VÔOS, E QUEDAS, IDEOLÓGICAS

Há muito tempo uma cena recorrente em filmes de ficção científica tem me preocupado. Um personagem que pode voar, ou pensa que pode, se jogando de uma imensa altura para uma queda vertiginosa que, se for agraciado, aos poucos se tornará um vôo (Heroes, Smallville e Hancock, pelo menos), ou um desastre, como em Kick Ass.

Se você acha que pode voar, não tem cabimento se jogar de um lugar alto. Simplesmente saia do chão! Como todo bom avião faz. Enquanto insistiu em jogar suas máquinas mais pesadas que o ar de locais altos, a humanidade conseguiu pouco mais que desastres na pré história da aviação, ou feitos modestos como o discutível “vôo” dos irmãos Wright.

Somente quando Santos Dumont construiu uma máquina que, após percorrer um significativo espaço no solo, se ergueu por suas próprias forças, é que tivemos o primeiro avião no sentido em que hoje conhecemos. (Nossos aeroportos não têm rampas, catapultas ou penhascos de onde os aviões são jogados.)

Transportando essa imagem para o plano das idéias, invoco os vôos, ou quedas, ideológicos que visam transformar nossa sociedade. Ao sugerir que passássemos do entendimento do mundo à sua mudança, Marx jamais pretendeu dizer que deveríamos pular a primeira parte. E com isso fico pensando nos inúmeros jovens que se mobilizam em movimentos “políticos” cuja ação é invariavelmente física. Ocupação, passeatas, protestos etc.

Nada há de errado em tais atitudes em si. Mas será que, de fato, eles sabem o que estão fazendo? Estudaram o suficiente e entenderam a realidade o suficiente para justificar devidamente suas ações?

Os jovens são impulsivos e imprudentes por natureza. A pouca experiência e os hormônios em alta jamais foram boas fundamentações teóricas para ações práticas, sendo facilmente manipulados pelos mais velhos e experientes.

Na maioria das vezes, líderes ou tiranos das mais diversas estirpes sempre puderam contar com legiões de voluntários insensatos prontos para se lançar em ação homicida e suicida por motivos que variam dos nobres aos perversos, tendo a sua disposição milhares de jovens se dirigindo bravamente para a morte em defesa de interesses que mal compreendem.

Pode haver exceções, mas a grande maioria das pessoas, pensadores inclusos, não fica incólume com o passar dos anos. Modificam, aperfeiçoam e revisam suas idéias, e às vezes as revertem completamente.

Quantos milhões de pessoas morreram por motivos que, se tivessem vivido o suficiente, teriam posteriormente abandonado ou mesmo repudiado?

Essa questão se coloca de modo mais dramático ao notarmos a cisão existente entre as pessoas de pensamento e as de ação. Raramente um ideólogo de renome morre por suas próprias idéias, enquanto outros se apropriam delas e lhe fazem de causa pela qual estão dispostos a dar a vida. Se já não tinham muito controle sobre as consequências materiais de seus pensamentos em vida, após a morte, a obra de certos pensadores adquire tons de mitos fundacionais, sob a qual se erguem simulacros de religiões que, como sempre, escapam largamente à visão original de seus autores.

Retomando a analogia inicial, os jovens que aspiram grandes alturas ideológicas estão realmente prontos para voar? Ou estão apenas se jogando de precipícios na esperança de que sua mera força de vontade e união lhes dará as prerrogativas necessárias para desafiar a dura realidade gravitacional?

Eles percorreram chão suficiente? Estão prontos para se erguer por suas próprias forças? Acumularam experiência concreta, bagagem teórica, auto reflexão e SOBRETUDO auto conhecimento antes de ousarem se lançar aos céus?

Incorporando ideologias que por vezes não compreendem, em contextos deslocados e por vezes mesmo se envolvendo em questões completamente estranhas à sua experiência pessoal, por que alguns se jogam de tão alto?

Não será porque, se for suficientemente alto, mesmo que não tenham as asas que pensam ter, ao menos terão tempo para se iludir de estarem voando, enquanto ignoram a inexorável aproximação do chão?

Bem. Sempre há casos especiais, e muitas vezes podemos nos surpreender após subestimar neófitos que terminam sendo mais capazes do que pensamos.

Mas que nunca se perca de vista que se pensamento sem ação é inerte, ação sem pensamento pode ser desastrosa. E se não houver compreensão e capacitação suficiente para levantar vôo por seus próprios meios, ao menos que, após se jogar de um precipício, se tenha o bastante para, como diriam Woody e Buzz Lightyear, “cair com estilo”.

Marcus Valerio XR

10 Novembro de 2011


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