de nascença eram influenciados por elas.

Já o fenômeno associado a "Caça as Bruxas" é o mais complexo, e que mais marca a memória popular. Trata-se da postura da Igreja em reprimir outras formas religiosas menos visíveis mas presentes na tradição e cultura de um povo. Tais formas religiosas podiam aparecer sobre as mais diversas manifestações, tais como técnicas de cura natural, rituais pagãos ou mesmo um comportamento diferenciado.

Por incrível que pareça, no início da Inquisição, esse era o ramo que poderia ser considerado bem vindo até mesmo para o acusado, por um motivo muito simples. Incriminações de feitiçaria são bem mais antigas que a própria Igreja. Numa aldeia medieval, bastava um doença contagiosa para que a população desconfiasse de bruxaria e procurasse um culpado. A complexa rede de intrigas de qualquer sociedade acabavam por acusar alguém, e esse alguém era invariavelmente executado sem qualquer forma de investigação ou julgamento.

A Inquisição em parte, constituía um tribunal no qual o réu poderia pelo menos teoricamente, se defender, e com certeza era mais fácil escapar de um processo organizado movido pela Igreja do que da descontrolada fúria popular.

Por outro lado, e nesse âmbito que irá se desenrolar um dos episódios mais grotescos e hediondos de toda história da humanidade, a epidêmica "Caça as Bruxas" propriamente dita, que nos séculos XVII a XIX irão promover chacinas devastadoras em diversas cidades européias e americanas, promovidas também pelas Igrejas Protestantes. É esse fenômeno iniciado com a publicação do Maleus Maleficarum, pelos teólogos católicos Henry Krames e James Sprenger, também conhecido como "Martelo das Bruxas" que marcará para sempre a Inquisição, promovendo uma insanidade coletiva tão terrível que esvaziou em definitivo o moral da Inquisição, tendo sofrido severa resistência até mesmo dentro da própria Igreja.

Voltando ao caso Menocchio, e sendo evidente que este se dá no âmbito da Heresia, podemos agora entender melhor o que ocorre especificamente nesse segmento da Inquisição. Seria ingenuidade comparar o processo contra o moleiro italiano com um singular processo de julgamento contra uma suposta bruxa. Diferente deste último caso, o Hereges podiam se defender com muito mais chances de sucesso, e na grande maioria dos casos, ao proclamar suas próprias concepções e idéias filosóficas, sabiam onde estavam pisando.

Fica evidente desde o começo do livro que Menocchio tinha noção do que poderia lhe ocorrer, e mesmo assim ousou falar, arriscou por um irresistível desejo de expressar suas idéias. Aos hereges sempre era dada a oportunidade de negar tudo e receber uma pena mínima, muito diferente da Caça as Bruxas, onde segundo o Maleus Maleficaram, o simples fato de sofrer a acusação garantia que uma mulher era culpada, ou Deus não permitia tal injustiça, e sendo assim bastava extrair a confissão sob quaisquer métodos, o que incluí as torturas mais monstruosas. Nesse caso como já foi dito a 6 parágrafos acima, o fim justificava os meios, pois era preferível para a própria alma sofrer as torturas em vida e se arrepender, do que sofrer a eternidade no Inferno. No caso da Caça as Bruxas, as garantias do réu eram juridicamente nulas, ele, ou melhor dizendo na maioria dos casos elas, não tinham a menor chance de defesa.

Com Menocchio e os demais hereges era diferente. Ele poderia ter desistido de seu intento de falar para pessoas mais importantes que seus concidadãos ignorantes, poderia ter preferido se calar, mas preferiu seguir em frente e como disse diversas vezes, mesmo sabendo que poderia ser morto. Ele também ainda estava um pouco antes do período em que a Inquisição iria se deteriorar tanto, que Hereges viriam a ser confundidos com Bruxos, ou que todo o patrimônio da pessoa executada era confiscado pela Igreja para pagar os custos da investigação, o que curiosamente incluía as bebidas dos soldados. Mais uma nota interessante, segundo muitos autores as Igrejas Protestantes queimaram mais bruxas do que a Igreja Católica.

Como o livro declara em suas últimas linhas, para nosso herético moleiro, assim como para muitos outros, ser ignorado era muito pior do que nunca ter a oportunidade de falar, e de fato, assim ele conseguiu sua imortalidade, garantindo seu lugar na história.

O UNIVERSO É INFINITO

Sinceramente acho surpreendente que o nome de Giordano Bruno só tenha sido mencionado na última página da história de Menocchio, descontando o posfácio. Pelo menos a partir da metade do livro, eu já estava disposto a relacionar esse autêntico Heresiarca e Mártir com o obscuro moleiro italiano.

As datas de seus processos são quase perfeitamente paralelas, com a diferença que Bruno, executado em Roma, passou a maior parte do tempo encarcerado, era perseguido não só pela Igreja Católica como pelas protestantes e deixara diversas obras publicadas. Mesmo suas datas de execução distam em menos de um ano, e o melhor de tudo, é impossível não ver um relação direta entre algumas de suas idéias no que se referem a causar impacto, guardando as devidas proporções é claro.

Diferente de Menocchio, Giordano Bruno era um filósofo plenamente escolarizado, formado na tradição escolástica, profundo conhecedor dos clássicos e detentor de uma capacidade de argumentação fortíssima. Diferente o humilde moleiro do Friuli, Bruno não incorria em constantes contradições, sua perícia dialética era capaz de atormentar seus inquisidores tanto quanto estes o atormentavam, e além disso, manteve-se resoluto até o fim, sem demonstrar fraqueza alguma perante seus algozes e não raro zombando até mesmo do Papa.

Um caso como esse mereceu toda a atenção da Igreja de Roma, Bruno era um ameaça potencial que em módulo fazia Menocchio parecer inofensivo. Como no máximo 25 hereges foram executados em Roma em todo o século XVI, Bruno era evidentemente um caso especial, afinal suas obras filosóficas podem ser encontradas hoje em dia em toda sua plenitude, mostrando página a página conceitos capazes de colocar qualquer cristão de cabelo em pé. Uma delas é a afirmação título deste capítulo que por sinal constitui o primeiro princípio da Filosofia EXERIANA por mim desenvolvida, e que era acompanhada da constatação pioneira de que sendo as estrelas sóis como o de nosso sistema estelar, haveria infinitos planetas habitados em todo o Universo.

Tal como Menocchio dá a entender Bruno era um Monista, e entre outras coisas desacreditava inúmeros dogmas da teologia católica. Mas não cabe aqui traçar um árduo paralelo entre a complexa e sólida filosofia de Giordano Bruno e proto filosofia de Menocchio, antes caberia dizer uma coisa que seria algo bastante perturbadora para a os padres da Igreja caso a idéia na época lhes tenham passado pela cabeça.

A idéia de que Menocchio, era um Bruno em potencial!

Não duvidaria que caso naquela mesma época pensadores famosos, influentes e implacáveis como Bruno, e especialmente ele, não estivessem abalando os alicerces da Santa Madre Igreja, talvez o caso Menocchio não recebesse tanta atenção.

Talvez o moleiro herege encarnasse um dos maiores medos da Igreja, o medo de ver o que a atitude contestatória de um indivíduo poderia fazer caso tivesse todos os recursos culturais que Giordano Bruno teve. Não duvido nada que caso esse simples moleiro tivesse tido acesso pleno ao conhecimento, hoje teríamos seu nome entre os grandes filósofos da humanidade, talvez integrando da mesma forma o seleto grupo de mártires incinerados. Se todos os menocchios em potencial tivessem livre acesso a qualquer conteúdo literário sem qualquer repressão, eles já teriam aniquilado a base da Igreja há muito tempo. Não há como negar que dentro de sua lógica opressiva, a Igreja não tinha outra saída que não fosse a repressão.

Casos como Menocchio e Giordano Bruno representavam a mais severa ameaça à Igreja, eram adversários que se não fossem silenciados causariam, e realmente causaram, danos irreparáveis a fé cristã. Mostrariam com clareza todo o edifício de contradições que permeava a religião Católica no que se refere a compreender o mundo e o Ser Humano.

CRONOLOGIA DO CASO MENOCCHIO

ANO

Evento diretamente relacionado a Menocchio

Eventos concorrente relevantes

1532

Nascimento em Montereale

1534 - Cisão final da Igreja Inglesa

1545-63 - Concílios de Trento*

1546 - Morre Martinho Lutero

1548 - Nasce Giordano Bruno

1559 - Calvinismo chega a França

1564 - Papa Pio IV lança o Index

1570 - O moleiro Herético Pellegrino Baroni é processado

1573-5 - Bruno é padre e Teólogo

1564-65

Vivera em exílio em Arba devido a um breve desterro

1571

O nobre Fulvio Rorario o define como "Um Grande Herético"

1581

Fora Magistrado de sua aldeia e dos vilarejos ao redor

28/09/1583

Fora denunciado ao Santo Ofício

02/1584

Interrogatórios nos dias 7,16 e 22

1584-85 – Várias publicações de Bruno, algumas vão para o Index Librum Proibitorium, há semelhanças com as idéias de Menocchio

08/03/1584

Quarto Interrogatório

28/04/1584

Quinto e mais chocante Interrogatório em Portogruaro

01/05/1584

Sexto Interrogatório

12/05/1584

Sétimo e último Interrogatório do Primeiro Processo

17/05/1584

Recusa um advogado que lhe fora oferecido e escreve uma carta de clemência, a sentença é proferida e ele é encarcerado

16/01/1586

O filho Ziannuto pede clemência, sentença alterada e Menocchio é solto do cárcere podendo ficar restrito a Aldeia de Montereale

1590

Novamente nomeado administrador da Igreja de Santa Maria

1593

O Bispo Matteo Sanudo identifica dívidas de Domenico Scandella com a administração

1592 - Giordano Bruno é preso e julgado em Veneza

1595

O Prestígio de Menocchio é atestado devido sua escolha como Arrendatário numa questão jurídica sobre terras.

1595

Foi mensageiro para o magistrado local

1595?1596

Morre seu filho Ziannuto, o único que lhe ajudava, posteriormente morre sua mulher

1596 - Nasce René Descartes, que viria a impulsionar a Renascença e a Ciência

22/01/1597

O Pároco Giovan Daniele Melchiori atesta a sinceridade de Menocchio como Cristão

26/04/1597

Lhe é negada a liberação do uso do Hábito penitencial

1598

Dom Ottavio Montereale teria ouvido heresias de Menocchio

1598 - Edito de Nantes libera temporariamente o protestantismo na França

28/10/1598

O Santo Ofício entre em ação novamente ao identificar que Menocchio e Domenico Scandella são a mesma pessoa

01/1599

Primeiro Interrogatório do Segundo Processo

06/1599

É preso no Cárcere de Aviano

07/1599

Interrogatórios nos dias 12 e 19

22/07/1599

O advogado Agostinho Pisensi apresenta sua defesa

05/06/1599

O Cardeal de Santa Severina exige a punição de Menocchio

02/08/1599

O Santo Ofício declara Menocchio um relapso reincidente

04/08/1599

Sua casa é revistada e todos os escritos e livros são confiscados

05/08/1599

Menocchio é torturado para que revelasse "cúmplices"

14/08/1599

O Cardeal de Santa Severina insiste em máxima severidade

1599 - O Cardeal Bellarmine dá o ultimato a Giordano Bruno, exigindo retratação em 8 de suas propostas heréticas

Em dezembro Bruno decide definitivamente não se deixar vencer

05/09/1599

O Inquisidor requisita ao Cardeal menos rigidez no caso Menocchio

30/10/1599

O Cardeal retrucou exigindo a pena máxima, o Papa Clemente VIII também exige sua morte

13/11/1599

O Cardeal dá o ultimato

1599?1600

Menocchio é executado

8/2/1600 - Giordano Bruno é Executado

* O Concílio de Trento foi realizado pela Igreja Católica em reação a Reforma Protestante, reafirmando diversos dogmas e equiparando as revelações da Igreja no mesmo nível de autoridade da Bíblia. Várias das heresias de Menocchio violavam diretamente resoluções deste recente Concílio.

Com isso creio ficar evidente que o caso Menocchio sofreu uma severa influência do contexto ainda que não diretamente. Se tal ocorresse antes das Teses de Lutero por exemplo, talvez ele passasse apenas por um louco, que não chamaria a atenção de um Tribunal da Inquisição.

EVOLUÇÃO CULTURAL

A constatação da hegemonia e da intensidade do pessimismo que ocorre na atualidade me levou a fazer sérias investigações sobre o assunto. Me perguntei diversas vezes por que um número tão grande de pessoas dos mais diversos níveis sociais e culturais, tem um interpretação depressiva da realidade. E por que há tanta resistência em se admitir como progressos, ou sinais de melhora, eventos como o fim da escravidão, conquistas de direitos trabalhistas, diminuição da discrepância entre ricos e pobres.

Mas acima de tudo, porque é tão inaceitável que alguém reconheça alguma evolução positiva no mundo ocidental de hoje, para um mundo onde pessoas de pensamento livre como Menocchio eram comumente punidas com a morte?

Ou talvez de forma ainda mais dramática.

Por que se acusa de iludido e ingênuo, quem considera que trabalhar 8 horas por dia, ter direito a aviso prévio, fundo de garantia e plano saúde, poder professar qualquer religião a vontade, fazer parte de qualquer facção política e poder mudar de emprego, estado ou país a hora que se queira, é pior do que trabalhar 16 horas sem garantia nenhuma, podendo ser demitido a qualquer momento na hora em que mais se precisa como ao se adoecer ou envelhecer, ser obrigado a obedecer cegamente uma crença sem questionar e aceitar fazer parte de um segmento social sem qualquer esperança de mudança voluntária?

Por que não se pode dizer que houve uma melhora social ao longo da história?

Não é tão simples assim, é claro que antes de tudo trata-se de uma observação emocional sobre a realidade, baseada em valores muito subjetivos, que no entanto são universais. É evidente que há motivos para se lamentar certas mudanças e se comemorar outras, mas o fato é que eu não vejo qualquer razão no mínimo razoável, para que não se possa ter uma opinião progressista sobre pelo menos alguns aspectos sócio históricos.

Num análise mais racional, estou convencido que o processo histórico em si não possui valor em si mesmo, é neutro, assim como qualquer outro aspecto da realidade. Dessa forma, atribuir uma interpretação de melhora ou piora no história é uma questão meramente humana, que porém pode ser racionalmente justificada sob alguns pontos de vista.

A questão é que hoje em dia há um clima melancólico sobre a realidade, uma sensação incrível de tragédia histórica, de piora vertiginosa e acentuada, mas o que mais me preocupa é por vezes, a agressividade com que uma visão não pessimista da realidade é combatida em alguns meios.

Há pouco menos de um ano, detectei uma fórmula linguística que quase infalivelmente faz afirmações tolas. Ela tem como contextualizadora a expressão "Hoje em dia...", ou similar, e faz um julgamento de valor, subjetivo, sobre o mundo, em comparação com outro valor subjetivo de um "passado" qualquer. Uma expressão como essa, salvo quando faz alusão direta a um dado objetivo, como o maior contingente populacional ou o maior desenvolvimento tecnológico, é uma passaporte praticamente garantido para uma afirmação vazia e ingênua. Como é o caso desta minha frase acima, que atualmente eu sustento somente com a retirada do "hoje em dia". Marcus Valerio XR - 20/11/2006

Tudo isso me leva a elaborar uma teoria que por enquanto chamo de Complexo de Paraíso Perdido, que levanta alguns aspectos. O primeiro é que há uma inclinação natural para essa sensação de perda no ser humano, baseado no trivial desencanto com o mundo devido ao fim da infância e pré adolescência, que faz com que muitos adultos sintam que o mundo a sua volta não mais tão interessante quanto antes.

O próprio Ginzburg cita na página 157 o seguinte:

"Nas sociedades baseadas na tradição oral, a memória da comunidade tende involuntariamente a mascarar e a reabsorver as mudanças. À relativa plasticidade da vida material corresponde assim uma acentuada imobilidade da imagem do passado. As coisas sempre foram assim; o mundo é o que é. Apenas nos períodos de aguda transformação social emerge a imagem, em geral mítica, de uma passado diverso e melhor - um modelo de perfeição, diante do qual o presente aparece como declínio, degeneração. "Quando Adão cavava e Eva tecia, quem era nobre?" A luta para transformar a ordem social torna-se então uma tentativa consciente de retorno àquele mítico passado."

Adaptando o mesmo raciocínio a atualidade, e acrescentando o elemento pessoal de desencanto pós infantil que atinge grande número de pessoas, não é difícil entender por que todas as gerações têm que ouvir de seus predecessores estórias de um tempo em que era melhor, o famoso "meu tempo". Eu mesmo sinto as vezes que as brincadeiras e desenhos animados do "meu tempo", me parecem mais divertidas que as das crianças de hoje. Além disso temos o comum hábito de minimizar os eventos menos agradáveis do passado maximizando os que nos alegravam, quando não elevamos imprevisivelmente o valor de certas pessoas e situações que perdemos, ou não bloqueamos por completo as lembranças realmente desagradáveis.

Uma vez com esse sentimento íntimo de decadência estabelecido, nossa visão não apenas sobre nossa própria vida, mas sobre toda a realidade e o processo histórico, tende a ser pessimista. Resultado? Sensação de Paraíso Perdido, degeneração progressiva, Milenarismo.

Por outro lado, é muito fácil condenar os males procedidos pelas gerações passadas, é fácil identificar os erros de uma cultura quando não se está dentro dela. O senso comum hoje em dia não hesita em declarar como horríveis e inaceitáveis os excessos da Igreja Católica no passado, todos concordam que fora uma crueldade, desumanidade injustificável que tantas pessoas tenham sido torturadas e mortas por questões de fé.

A maioria dessas pessoas ignora o triste fato de que, se inseridas naquela mesma cultura, muito provavelmente fariam a mesma coisa.

A grande capacidade não é ver os erros de uma outra cultura, mas perceber os erros na própria cultura. Pouquíssimas pessoas em toda história desafiaram o próprio estabelecimento social no qual foram criados, poucos são capazes de ver além do próprio contexto cultural.

Aquela foi uma época em que a maioria não possuía dúvidas quanto ao fato de haver um Deus todo poderoso exigente e vingativo, não tinha dúvidas quanto autoridade e sacralidade da Igreja, não tinha dúvidas quanto ao perigo das heresias e das feitiçarias, da mesma forma que como o próprio Renato Janine Ribeiro coloca, hoje em dia não temos dúvida do perigo das infecções, mencionado no Posfácio do livro. Seria ele um "posfascista"?

Menocchio foi uma das exceções, alguém que desafiou os dogmas de sua época, que teve coragem de contestar a visão hegemônica, e até de morrer por isso. E a maioria das pessoas que hoje não hesita em ver uma terrível injustiça em seu caso, se vivesse na sua época, também o condenaria.

Não se pode identificar culpados, não se pode condenar os personagens da época, ou procurar um vilão para o qual possamos transferir toda a responsabilidade pela "maldade" de um acontecimento histórico. Nem mesmo uma instituição pode ser responsabilizada.

Há uma interminável sequência de erros propagados pelas mais diversas formas, se ninguém é culpado ao mesmo tempo todos têm sua parcela de culpa, mas de uma certa forma, podemos achar um substrato comum que nos permita identificar a raiz de todo o problema. Ignorância.

Só a ignorância poderia fazer alguém acreditar que reprimir a sexualidade humana é um bem, que proibir novas idéias é manter a segurança, que praticar os atos menos religiosos possíveis seriam expressar a vontade de Deus. Só a ignorância poderia fazer com que alguém acreditasse num Deus que pune por toda a eternidade por delitos mínimos, pode fazer com que alguém aceite a imposição de um conteúdo que não se relaciona com a realidade e sim com uma hipotética esperança num plano completamente supra sensível, ou seja, acreditaria num ser supremo e de inteligência e bondade infinita, que exigiria através de uma elite social que sequer dava bons exemplos, que preceitos totalmente incompatíveis com a realidade e a natureza, promulgados por algo que nunca se viu, fossem cumpridos sob pressão de punições que no final eram plenamente mundanas, e que não raro beneficiavam de forma mundana a elite social que era a única coisa palpável desse hipotético ser supremo.

Por isso uso como argumento a superação da ignorância para defender uma visão otimista e progressista na história. Nunca um progresso linear e sim com altos e baixos e autênticos retrocessos temporários. Quebro uma visão dominante de um mundo em decadência tentando ver além de véu cultural, que é alimentado por uma tradição religiosa que diz que caímos de um paraíso e caminhamos para um Apocalipse, que declara estarmos cada vez mais próximos do fim de tudo, mesmo que se diga tal desde o início da era cristã.

Não é possível negar que proporcionalmente o nível de ignorância mundial da humanidade diminuiu drasticamente, e os maiores impulsos a essa diminuição são muito recentes, não chegando de fato a constituir um sequer geração acostumada a tão pleno acesso a conhecimento.

Há 400 anos Menocchio foi executado por acreditar em algo que viera como disse, de sua própria "cabeça", desafiou a autoridade de uma época, lutou contra a ignorância e com isso ajudou a derrubá-la.

Hoje temos todo o conhecimento necessário para evitar que novos excessos como esse voltem a ocorrer. Temos todo o exemplo do que a ignorância fez, e continua a fazer, em diversas partes do mundo. Temos a melhor de todas as chances para começar a erradicá-la de uma vez por todas.

Mas não conseguiremos fazer isso se acharmos que um qualquer período anterior da história, era melhor que o atual, período que só conseguiremos voltar se aumentarmos novamente a ignorância em nosso meio.

Se não nos apegarmos ao misterioso sentimento de saudade de um paraíso perdido que jamais vimos, temos a chance de progredir e garantir que coisas como a Inquisição jamais voltem ocorrer, e pessoas corajosas e geniais como Menocchio, não tenham que morrer para entrar para a história.

JUSTIÇA HISTÓRICA

Embora concorde plenamente que a idéia de um Tribunal da História, que julgue determinados personagens e eventos seja no mínimo ingênua, acredito que há lugar para a justiça na história, Justiça Poética.

Durante milhares de anos algumas pessoas desafiaram a ordem vigente e não raro morreram por isso. Ousaram apontar a hipocrisia dos déspotas e as falhas do sistema em que viviam, tiveram a coragem de se expor por aquilo que acreditavam e em muitos casos, sofreram as piores retaliações que infelizmente muitas vezes, partiam inclusive daqueles que poderiam ser beneficiados com suas idéias.

As elites e sua incansável capacidade de manipular as massas, sempre souberam voltá-las na direção que lhes interessava, mesmo que tal direção fosse o absoluto oposto daquela na qual poderiam encontrar alguma melhora. A única forma de fazer isso seria se valendo da ignorância da população.

Em muitos casos, diversos desses mártires que desafiaram a sociedade, combatiam a ignorância em seu meio, mas a própria ignorância deste meio acabaria por destruí-los. Fisicamente.

Em muitos desses casos o tempo e a história viriam a reconhecer suas contribuições, só o progressivo estágio de superação da ignorância, e em parte também o sentimento de culpa, mostraria que muitas daquelas pessoas que antes foram repudiadas e eliminadas, tinham de fato melhores propostas. Elas são então justificadas, honradas tardiamente e não raro elevadas a um estatuto divino. Estatuto esse que poderá vir a configurar uma nova ordem social, com um novo estabelecimento cultural que poderá também apelar para a manutenção da ignorância para se manter. E então aquele que repetir o feito dessa nova "divindade", terá o mesmo tratamento intolerante, e poderá novamente pagar com a vida. Não é para menos que a frase "A história se repete" e tão irresistível.

Não é preciso endeusar personagens do passado no sentido de justificá-los, na verdade tende a ser extremamente prejudicial para a sociedade compensar o sofrimento causado a um revolucionário por meio de elevá-lo a uma dimensão sobre humana.

Não há necessidade de se canonizar Joana D'arc para se reconhecer seu valor.

Ao resgatar a história do indivíduo, ao tentar mostrar no que ele acreditava, e no modo como enfrentou seu tempo, podemos compensar sim, de algum modo, de forma mais justa e sensata, os erros que foram cometidos.

Carlo Ginzburg dá esse exemplo, ao retirar da obscuridade o caso de Menocchio, um cidadão tão obscuro no campo da história, ao trazê-lo a tona e por sua ventura em discussão, o autor faz aquilo que ao meu ver, é o mais próximo que podemos chegar de uma Justiça na História.

Marcus Valerio XR

Bibliografia

GINZBURG, CARLO, O Queijo e os Vermes, Editora Cia das Letras, São Paulo, 1998

Coleção Os Pensadores, Giordano Bruno Vida e Obra, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1988

ROCHEDIEU, EDMOND. Xintoísmo e As Novas Religiões do Japão. Ed. VERBO Lisboa/São Paulo, 1982.

LOPES, LUIZ ROBERTO. História da Inquisição, Editora Mercado Aberto, São Paulo, 1994

SILK, JOSEPH. O Big Bang - A Origem do Universo, Editora UnB, Brasília, 1988

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