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22 de Agosto

DEFENDENDO O INDEFENSÁVEL

Sempre tive uma queda para Advogado do Diabo, portanto, eis que farei novamente uma defesa da pessoa de Jair Bolsonaro ao mesmo tempo que um ataque a seus eleitores e associados.

E que ninguém se engane. É digna de Dallagnol a minha convicção de que o Governo Bolsonaro é a pior desgraça que já passou pelo Palácio do Planalto. Até o Costa e Silva era melhor, o Alckmin seria melhor, até o Álvaro Dias seria menos ruim, QUALQUER COISA seria preferível.

Mas isso não muda os fatos que quero apontar.

E o fato é que o cara estava lá, de boas, há mais de 20 anos, curtindo um cargo público sossegado, sem se dar ao trabalho de participar de comissões, nem aprovar qualquer projeto de lei, usando dinheiro público pra "comer gente", sem querer saber de disputar prefeitura, governo ou senado, fazendo aqueles nepotismos tradicionais e beneficiando a própria família como qualquer político típico do sistema costuma fazer. Não estava lá por conta própria, repreentava um o eleitorado que o legitimava, e isso tem que ser respeitado. Fato é que, à sua maneira, estava quieto, na dele, apenas dizendo as poucas e boas, ou muitas e ruins, que o popularizaram,

E veja só que interessante! Em muitas ocasiões votava de acordo com reais interesses populares, em especial em questões de desenvolvimento. Votou junto com o PT em quase tudo que este fez de bom.

Bem que podia ter continuado assim.

Mas aí a brutal carência do brasileiro por heróis somada a burrice sistemática de certos naipes ideológicos decidiram transformá-lo num mito, totalmente à sua revelia. Fenômeno internético típico que nada deve ao alvo da espontânea campanha popular. Tal qual Eduard Khill nada fez para ser transformado no icônico Trololo, Serguei Stepanov no emblemático Epic Sax Guy, ou Jeremias José no antológico bêbado mais popular do Brasil, Bolsonaro também nada fez além de ser ele mesmo para que o transformassem no Mito.

"Mas o filho dele que não é bobo
E quer entregar, o Brasil todo
Mesmo só pra ver, só pra ver qual éééé...
Ele não quer seeer...
Um bobocão!"
(Parodiado de 'Universotário', de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados)

E eis que o tal do Eduardo Bolsonaro, esse sim, um sujeito bastante perigoso, viu ali a oportunidade de alçar o pai a um nível que ele próprio jamais almejaria, canalizando o fenômeno internético e capitalizando a insatisfação popular com a Neoesquerda, que não cansa de insultar o povo com suas pautas bizarras.

E o fenômeno foi crescendo, atraindo atenção de forças que viam frustradas suas tentativas de derrotar o PT nas eleições. Na realidade, tal feito jamais seria possível sem o trabalho incessante da Globo e da Abril, principalmente, que dedicaram todas as suas forças para demonizar o PT e abrir caminho para a volta do PSDemB, mas que terminaram conseguindo apenas metade de seu intento.

E aí veio aquela tal "entidade" fantasmagórica chamada "mercado", com todos os seus vampiros financistas, parasitas especuladores e lobbystas que não sabem a diferença entre capital e trabalho, que "invisivelmente" apoiavam Alckmin ou Amoedo, e concluíram que Paulo Guedes era a opção mais realista para dar prosseguimento ao plano "Temer" de destruição da nação.

E assim, pela primeira vez na história deste país, um político foi eleito não pelas promessas que fazia, mas com a maior parte de seu eleitorado acreditando que ele não faria o que estava prometendo, baseado em parte na noção infantil de que os políticos nunca cumprem o que prometem.

Mas essas antas não sabem que isso só se aplica a promessas benevolentes à população, e não às autênticas ameaças como as proferidas pela quadrilha liberalóide que terminou tomando de assalto o Planalto.

E assim, com exceção dos que conscientemente votaram em Guedes, pecando apenas pela perfídia mas não pela estupidez, e também daqueles cujo nível de corrupção cognitiva os rebaixa ao extremo de crer em ameaça comunista, estando inaptos para compreender o que quer que seja, é então lícito serem confrontados com a pergunta: QUE RAIOS VOCÊS ESPERAVAM?!

Já ouviram a máxima "O poder corrompe"? Acharam que dando poder a um imbecil iriam curá-lo? Quando foi que ele disse qualquer coisa que desse a entender que não faria patifarias bizarras como querer por o filho numa embaixada e que se o Senado não aprovar irá, de pirraça, colocá-lo no Itamaraty? Ou de demitir funcionários que simplesmente falam verdades inconvenientes? Ou de usar prerrogativas executivas para fazer vingacinhas torpes contra desafetos pessoais?

Ele sempre foi assim! Ele nunca disse que não era! Ele sempre deixou claro que é isso que está aí!

Uma vez que o estrago maior está feito, a Reforma da Previdência, e que a Privataria parece capaz de seguir por conta própria, tiraram a focinheira que ainda o continha de ser ele mesmo, e agora esse é exatamente o Bolsonaro em que vocês votaram. Na melhor das hipótese, uma piada de péssimo gosto que nenhum outro governo do mundo leva a sério, nem o dos EUA! Na pior, exatamente o que está sendo, alguém que entrega o país em nome da soberania nacional, arruína acordos comerciais consolidados há décadas por pura boçalidade, afugenta investimentos e verbas internacionais, e não tem a menor noção do que está fazendo no cargo para o qual foi eleito por 40% (55% dos 80% que votaram) de um eleitorado num surto esquizofrênico.

A vergonha de ter um presidente que passou a violar a própria recomendação justo quando a anunciou, visto agora defecar pela boca todos os dias quando antes o fazia dia sim dia não, deve ser vista como um sentimento redentor, e merecido. Único capaz de trazer lucidez, pois aquele que não apresenta nem isso é o princpial responsável por transformar um maluco antes inofensivo num déspota ensandecido.

Jair Bolsonaro é o menos culpado nisso tudo. Ele é o falastrão destrambelhado cuja precariedade cognitiva deveria isentá-lo de se responsabilizar pelos prórpios atos. Um sujeito assim não tem a menor capacidade de se defender da vaidade e orgulho que o dominam quando uma legião que mistura néscios de seu mesmo nível com oportunistas, manipuladores e sociopatas decide lhe tecer loas e elevá-lo a um impensável papel de "herói".

É um típico caso onde a personalidade do indivíduo é esmagada pela projeção que o coletivo lhe faz, tanto os que lhe apóiam quando os que lhe atacam, que também colaboram para sua ainda maior deformidade mental.

Se existe um "karma" nacional, este afligirá o país por muitos anos castigando os responsáveis tanto por ação quanto por omissão.

15 de Agosto

Ótimo vídeo sobre a companhia pública de saneamento do DF. A barragem da unidade onde eu trabalho aparece em - 3:08 e - 2:18.


14 de Agosto

RUMO AO UNIVERSOS SOCIAIS PARALELOS

Estamos caminhando a passos largos para uma ainda mais radical desconexão das massas, onde não só pessoas que vivem lado a lado podem estar experimentando "realidades" completamente diferente, como poderemos ter autênticos povos, feudos, países e nações distintas que, apesar de fisicamente misturadas, estarão mentalmente apartadas uma das outras, vivendo em suas própria bolhas perceptuais.

Num grau mínimo isso sempre ocorreu, a exemplo de religiões diferentes mescladas numa mesma população, onde apesar do contato pessoal direto, tais grupos podem se dissociar um do outro em seus hábitos, costumes, ritos, até mesmo um "tempo" diferente. Tudo isso tendo como base primordial crenças distintas.

Mas ao menos uma coisa não variava. A experiência sensorial direta era a mesma. Excetuando anormalidades cerebrais graves, as pessoas percebiam os mesmos fenômenos, variando mais na interpretação. E se sempre houve a informação obtida indiretamente pelos testemunhos alheios ou textos, estes estavam limitados a capacidade de estimular indiretamente a imaginação.

O advento das mídias audiovisuais, porém, viria afetar enormente essa distinção simples entre o que se podia ver por si mesmo, e o que era apenas informado na forma de palavras. Ao "ver" imagens pela TV, ao ouvir depoimentos emocionados, choros, gritos, e todo o espetáculo previamente selecionado por órgãos de divulgação, tem-se a sensação mais próxima possível da experiência sensorial direta. O espectador não apenas "ouviu" um relato de forma indireta, e sim, de certa foram a "viu".

E uma vez "vendo" coisas diferentes, massas estimuladas por órgãos de mídia divergentes podem ter suas percepções e crenças acentuadamente diferenciadas, muito mais do que poderia numa sociedade mais tradicional.

Mas o passo que estamos dando agora é ainda mais radical. A multiplicação dos órgãos de mídia, as mídias independentes e a Internet em geral estão fragmentando mais e mais as visões de mundo. Já seria perfeitamente possível que cada pessoa tivesse uma visão única da realidade não fosse a tendência humana irresistível para formar grupos compartilhando crenças em comum.

Ainda há algo sobre o qual podemos nos apegar para concordar em certas percepções, que são critérios, em geral imagéticos, para julgar se algo é real ou não. Ainda somos, por exemplo, capazes de reconhecer rostos e padrões de voz, e mesmo o mais crédulo e tacanho dos crentes em hoaxes e boataria irresponsável ainda cede caso veja seu ídolo dizer ou negar ter dito algo comparado a uma informação indireta em contrário.

Porém até isso, está em vias de acabar. Quer quer que esteja acompanhando o espantoso desenvolvimento das Deep Fakes não tem como não perceber que em breve será possível apresentarmos um vídeo perfeitamente convincente de uma pessoa qualquer dizendo algo que jamais diria. Dispositivos de Inteligência Artificial e Infografia estão sendo cada vez mais capazes de substituir rostos e emular vozes, fazendo paródias de pessoas reais já difíceis de serem distinguidas.

Daí, a última esperança de ainda fazer a realidade ter alguma precedência sobre o desejo de crer na própria fantasia cai por terra. Não adiantará você mostrar que não existe qualquer fonte crível para levar a sério que uma determinada personalidade tenha feito tal coisa. O adepto da crença irrestrita do que se tem chamado de Fake News já não era sensível a fontes responsáveis de informação até por não ter a capacidade de distinguir uma assertiva inteligente de uma boçalidade, mas ao menos ainda era sensível a pura e simples imagem. Mas agora, com uma tecnologia que permite forjar um vídeo falso de alguém dizendo ou fazendo alguma coisa, estará sacramentada a bolha de ilusão perceptiva num nível jamais sonhado exceto pelos visionários da Ficção Científica.

Em breve não serão apenas simulações de pessoas, mas de mundos inteiros. Cedo ou tarde teremos portais de informações especializados não apenas em Fake News e Fake History (do tipo History Channel), mas em Total Fake Reality! De um lado uma pessoa que acredita que estamos vivendo numa ditatura nazista onde Hitler foi ressuscitado com um exército de zumbis montados em dinossauros, de outro lado, a distância de um toque, quem creia que estamos vivendo na Nova Jerusálem vendo invés de Hitler o próprio Jesus Cristo sentado em Trono de Ouro enquanto seus anjos pairam sobre nossas cabeças.

Em breve até mesmo óculos de realidade aumentada estarão sendo vistos não como falseadores, mas como reveladores, tal qual os do filme de John Carpenter THEY LIVE (1998), e poderemos ter duas pessoas caminhando lado a lado, vendo mundos completamente diferentes, cada qual convencida, ou querendo se convencer, de estar vendo a versão correta do mundo.

Claro. A pura e simples racionalidade ainda permanecerá imbatível como a julgadora do real. Aquele que a cultiva estará sempre imune dos níveis mais perigosos da manipulação, podendo até usufruir dos benefícios estéticos e de lazer da mesma sem ser corrompido pelo seu mau uso.

Mas quaqluer um que tenha tal racionalidade, e bom senso, em grau mínimo, tem cada vez menos motivos para crer que ela não será cada vez mais rara. Que os poucos que ainda insistam em se manter o máximo possível na realidade pura e simples serão exceções exóticas numa infinidade de conectados permanentes em Matrixes diferentes.

13 de Agosto

Dissidência Política do DF
19 de Março

Um dos sinais mais claros da fraqueza de uma doutrina é a precariedade de reflexão sobre seus componentes fundamentais, com a qual tenderiam a ver suas limitações e possivelmente contradições. Ainda que isso aflija mais seus perpetuadores que seus autores, é o que ocorre com os liberóides (o atual liberalismo e seus bastardos: libertarianismo, neoliberalismo, anarcocapitalismo, minarquismo etc) ao usar e abusar do termo 'indivíduo' sem jamais se dar conta de que uma análise básica do mesmo destrói suas pretensões mais ousadas.

Os dissidentes já tem denunciado isso pela contraposição do termo 'divíduo', apontando que o tão falado indivíduo não é, num sentido relevante, verdadeiramente indivisível. E a julgar pela escassez de abordagens primárias dos liberalóides a respeito desse conceito crucial, parece que nem mesmo esse básico lhes é percebido.

Como algo que não pode ser dividido, só é verdadeiro no sentido material social, visto que podemos dividir os grupos de várias formas possíveis, isolando-os cada vez mais uns dos outros até chegarmos ao indivíduo. E é somente nessa limitada percepção que os atuais liberais conseguem operar. Daí, já é uma sorte que ocasionalmente vejam a contenda entre indivíduos, invés de reduzir tudo a uma entre indivíduo e coletivo, demonizando sempre o último, como se a primeira, bem como os conflitos entre coletivos, não fossem relevantes. Porém, quase sempre reduzem o confronto entre indivíduos também como uma forma de tirania do coletivo, visto que ao menos um destes estaria, na verdade, carregado de uma visão coletivista.

Ocorre que esse "átomo" da sociedade é, tal como ocorre na Física, perfeitamente divisível no sentido que verdadeiramente importa, o psicológico. Somos pessoas fragmentadas por conteúdos mentais diversos e conflitantes, que se manifestam o tempo todo nos causando tensões, indecisões, confusões e toda sorte de dificuldades triviais com as quais qualquer ser humano comum se depara. Desde o impulso primário a tomar algo pertencente a outro em confronto com um senso social que nos impede, bem como a pessoa comprometida que mesmo amando sua família se vê tentada a um caso extraconjugal, até os casos mais graves de pulsões muito mais violentas contidas por uma dimensão superior da consciência, como no caso freudiano do conflito entre Id e Superego.

A solução que a quase totalidade encontra é se controlar por meio de instâncias mentais que nos regulam e nos governam, contendo nossos instintos mais brutos, redistribuindo nossas emoções em contextos mais adequados, nos determinando a persistir em ações essencialmente desagradáveis ou, na pior da hipóteses, restringindo nossos piores vícios a um horizonte limitado de expressão. É o autocontrole, o Nous platônico que governa os desejos, a "consciência". Sem isso, somos nada mais que animais seguindo seus impulsos primários, incapazes de planejar, agir a longo prazo, adiar o prazer imediato em troca de benefícios futuros. Sem isso, corremos o risco de nos destruir num mero arroubo passional que, visto depois, poderá ser percebido por nós mesmos como risível.

Se cada um desses 'divíduos' está em constante conflito consigo mesmo necessitando se auto governar, como é possível esperar que qualquer coletivo também não reproduza dinâmica similar? Por isso surgem acordos, acertos, regras, hierarquias. São, por sinal, os laços interpessoais que ajudam a controlar nossos impulsos. As outras pessoas que nos contém nos momentos em que estamos fracos demais para isso, quer pela sua ação coerciva direta, quando um amigo nos impede de cometer uma trágica estupidez, quer pela sua simples presença sutil que nos constrange e nos força a atitudes mais construtivas. Desde os pais que, por coerção, obrigam os filhos a estudar e contém seus impulsos primitivos mais perigosos, até os líderes que impedem as massas de agir de forma ensandecida. Embora, estando todos sujeitos a erros, também temos pais que negligenciam os filhos e líderes que movem as massas de forma insensata.

Mas o fato é que sem alguma instância reguladora, a vida humana é impossível. Sem a auto regulação, o "indivíduo" é apenas um animal. Sem as lideranças e hierarquias, grupos humanos são apenas bandos desordenados. E quanto maiores os grupos, mais essas estruturas regulatórias tendem a se sofisticar, em geral trocando a relação pessoal pela impessoal, quase sempre numa relação inversa entre profundidade e amplitude.

Por isso jamais existiu uma aldeia minimamente grande sem um cacique, ou cargo que o valha, uma grande família sem patriarcas ou matriarcas, uma grande cidade sem um dirigente que assuma mais diretamente a responsabilidade e autoridade, e por fim, jamais poderá haver uma civilização sem um Estado, que é a estrutura burocrática sem a qual um governo jamais poderá atuar!

Longe de isso não ser problemático, mas é fatalmente inevitável. Na melhor das hipóteses o Estado é um bem controverso, mas na pior, um mal necessário. Uma coisa é querer aperfeiçoá-lo, outra é confundir aperfeiçoamento com redução ou, pior ainda, crer ser possível eliminá-lo, bem como a todas as demais instâncias de autoridade, como se cada indivíduo fosse perfeitamente capaz de gerenciar a si próprio sem falhas, que invariavelmente afetarão outros indivíduos e, sem uma força moderadora, levam qualquer grupo humano à auto destruição.

Neste ponto, alguns liberalóides mais espertos terão uma resposta pronta, baseada numa confusão elementar. Dirão então que a sociedade deve se auto regular invés de ser regulada por um Estado, como se este por acaso fosse uma entidade alienígena que desceu dos céus para oprimi-la!

Mas o indivíduo não se auto regula como um todo, mas justo como divíduo, jogando partes de si contra outras. Da mesma forma, os coletivos também elegem partes de si para regular as demais, as lideranças são evidentemente minoritárias e portanto, se podemos falar de auto regulação, a única possibilidade viável é justo a de um segmento minoritário, necessariamente endossado pela maioria, com essa função específica de governar. Em suma, o Estado é justamente a auto regulação da sociedade, visto ser nada menos que parte da mesma sociedade em questão.

A totalidade dos sábios da humanidade, ao refletir sobre a política, promoveram alegorias comparativas entre organismos individuais e coletivos, quer sejam os apetites, coração e razão platônicos associados às classes da República, quer sejam as castas hindus associadas ao corpo de Brahma, ou o Leviatã de Hobbes.

Enquanto isso, partindo de uma equivocada reificação do indivíduo, sem sequer se dar conta de sua essência, liberalóides ainda chegam à conclusão que devemos minimizar, ou pior, extinguir o Estado, chegando ao delírio de um Anarquismo envolvendo milhões de pessoas. Brincam com conceitos contraditórios que não compreendem, flertam com o absurdo protegidos da realidade pelo simples fato de suas fantasias jamais se aproximarem dela em grau notável.

Com uma concepção tão superficial de 'indivíduo' em sua fundação intelectual, incapazes de compreender a verdadeira natureza humana, não é surpreendente que sejam levados a conclusões tão incrivelmente apartadas de qualquer realidade, com resultados nefastos, sempre cooptados em favor das mesmas elites que os financiam em benefício próprio, e prejuízo geral.


10 de Agosto

Até agora (Episódio 6 Temporada 2), a série televisa DARK tem me saído a melhor estória de viagem no tempo que já vi no sentido de complexidade, amplitude e profundidade dramática. Malgrado o título insosso e a trilha sonora que parece querer convencer o espectador de que esteja a assistir uma estória de terror, a obra apresenta uma das melhores abordagens de um tema que eu, como escritor de Ficção Científica, sempre fugi, o das viagens temporais para o passado com paradoxos de causa e efeito.

Tratei desse assunto no longínquo texto Viagens no Tempo e Paradoxos Temporais, iniciado ainda no milênio passado e autalizado até 2011, tamanho a quantidade de revisões e acréscimos que tive que fazer, de modo que terminei esgotando o assunto ao demonstrar porque viagens no tempo onde se volta o passado para alterar o presente são necessariamente absurdas, obrigando o autor a algumas apelações criativas para escapar da pura e simples irracionalidade.

Uma delas é postular universos paralelos que absorveriam as realidades alternativas evitando que se contradigam diretamente. Meu amigo Ronald Rahal é um mestre em lidar com elas de modo suficientemente sutil para não frustrar a sensação de uma autêntica viagem no tempo, mas ao mesmo tempo claro para impedir o paradoxo. (Suas obras estão disponibilizadas na Amazon, e outras em meu site. Outra é apelar a um Super Tempo, onde todas a idas e voltas estão de certa formas acomodadas dentro de uma estrutura temporal que transcende as linhas temporais subordinadas. Não é uma abordagem assumida, mas é de fato a que está implícita toda vez que um autor não explicita a questão do Multiverso, mas lida bem com o conceito de uma forma fechada a fim de evitar contradições, movendo-se numa espécie de "Eternidade" implícita no próprio fato do autor e dos leitores / espectadores estarem numa temporalidade que transcende a da estória.

Essa questão do Super Tempo é explicada em detalhes em minha obra Os Crononautas, minha ÚNICA aventura nessa temática específica, porém nele eu desenvolvo outra solução para evitar as contradições, que é a ideia de universos sucessivos infinitos, que substituem a de universos paralelos. Assim, não existe de fato uma viagem para o passado, mas sim uma viagem para um futuro universo onde praticamente todas condições daquele passado foram recriadas, criando uma ilusão de retorno.

Essa modalidade, rigorosamente focada em evitar contradições diretas, é a assumida por Dark, ao amarrar todos os eventos de uma forma determinista, de modo que qualquer tentativa de alterar o passado está prevista na malha super temporal, levando ao bom e velho questionamento a respeito da inexistência da Liberdade num universo onde o destino já está traçado. Essa solução é exemplarmente desenvolvida também em filmes como "Os 12 Macacos", ou no excelente "O Predestinado" (Predestination), filme que deveria ser celebrado pela comunidade LGBTXYZ+X102 pelo modo sublime com que aborda a temática da transsexualidade e mudança de sexo de um modo assombroso e fascinante, sendo o tema absolutamente crucial para a trama.

Dark é, de certa foram em sua complexidade, um Predestinado ampliado para vários personagens. A feliz limitação da ambientação a uma única cidade de interior alemã permite lidar com mais facilidade com as idas e vindas entre três épocas diferentes, separadas por exatos 33 anos, na primeira temporada, mais duas outras adicionadas na segunda, fazendo competente mescla com temas místicos, metafísicos e astronômicos. Na série, os anos de 1953, 1986 e 2019 teriam em comum o realinhamento planetário do Sistema Solar. (Não é verdade!)

E que ninguém me acuse de spoilers. Apesar de parecer haver algum suspense tanto no título quanto na sinopse do Netflix, a série já abre deixando claro se tratar desse tema desde o começo. O que ocorre é que por um momento se pensa estar diante de um infanticida serial, quando depois se verifica algo muito mais complexo, já no primeiro episódio, antes de uma cena de sexo completamente desnecessária que só serve para avisar que não se trata de material de interesse infantil, até pela raridade de efeitos especiais ou de cenas de ação, visto o foco ser no drama, nas reflexões filosóficas, científicas e existenciais, e no clima imersivo.

A trama que se segue é bastante rebuscada, e acrescenta para nós, um povo multiétnico, uma desafio em especial. Como essa produção alemã não parece afetada pelo sistema de cotas norte americano que obriga a retratação de diversidade ao ponto de colocarem negros até numa estória de mitologia nórdica, ocorre que todos os personagens são arianos, muitos dos quais aparentados, e a produção foi competente em escolher atores que realmente se parecem, e ainda por cima muitos dos personagens são representados por mais de um ator / atriz de idades diferentes que viajam no tempo e as vezes até se encontram. Isso tudo junto torna fácil confundí-los!

Dark também é uma série onde as relações familiares são exploradas de modos impossíveis fora do escopo da Ficção Científica.

Enfim, trata-se de conteúdo que vale muitíssimo o esforço. Já estou decidido a reassistir toda a primeira temporada de uma vez assim que terminar a segunda, reassistindo este logo em seguida num total de 18 episódios.

Aos que pretendam, boa viagem!

08 de Agosto

Com exceção de um ou outro dia de desânimo, esta foi a segunda vez que tive um episódio possivelmente depressivo. O primeiro foi após o falecimento repentino de minha mãe, aos 68 anos, de um totalmente inesperado e imprevisível AVC enquanto se exercitava na academia Companhia Athletica, do Pier 21. O mais trágico, é que foi exatamente uma semana antes de meu primeiro menino nascer, em 21/10/08. Minha mãe só conheceu três de seus netos, excetuando as ultrassonografias do Kalel.

Mas é difícil saber o que é pior. Meu pai arrastou três meses de internação antes de falecer há 14 dias atrás. As últimas vezes que o vi na UTI me deixaram claro que só um milagre poderia adiar o inevitável. E mesmo antes da internação era notória sua queda de vitalidade nos últimos anos.

Mas ele conheceu todos os seus 7 netos, e teve com o Kalel uma experiência intensa e bela de avô, assim como estava tendo agora com a Selena. Tendo vivido 85 anos, há menos o que que se lamentar de sua natural ida. A não ser pelo fato de que nada me tira a impressão de que teria sido muito melhor ter ficado em casa nos últimos dias, mesmo que tivesse vivido muito menos, sem contar a também forte sensação de que talvez ainda estivesse vivo.

Hospitais matam! Essa é que é a verdade! Não há como esperar que a rotina de exames, picadas, intervenções invasivas em um ambiente estranho interagindo com pessoas que mudam diariamente não cause um estresse que provavelmente anula as vantagens médicas dos recursos materiais do prolongamento de vida. Se a saúde física pode ser extendida, a mental seguramente piora.

A UTI então é praticamente uma câmara de tortura, pois nem acompanhantes conhecidos o paciente pode ter, e aquele pandemônio de equipamentos, sons enervantes, e companhia de outros pacientes em estado ainda pior, muitas vezes com mortes diárias, não tem a menor possibilidade de não causar um impacto deletério por menos desperta que esteja a psique da pessoa.

Foi o processo em si que mais magoou. Se ele tivesse vivido esse mesmo tempo em casa, mesmo que de modo precário, ou ainda melhor, se tivesse vivido menos, mas no seu normal, e de repente não acordasse no dia seguinte, teria sido muito o mais desejável.

Ainda mais para quem nunca o tinha visto debilitado. Ele era um militar e sempre manteve uma pose firme, mesmo que viesse, nos últimos anos, se curvando mais. Com a exceção de uma breve fase onde ele machucou o joelho, eu nunca o tinha visto acamado, quanto menos internado. Aliás, nunca o tinha visto com barba!

Agora, finda um ciclo de passagens de uma geração mais antiga da família, encerrando minhas experiências de perda, já tardias. Não perdi membro próximo algum da família até meus 29 anos, quando começou a sequência que levou os 5 cinco membros mais velhos da família de minha mãe, que moravam todos aqui perto. A família de 11 membros do meu pai também já foi toda, mas a maioria eu mal conheci e estavam espalhados por todo o Brasil.

Apesar da idade já avançada e da evidente curva de senescência, a perda do meu pai me afetou mais do que esperava.

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