O BRASILEIRO SEM CABEÇA
DE CABEÇA PARA BAIXO

Uma obra prima do non-sense

Há mais de dois anos me deparei com uma reportagem na revista Veja que me fez sentir como se alguém tivesse me virado do avesso, tamanho foi o absurdo grau de inversão conceitual. Na verdade, ouso dizer que o que ocorreu ali foi uma das mais grotescas inversões de sentido e bom senso já realizadas em todo o jornalismo brasileiro. Uma obra prima da patifaria esquizóide, e ou, pura e simples insanidade.

Eu até havia esquecido o assunto, mas por sorte, ou azar, me deparei com uma análise do mesmo por parte do Alon Feurwerker (Os valores morais da elite e do povo), que me deixou particularmente assustado, porque se nem mesmo um analista brilhante como ele percebeu o grau de perversão da reportagem, bem como nenhum de seus comentaristas, então tenho que admitir que a situação é muito mais preocupante do que eu temia.

A reportagem intitulada Como pensam os brasileiros faz uma propaganda do livro A Cabeça do Brasileiro, que infelizmente não li, mas meu objeto de crítica não é o livro em si, mas a reportagem. O problema todo está resumido na chamada inicial, que merece destaque.

Um livro prova que, ao contrário do que propalam os
esquerdistas, a elite nacional é o farol da modernidade.

E o objetivo da reportagem é simplesmente mostrar que a "elite" em questão é menos corrupta do que as camadas mais pobres da população. Claro que a primeira pergunta que me veio à cabeça foi sobre a que diabos de "elite" é essa que ele está se referindo, porque os esquerdistas sempre consideraram uma "elite" como o "farol da modernidade", a ELITE INTELECTUAL. Claro!

Por meio de certas pesquisas de opinião, cuja pequena amostra anexa na reportagem demonstra ser tão fajuta quanto sempre são, a "cabeça" que produziu a reportagem acredita ter PROVADO que sendo os menos "educados" (instruídos) mais corruptos que os mais instruídos (educados), estabelece por tabela que as classes sociais mais abastadas são mais honestas, por meio de uma obscura equação cuja fórmula só pode ser: Elite Educacional = Elite Intelectual = Elite Econômica!

É nessas horas que sinto um arrepio. Será tão grande assim a quantidade de pessoas que realmente acredita que a Elite Educacional, isto é, os que tiveram acesso a cursos superiores, são todos constituintes de uma Elite Intelectual? E o que é pior, que a Elite Intelectual e a Econômica são a mesma?!

Ora, é evidente que elas têm grande intersecção, pois os mais ricos possuem maior escolaridade. Ocorre que ser um intelectual e ter cursado uma universidade são coisas tão diferentes quanto ser um astro de futebol e jogar pelada no fim de semana! E que o fato da MAIORIA ESMAGADORA dos intelectuais pertencer à classe média e não à rica, é tão escancaradamente evidente que quem não o conhece só pode jamais ter sequer pensado sobre o assunto.

Procure a lista das pessoas mais ricas em qualquer contexto! Já tentou achar um único intelectual entre elas!?

Procure a lista dos maiores intelectuais em qualquer contexto! Já tentou contar quantos podem ser considerados ricos?!

É claro que um intelectual pode enriquecer, embora seja muito raro, mas o mais comum é apenas se manter num segmento moderado da classe econômica. E é claro que um rico pode se tornar um intelectual, e há exemplos, mas dá pra contar nos dedos, até mesmo da mão esquerda do Lula.

Como no Brasil "intelectual de esquerda" é praticamente um pleonasmo, é óbvio que os esquerdistas sempre consideraram que o futuro da sociedade estava nas mãos não de uma elite econômica, mas naqueles capazes de alterar a ordem social, para o quê seria necessário a união da elite intelectual e das massas, como sempre foi em todo contexto dos movimentos de esquerda que, para começar, tem que ao menos fingir conhecer as obras de Karl Marx, este sim um dos maiores intelectuais de todos os tempos e possivelmente o mais pobre.

Mas, para meu mais lovecraftiano terror, notei que na "crítica" Os valores morais da elite e do povo (21/08/07), praticamente ninguém se deu conta disso! Simplesmente considerando que qualquer um que tenha "curso superior" é um membro desta "elite"! Como se bastasse pagar uma faculdadezinha particular e tirar um diploma para ser considerado uma pessoa "mais esclarecida"! (UNItaliBAN que o diga!)

Mas... Espere. Ter um curso superior significa o quê? Fazer parte da "elite" econômica ou intelectual? Ou ambas?

Que dizer daquele garoto de subúrbio que passou no vestibular por que é fera mesmo, e já dominou a Dialética Hegeliana e Sociologia Weberiana apesar de militar no PSTU? Ele é elite econômica?!

E o mauricinho filho de empresário que cursou uma universidade federal num curso pouco concorrido, ou estuda numa particular muito mais moleza, mas continua incapaz de distinguir materialismo de hedonismo? Ele é elite intelectual?

E aquele que nunca nem entrou numa universidade mas domina o Materialismo Dialético? Tá. É raro! Mas ele é elite econômica ou educacional?!

Caso ainda não tenha ficada nítida a bizarrice do texto, é simples. Ele afirma que os esquerdistas acusam a elite de ser retrógrada, mas se esquecem de dizer que esta elite em questão é pura e simplesmente econômica. Para contestar a afirmação, apela a uma pesquisa que não teve a menor capacidade de discernir o estrato econômico em que se encontra a classe mais escolarizada, nível superior, que embora inclua poucos pobres, é quantitativamente dominada pela classe média, sendo a classe rica, numericamente, tão pequena ou talvez até menor que a pobre.

Como se isso não bastasse, parece completamente incapaz de perceber que os valores éticos que foram reconhecidos como louváveis, são os da Elite Intelectual! Dos quais a Elite Econômica, bem como a população pobre, apenas absorve por osmose. Enfim, o resultado da pesquisa está dignificando o pensamento da Elite Intelectual como se ele fosse um mero produto da Elite Econômica, ao mesmo tempo que o acusa, sutilmente, de ser de tendência direitista, quando na verdade tais valores são produzidos por uma Elite Intelectual esmagadoramente esquerdista!

Em suma, para provar que E está errado, apela aos valores de E como se fossem de D!

Um conservador poderá alegremente alegar que tais valores morais são, na verdade, patrimônio da Direita, bastando para isso fazer vista grossa a milhares de anos de história onde o estado para nada mais serviu do que para justificar o domínio de elites econômicas. A idéia de que o estado deve governar para o povo em geral, incluindo as camadas mais pobres, é quase tão nova quanto a Revolução Francesa e está INDISSOCIAVELMENTE amarrada à Esquerda! Quer seja na acepção de Liberal ou Progressista. Como todo o teor da reportagem é crítico quanto a atitudes que, em suma, prejudicam o estado, e o povo, em benefício dos privilegiados, só mesmo um delírio psicotrópico para conseguir extrair a conclusão de que isso demonstra a superioridade moral das elites econômicas!

"Há 3 tipos de mentiras: mentiras, mentiras desgraçadas e estatísticas."
Mark Twain (1835-1910)

Passando ao que é revelado sobre o livro em si, começo com esse exagerado gracejo do escritor norte americano. Estatísticas não são mentiras, claro. Mas o modo como elas podem ser usadas permite, com grande facilidade, inverter completamente as conclusões. Isso ocorre por que as "Ciências" Sociais, no afã de imitar as Ciências Naturais, tentam agregar dados numéricos onde seja possível usar aquilo que melhor caracteriza estas últimas, a Matemática.

Veja só essa curiosa questão como exemplo.

Cabe ao governo cuidar do que é público. Certo ou Errado?

Onde espera-se que a resposta correta seja ERRADO, como deixa clara a passagem: "A pesquisa de Almeida mediu-a por meio da frase "Cada um deve cuidar somente do que é seu, e o governo cuida do que é público". Ela obteve a concordância de 74% dos que foram ouvidos. Quando se analisa esse mesmo dado à luz da escolaridade, contudo, vê-se a falta que a sala de aula faz. No universo dos analfabetos, 80% não conseguem enxergar o papel do cidadão no cuidado com a coisa pública. Entre os que têm nível superior, o porcentual diminui para 53%."

Mas, reflita comigo. Se a resposta for ERRADA, então não está sugerido que o governo NÃO DEVE CUIDAR DO QUE É PÚBLICO!? Parece que esqueceram um "somente" entre o "Cabe" e o "ao", e a maioria das outras perguntas sofre de erros similares, principalmente devido à mentalidade de lampadinha que só admite 0 ou 1 como resposta mesmo para perguntas complexas ou com pressupostos envolvidos.

Com perguntas desse tipo, que infelizmente são típicas da maioria das pesquisas de opinião, dá-se razão a Mark Twain. As estatísticas viram mentiras, e desgraçadas! Além do mais, ao mesmo tempo que assume estar entrevistando populações de baixa escolaridade, a reportagem parece ignorar que muitas perguntas ali podem soar ininteligíveis até mesmo para os mais instruídos. Por exemplo "Se os moradores permitirem, os empregados devem usar o elevador social." Como assim "devem"?! A "permissão" se tornou um "dever"? Os empregados estarão usando o elevador social porque não se sentem constrangidos com os patrões ou porque estão sendo obrigados? E aqueles que preferem usar o de serviço por poder encontrar colegas com os quais podem conversar mais à vontade? Eles estão sendo retrógrados? Fazer o empregado usar o mesmo elevador que os patrões serve a quem? À auto estima dos empregados ou a dos patrões que podem se sentir como socialmente justos?

E quanto a "O governo deve socorrer as empresas privadas em dificuldade."? Em geral são os esquerdistas que consideram que isso é inadequado, mas além do fato da reportagem pressupor, estranhamente, que a resposta ERRADO a essa pergunta tipifica um pensamento de direita, como podemos saber se o entrevistado não pensou que a tal empresa privada é justamente aquela onde ele trabalha, e que se falir, o deixará desempregado? Nesse caso, a mentalidade é de direita ou de esquerda?!

A única coisa que as perguntas conseguem de fato mostrar é que a "elite" em questão soube dar respostas politicamente corretas!

Mas isso é chover no molhado, pois dessa reportagem, depois do desastre do subtítulo e da primeira frase, só superado pela segunda frase com o comentário absolutamente suicida a respeito do CANSEI, seria impossível esperar que qualquer coisa seguinte tivesse valor superior à imagem do Paulo Zottolo em anúncio de Televisor Philips no Piauí!

Pra quem não se lembra, o CANSEI foi o maior fiasco que as "Elites Econômicas", especialmente paulistanas, já cometeram em sua cruzada contra o Governo Lula. O vexame foi tão grande que nota-se um esforço nítido para que tudo caia no esquecimento. Não se esqueça de seguir os links no arquivo da wikipedia. Mas o melhor texto sobre essa "cruzada", que de tão espúria só poderia mesmo ser tratada comicamente, foi retirado do ar.
SÓ QUE EU FIZ QUESTÃO DE GUARDÁ-LO! DIVIRTA-SE AQUI!

MAS, E O LIVRO AFINAL?

Como não o li, não posso emitir um juízo plenamente embasado, mas a não ser que todos os artigos que o comentam na web estejam errados, é difícil negar que seu teor é próximo ao da reportagem. Como exemplo, o autor parece empurrar a associação de estatismo com corrupção como se isso fosse uma coisa espontânea e natural, e não o legado de uma tradição cultural colonial economicamente ELITISTA. Sem contar que o mesmo autor já trabalhou para o PSDB.

A moral letárgica da tradição cultural brasileira, que parece ter sido o objeto de repreensão do livro, é herança de uma elite econômica que controlou o país por séculos, e que em grande parte ainda controla, a julgar pelas famílias tradicionais que ainda dominam segmentos inteiros da economia e da política. Essa estrutura clássica de dominação, como sempre ocorre, tem como maior força exatamente a capacidade de convencer os próprios dominados de sua validade, pregando a tolerância contra o abuso do poder, e reforçando uma estética de admiração da autoridade e do luxo das classes abastadas. Ou pobres não "leriam" revista CARAS.

Quem confrontou essa moral enviesada foi exatamente o movimento intelectual de predominância juvenil que eclodiu na virada dos séculos XIX e XX, fatalmente associado a uma nova moral revolucionária e invariavelmente esquerdista, que contestou o poder das elites clássicas e incitou as camadas mais pobres a exigir seus direitos por meio da luta de classes, e sobretudo por meio da educação de massas, que é, principalmente no caso do Brasil, DOMINADA PELA ESQUERDA! Para o bem ou para o mal.

É exatamente nos baixos níveis educacionais, que ainda refletem a mentalidade conservadora, que residem os índices de tolerância, admiração ou mera incompreensão a respeito da corrupção, por se tratar de uma herança de dominação cultural escravocrata e servil, que, absurdamente, está sendo sugerida pela reportagem como se fosse esquerdista.

Uma análise mais interessante e detalhada, que presta especial atenção ao problema da subjetividade das estatísticas, pode ser vista em O que vai pela cabeça do brasileiro?, outra, ainda mais acadêmica embora mais sucinta, pode ser vista em Vicissitudes de uma análise de survey à brasileira.

Para a síntese final, basta apelarmos às próprias categorias usadas no livro, para que se veja como tudo está de cabeça pra baixo.

O livro contrapõe conceitos nomeados como o ARCAICO e MODERNO, sendo o primeiro, evidentemente, o complacente à corrupção, e o segundo o libertário e regenerador. Num mundo onde o termo CONSERVADORISMO está indissociavelmente associado à Direita, e PROGRESSISMO à Esquerda, alguém dizer que o Moderno é patrimônio das elites econômicas e por decorrência da Direita, e o pior, ninguém se dar conta do absurdo, é algo para o qual não consigo nem encontrar uma analogia adequada. (Talvez ver o Cavaleiro sem Cabeça apoiado nas próprias mãos e com as pernas para cima, mas negar que ele está invertido por que não tendo cabeça não poderia estar de cabeça para baixo e... Sei lá! )

É preciso apelar para um esquema visual.

ARCAICO
Conservador
veja
Direita
MODERNO
Reformador
Esquerda

Como diabos um delírio de tal magnitude ter passado quase desapercebido?

Só vejo uma explicação. Trata-se de um tipo de sofisma que pessoalmente dominei de INVERSÃO DE PARADOXO, e que mesmo com outros nomes nunca encontrei seu conceito em nenhum manual de falácias. Trata-se de pegar uma questão que já possui uma ambiguidade natural, e apresentá-la com outra similar, porém totalmente invertidas, de modo que o leitor fica confuso num sistema que esconde uma contradição com outra até elas se anularem, dando a impressão de que nada há de errado. Nesse caso, vejamos.

Embora não tenha levado seu pensamento à última consequência, foi o próprio Alon Feurwerker que levantou os paradoxos naturais envolvidos: ...a elite brasileira, apesar de ser a responsável pelo grosso da corrupção, afirma que a corrupção é condenável. Enquanto o povo, apesar de participar da corrupção apenas marginalmente, admite com mais tranquilidade a existência da corrupção. Como explicar isso? Invocando em seguida Marx comentando brevemente sobre a mais poderosa característica da dominação ideológica, que é fazer os dominados compartilharem dos valores e justificativas que moldam a situação social.

Faltou, talvez por excessiva prudência, comentar como essa noção foi descaradamente omitida e ainda foram invertidos outros paradoxos, como o fato das classes mais pobres, mesmo sendo mais prejudicadas, serem também com frequência mais conservadoras, bem como as classes mais abastadas, mesmo sendo mais beneficiadas, serem as primeiras a se convencer de que há algo errado, exatamente por terem acesso à informação. Ocorre que aí vem a perversão da reportagem, que é confundir essa percepção, resultante do pensamento de uma elite intelectual, com um simples sistema de valores da própria elite econômica, e também ocultar que quando os intelectuais falam da consciência de classe progressista, estão enfocando não toda a classe desfavorecida, mas sim segmentos de trabalhadores e ativistas que normalmente ainda são minoria dentre a população mais pobre.

O golpe final vem simplesmente omitindo a existência de uma continuidade entre as classes sociais, em especial a classe média, invertendo a suposta noção maniqueísta de ricos maus e pobres bons para uma onde há pobres maus e ricos bons, se esquecendo que o segmento social de onde emanam os valores que são defendidos pela reportagem estão no meio.

Enfim, eu realmente não sei se todo o teor da reportagem foi diabolicamente calculado, ou está mais para um fruto randômico anormalmente nocivo da mistura dos coquetéis de preconceitos que velhos segmentos reacionários vêm desenterrando desde que tiveram coragem de sair do armário. Mas serve de exemplo de até que grau de distorção pode-se chegar para defender doutrinas que não podem ser abertamente expostas pelo simples fato de serem inconfessáveis.

E veja bem! Acho até que esse foi o pior exemplo, mas nem de longe é o único.

Marcus Valerio XR
31 de Janeiro de 2010

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