Ensaio EXERIANO sobre o CIÚMES

Este texto é especialmente dedicado ao meus colegas de rede Deine e Samir.
(Obs: Esse texto foi formulado com base em um debate em listas de discussão. Os nomes dos debatentes foram trocados.)

Tendo em vista que em minhas mensagens recentes enviei a estes um breve desenvolvimento sobre o Ciúmes, e devido a mesma reação de ambos de admiração mas discordância, vi-me obrigado a promover uma explanação mais cuidadosa dentro dos princípios lógicos e de rigor de raciocínio típico de alguém que se disponha a ser um filósofo.

Em meu texto anterior fiz uma abordagem superficial e com um objetivo passional muito claro, mesmo assim nenhum de vocês discordou de fato dessa abordagem mas sim de minha definição de Ciúmes, que é mais centrada no biológico ao passo que a de vocês é mais centrada no cultural. E ambos usaram basicamente do mesmo comentário: "De que eu tratei de forma muito racional algo que é excessivamente passional."

Em primeiro lugar então vamos definir as "variáveis", definir Ciúmes.

As definições obtidas em dicionários permitem diversas abordagens, porém seria um esforço inútil tentar trabalhar sobre tais pois as mesmas dizem sobre inúmeros aspectos diferentes.

Para esta explanação lanço mão de um de meus pressupostos mais típicos, que é:

O BIOLÓGICO PRECEDE O CULTURAL.

Sim, pois apesar de todo o esforço da Antropologia em classificar O Ser Humano intrinsicamente ligado ao Cultural, alterando-o e sendo alterado por este, e do fato de realmente ser difícil pensar em Ser Humano sem Cultura, assim como Cultura sem Ser Humano, não tenho a menor dúvida de que os fatores "naturais", isto é, de ordem biológica, é que tiveram prioridade em definir os culturais.

Há inúmeros argumentos em contrário a essa posição mas a maioria me parece um tanto circular, nada muda o fato de que o Homo sapiens surgiu antes de desenvolver sua cultura a não ser que se mude a definição desta para algo que englobe os diversos comportamentos animais, o que a meu ver, deixa o conceito de Cultura em apuros.

Posso resumir tal idéia numa única frase: "é mais possível haver um Ser Humano sem Cultura do que Cultura sem o Ser Humano."

Se compartilharmos da definição que o Ser Humano seja essencialmente cultural, basta mudar na frase acima o termo Ser Humano para Homo sapiens .

Numa analogia mais simples e menos discutível: "Pode existir um indivíduo sem uma sociedade, mas não existe uma sociedade sem indivíduos."

Sendo assim embora admita ser impossível determinar como, onde e quando surgiu a primeira manifestação cultural humana, não tenho dúvidas de que ela foi em princípio reflexo da bagagem instintiva. é por essa razão que tanto o Ciúmes quanto qualquer outro típico comportamento humano pode e deve ser analisado começando-se por suas caracterísitcas biológicas para posteriormente ser extendido à complexa teia da Cultura. Pois não foi a Cultura seja ela Patriarcal, Caça-Coletora, Conjugal e etc, que desenvolveu no Ser Humano o Ciúmes, mas sim este último, combinado com diversas outras características humanas inatas, que desenvolveu a Cultura.

É curioso como após a preliminar euforia Darwinista Social dos séculos XIX e XX, com seu Determinismo Biológico, os estudiosos ao se aperceberem dos deslizes que cometiam acabaram por invariavelmente cair no extremo oposto do Determinismo Cultural, que deveria hoje também estar superado. Embora é notável que atualmente tende-se a este último.

Por fim, vamos então a primeira definição:

IMPULSO INSTINTIVO DE COMPETIÇÃO INTRA-ESPÉCIE NO SENTIDO DE GARANTIR AS DIRETRIZES BIOLÓGICAS DE SOBREVIVÊNCIA E PERPETUAÇÃO.

Ou seja, uma tendência natural do animal em lutar pela sua prioridade de auto sustentação e reprodução com relação a outros de sua mesma espécie.

A esse Imperativo Instintivo de Prioridade darei o nome de PROTO-CIÚME, ou seja, a base natural para todo o comportamento complexo humano que determinamos com a palavra genérica de Ciúme.

Como todo o instinto, este também funciona na forma de direcionamentos inatos no sentido de Buscar Prazer e Aplacar a Dor, com prioridade neste último, uma vez que a sensação de Ciúmes em qualquer nível ou ponto de vista é sempre desagradável ao Ser Humano, para se livrar dessa sensação, ele então toma providências.

Os filhotes disputam a atenção e o carinho da mãe. Não se trata apenas de conforto, isso na verdade é vital para eles. O sentimento que os impele, ao ver um de seu irmãos recebendo a atenção de sua genitora, é o Proto-Ciúme, fazendo com que se dirija à mãe para também receber sua dose de aconchego e em alguns casos tentando expulsar seu "concorrente".

A fêmea que exige a atenção de seu macho, em algumas espécies, age também pelo sentimento de Proto-Ciúme, uma vez que pode neste caso estar seguindo uma diretriz bastante objetiva da natureza, a de proteger sua prole.

A primeira distinção que se deve fazer aqui é a da Competitividade com relação apenas a sustenção alimentar primária. Ou seja, o Proto-Ciúme não inclui a disputa direta por alimento, que também se dá Inter-Espécie. O Impulso Instintivo de Prioridade neste caso não envolve a mesma natureza de relação sentimental entre os indivíduos de uma mesma espécie e grupo. No que se refere a disputa fundamental de caça, coleta ou território, haveria que se dar um outro nome. Proto-Cobiça? Proto-Inveja? Talvez. Mas o Proto-Ciúme diz respeito necessariamente ao relacionamento entre os indivíduos de uma mesma espécie.

Chegando ao gênero Humano, vejamos como tal sentimento teria resultado na formação Cultural.

As culturas mais primitivas são completamente dominadas pelas necessidades naturais. O Ser humano apenas reage a natureza. Caça onde há algo para ser caçado, coleta onde há algo para ser coletado. As variações climáticas e as migrações de outras espécies ou grupos os obriga constantente a mudar de território.

Duas atividades começariam a mudar isso, a Agricultura e a Pecuária. A primeira permitia, e exigia, uma residência fixa. O Ser Humano passou a domar a terra, e as demandas por territórios e propriedades se estruturaram. A segunda, permitia também uma residência fixa mas exigia a princípio uma busca pelo local ideal, tendo sido inicialmente errante. Os pastores e rebanhos viajavam para locais de melhor condição de pasto, até por fim chegar a um local ideal e estabelecer condições para uma criação extensiva fixa.

Essas inovações do modo de vida foram naturalmente acompanhadas por uma total reformulação do modelo sócio-cultural. Nas sociedades agrículas surgiram os deuses da fertilidade e colheita, nas pastorais os deuses pastores.

Os relacionamentos humanos também se transformaram. Com a descoberta do grande mistério da reprodução, isto é, da importância do macho, que muitos estudiosos crêem ter se dado nas sociedades pastoris, surge o apego masculino pela prole, o que em última instância irá determinar seu relacionamento com a mulher e com as propriedades de um núcleo familar.

Em sociedades matrilineares é indiscutível que a trasmissão hereditária de bens é em si, mais simples. Não há dúvidas quanto ao traçado genealógico feminino, ou seja, sempre se sabe quem é a mãe. No patriarcado isso irá gerar toda uma sorte de problemas, onde a determinação da paternidade só é possível através do controle sobre a mulher, e onde o descontrole sobre o homem ao produzir vários filhos bastardos, irá acarretar inúmeras disputas por heranças.

Com o desenvolvimento das migrações e das propriedades móveis, em especial os rebanhos, intensificam-se dramaticamente as situações de perigo diante de competidores de outras espécies, como os lobos que atacam os rebanhos, assim como outros grupos pastoris que tentam roubá-los ou devido a disputa por territórios.

E mesmo em sociedades fixas o simples crescimento populacional exigia cada vez mais terras, o que logo passou a ser disputado a força. Assim como se desenvolveu o choque entre as culturas agrícolas e pastorais.

Essas situações bélicas consolidaram a supremacia masculina na sociedade, o que fica evidente com a adoção de novos deuses guerreiros. Cada vez mais a figura do Pai, o defensor, é priorizada. A sociedade então, para sua própria segurança, se militariza, o que significa colocar os guerreiros nas posições de liderança. Surge então o Patriarcado, ou como Riane Eisler melhor define, a Androcracia.

Essa breve explanação pré-histórica não é o mais importante, e mesmo que contenha falhas não afeta o objetivo principal deste texto, que a esta altura visa apenas demonstrar como a cultura transforma os comportamentos e por vezes sobrepuja as diretrizes biológicas.

Onde antes, no Proto-Ciúme, o indivíduo age instintivamente devido a uma sensação incômoda de ver outro indivíduo sendo acessado por potenciais competidores, agora, nesse estágio cultural mais elaborado, essa ação se torna cada vez mais consciente. Agora se sabe as implicações reprodutórias e toda a consequência hereditária e de transmissão de posses.

Embora o sentimento de Ciúmes também se dê entre indivíduos de sexos diferentes por indivíduos do mesmo sexo, por disputa afetivas não reprodutórias, o núcleo da questão é de fato a Competição Sexual, o Imperativo Instintivo de Prioridade se torna então pragmático e insititucionalizado. Criam-se regras para defender a prole, normas de conduta e ética, paradigmas de comportamento. Então temos o Ciúmes com todas as suas implicações humanas.

Principalmente pelo ponto de vista masculino, agora, permitir que sua companheira possua um outro parceiro não é apenas perder a prioridade reprodutiva, mas também por em risco sua propriedade, suas posses e expor-se a fragilidade social e a zombaria. O Ciúmes se torna cada vez mais cultural e complexo, mas isso de modo algum remove sua característica insintiva, pois o Proto-Ciúme é a base de tudo. O que o Ser Humano passa a saber com o desenvolvimento cultural, seus instintos, a natureza, já "sabiam" há milhões de anos.

Porém a cultura pode intensificar ou atenuar esse sentimento de acordo com a necessidade. Um exemplo notável e a dos Esquimós do Ártico.

Naquelas condições inóspitas de sobrevivência, não existe agricultra, coleta, e nenhuma possibilidade de pecuária, pois simplesmente não há vegetação. Os grupos humanos vivem exclusivamente da caça. Como nesse contexto assim como em quase todos os outros a caça é uma atividade masculina, a sobrevivência depende do caçador.

Um costume chocante se desenvolveu então. Na necessidade de se garantir o herdeiro da família como sendo um homem, um caçador, exige-se que o primogênito seja do sexo masculino, pois do contrário correria-se o risco de na perda do pai, não haver quem o substitua, acarretando a fome para a mãe e filhos.

Pratica-se então o infanticídio seletivo. Se da primeira gestação do casal advir uma menina, esta é imediatamente executada. Só após gerar um menino é que as mulheres tem permissão para permitir que as meninas vivam.

Isso acareta obviamente uma defasagem na população feminina Esquimó. Nessa sociedades desenvolveu-se um hábito curioso, o homem casado costuma partilhar sua esposa por uma ocasião com amigos ou mesmo visitantes desconhecidos. Ou seja, nesse contexto social o Ciúme foi atenuado.

Já em outras sociedades, é comum haver defasagem na população masculina devido principalmente as guerras, o excendente feminino favorece a poligamia, e o número de esposas se relaciona diretamente com o nível social. Nesse caso o Ciúmes tende a ser acentuado embora "artificializado", ou seja, muito mais cultural do que biológico, pois por vezes o proprietário pouco se importa com uma de suas esposas, não raro mal a conhece, mesmo assim qualquer infidelidade é severamente punida devido principalmente à manutenção do estatuto social.

Na sociedade ocidental, uma religião, diferente de todas as outras, instituiu a Monogamia Perpétua, e uma série de outras diretrizes de comportamento que combinadas com outras influências culturais viriam a resultar naquela que considero como a civilização que mais sofre com problemas sentimentais do tipo Ciúmes.

Todos os Seres Humanos estão sujeitos aos diversos sentimentos inatos ou reforçados pela cultura, mas existem meios diferentes de se lidar com ele.

E finalmente chego ao objetivo final desta explanação, que é um crítica ao modo como as pessoas lidam atualmente com o Ciúmes.

No texto anterior, insisti num termo denominado "Incompetência Pessoal" ou "humana", a isto quero me referir à incompetência em ser feliz, a péssimo hábito de se causar direta e voluntarimente o próprio sofrimento. Ou seja, uma incapacidade em se obter e se manter maquilo que deveria ser o objetivo primordial da vida, a busca da Felicidade.

Citei várias situações tentando demonstrar como o ciumento é responsável direto pelo seu próprio mal estar e em geral age para piorar constantemente a situação. A principal fraqueza de todo aquele raciocínio, além é claro do teor emotivo e descuidado argumentativo, foi não ter estabelecidade muito bem o conflito basico de dimensões no tratamento dado ao Ciúmes.

O cerne da questão é que, uma vez estando imersos numa cultura, sendo seres fortemente culturais e compartilhando de sentimentos culturalmente pardronizados, deveríamos ter uma compreensão maior dos processos que nos afetam. O comportamente ciumento que descrevi tem por hábito exatamente misturar as coisas, ele percebe um contexto cultural de forma puramente insintiva, animal, com a qual tenta lidar com ele.

O indivíduo sofre uma mistura de sentimentos que denominamos ciúmes. Muito desse sentimento está sendo desencadeado pelo instinto de Proto-Ciúme, mas muito também é culturalmente estabelecido, e o indivíduo é arrebatado por uma síntese avassaladora, uma Emoção. Porém, na hora de lidar com esse sentimento, e com a causa deste sentimento, não compreende toda a implicação cultural envolvida e nem mesmo as implicações instintivas, e age de forma puramente primitiva, animal.

Oferecer uma solução animal para um drama humano muito raramente é uma atitude eficiente. Sob esta nova orientação, vejamos como ficam alguns dos trechos da mensagem anterior.

O ciúmes, ainda que perfeitamente compreensível do ponto de vista biológico, é uma atitude que no plano social atual se torna cada vez mais impraticável.

Pois do ponto de vista biológico, o Proto-Ciúmes é um dos mecanismos que a natureza nos equipou para competirmos pela nossa perpetuação, mas as atitudes suscintadas por esse sentimento não tem um bom resultado num contexto cultural mais complexo.

Quanto aos seguintes comentários:

Sinceramente, não creio que o ciúme seja algo de origem biológico, ou melhor dizendo, algo que possa ser explicado a partir dessa ótica, ou pelo menos não só a partir dela.

Outra coisa, meu caro Marcus, essa redução que você faz do ciúme a uma simples resposta biológica, se você mesmo fala uma hora que o relacionamento humano não pode ser reduzido ao biológico, como é que você pode reduzir um sentimento tão complexo como o ciúme a uma resposta biológica? Pode até ser que haja uma correspondência biológica aí mas com certeza não dá para explicar o ciúme apenas por isso.

Tentei eliminar essa discordância através da definição do Proto-Ciúmes, que é necessariamente biológico, diferente de um conceito mais complexo de Ciúmes que incluiria até mesmo o "Sentimento de Posse".

Primeiro porque faço uma distinção entre sentimento de posse e ciúme!... Portanto, posso entender que a necessidade de garantir a posse do parceiro sexual seja algo fundamentado nos princípios que regem as leis biológicas de transmissão de genes... mas... o ciume é um sentimento mais complexo,

Ou seja, a discordância em si se deu com relação a definição de Ciúmes, que nesse caso recebeu um tratamento muito mais abrangente.

Se elevado a certos níveis de EXTREMISMO ele declara simplesmente a incompetência pessoal de quem o sente. E é muito fácil demonstrar isso.

Repare bem no "EXTREMISMO", não estou falando em qualquer ciuminho que ademais qualquer pessoa pode sentir. Não estou fazendo nenhuma indireta, estou me referindo a pessoas que cometem atos extremos com relação a isso, que podem ir desde vexames públicos e escandalosos até atos homicidas.

Quanto a "Incompetência", sustento minha colocação radical no fato de que a pessoa falha proposital e miseravelmente naquilo que deveria ser a coisa mais simples, a maior razão de existir. Simplesmente insiste em destruir qualquer chance que tenha de ser Feliz, e por vezes se apega tanto a isso, que chega a ter orgulho de seu sofrimento.

Em linguagem popular poderíamos utilizar aquela velha piadinha do sujeito que além de ser Corno ainda é Burro. Pois perde a cabeça e faz um besteira que pode arruinar sua vida e a dos outros, ou no mínimo, inferniza a própria vida, sendo incapaz de reagir.

O Ciúmes é, como praticamente todos os sentimentos negativos humanos, fruto do Medo. No caso o medo de perder seu parceiro sexual de uma forma ou de outra, medo de perder o privilégio da exclusividade, um impulso da natureza que tenta garantir a transmissão de seus genes com prioridade absoluta sobre os de qualquer outro concorrente através da genitora que você escolheu.

Bom, voltamos a questão biológica... Não, eu não acho que o ciúme possa ser reduzido a isso, posso mesmo dizer que acho essa colocação um tanto quanto simplista, Marcus.

Tudo bem. Então pensemos no Proto-Ciúmes.

Dessa forma simplificada o ciúme só se relacionaria as relações em que há pessoas férteis, capazes de reproduzir, e isso não é em absoluto uma verdade.

De forma alguma, pois a natureza em geral não nos equipou com a capacidade de discernir claramente quanto estamos ou somos férteis. Geralmente a esterlidade não afeta o impulso sexual de alguém. Mas isso é uma discussão que converge para um outro tema.

Insisto na minha distinção entre sentimento de posse e ciúme...

Ou na distinção respectiva de Ciúme e Proto-Ciúme.

O ciúme... é sim fruto do medo, mas não é só isso, e nem tão pouco é meramente o medo de perder o parceiro sexual... é o medo de perder o afeto do parceiro, é o medo de não ser mais o escolhido, é o medo de tornar-se o excluído, excluído da possibilidade amorosa do encontro, do terno e doce abrigo do aconchego...

Nesse ponto está a maior confusão do meu raciocínio. Pois antes colocara o Ciúme como fruto do Medo, e agora o coloco como tendo base no Instinto Animal, isso é bem mais problemático do que parece.

Mas simplificando, tenho uma visão sobre o Instinto como sendo basicamente um conjunto de instruções inatas para buscar Prazer e evitar Dor, a perspectiva da Dor gera Medo, o que explica o Proto-Ciúme e consequentemente o Ciúme como Sentimento de Posse. Porém o Medo é na realidade o tronco das malezas gerado pela raiz da Ignorância. Conciliar isso com a estrutura Instintiva Humana ao mesmo tempo que elaboro minha "Teodicéia" para explicar a origem do "Mal" é uma outra História.

O ciúme é fruto do medo de "não ser", porque é através do olhar do outro que nos reconhecemos,...

Voltando ao Medo, ainda que imerso nos mares revoltos da complexidade humana, ainda que extremamente embrenhado na floresta das relações influenciadas pela cultura, a raiz do problema ainda é o Proto-Ciúme, é o biológico.

Por mais que tenhamos nos tornado seres complexos e por vezes mesmo estranhos à natureza, ainda nos pautamos nela. Todo o edifício cultural humano ainda tem nas suas bases os instintos naturais. Ainda nascemos, crescemos, nos alimentamos, respiramos, nos reproduzimos e morremos, por mais que enfeitemos, ainda obedecemos a natureza, tudo visa satisfazer primeiro a essas necessidades, as necessidades primárias. Tudo o mais que desenvolvemos é biológicamente secundário, ainda que humanamente prioritário. Mas não podemos viver sem o primário.

Portanto, acrescente quantos níveis de complexidade cultural, arquetípico, psíquico e etc. quiser, mas se não prestar atenção ao biológico, tudo vai por água abaixo.

É por isso que ouso abordar não só esse mas diversos outros temas complexos pela base biológica, para depois extender para o cultural.

... Já o sentimento de posse... Ah! Esse sim, esse só visa garantir diante dos olhos do mundo a legitimidade da parceria, é como uma necessidade de confirmação social de pertencimento de um parceiro ao outro, e consequentemente de identificação do "território genético" já devidamente "loteado". Como todo arranjo social nascido de uma necessidade biológica, esse sentimento foi sendo paulatinamente cristalizado por meio de processos de institucionalização da parceria, das tradições que sacramentalizam a posse dos parceiros, das regras jurídicas que instituem as formas dessa parceria, da normatização dos sentimentos, ações e pensamentos que configuram a parceria... enfim...

Enfim...

... O sentimento de posse é a mais evidente manifestação de uma necessidade biológica interpretada como uma expressão afetiva.

Que lindo!

Deixe-me repetir:

... O sentimento de posse é a mais evidente manifestação de uma necessidade biológica interpretada como uma expressão afetiva.

Ou, do meu jeito:

... O "CIÚME" é a mais evidente manifestação de uma necessidade biológica (Proto-Ciúme) interpretada como uma expressão afetiva.

... O ciúme por sua vez, ouso dizer, é fruto da nossa busca pelo reconhecimento daquilo que desejamos ser, ou melhor dizendo, pelo medo de não sermos reconhecidos... Para que haja ciúme é necessário algum tipo de afeto, algum tipo de expectativa afetiva, algum tipo de relação entre o objeto de ciúme e o sentimento de identidade emocional de quem se encontra enciumado. No sentimento de posse não!

Percebeu como a questão das definições está ficando complicada? Vamos tentar criar uma linguagem comum?

Já definimos o Proto-Ciúme, deixemos a palavra Ciúme de lado e então:

Para o Sentimento de Posse, que é basicamente cultural, ou seja, um "Ciúme artificial", deixe-me usar o nome: "ETNO-CIÚME", que se enquadra na frase que repito aqui.

Já em outras sociedades, é comum haver defasagem na população masculina devido principalmente as guerras, o excendente feminino favorece a poligamia, e o número de esposas se relaciona diretamente com o nível social. Nesse caso o Ciúmes tende a ser acentuado embora "artificializado", ou seja, muito mais cultural do que biológico, pois por vezes o proprietário pouco se importa com uma de suas esposas, não raro mal a conhece, mesmo assim qualquer infidelidade é severamente punida devido principalmente à manutenção do estatuto social.

Esse é o "Etno-Ciúme", fruto do ETHOS social, que traduz o "Sentimento de Posse", como na descrição abaixo:

Alguém pode querer aprisionar seu parceiro sem ter uma gota de afeto por ele... no sentimento de posse, mesmo um sujeito com 500 esposas no harém, que ele nem sequer sabe o nome ou mesmo tenha visto o rosto uma única vez, pode mantê-las sob vigília apenas para confirmar sua autoridade territorial, sua superioridade social, sua capacidade genética, seu direito divino de possuir.

E agora vamos ao mais complicado:

No ciúme, mesmo que as 500 mulheres de um harém o desejem, ele só reconhecerá uma como capaz de conferir o afeto que tanto busca, e o medo de perder o afeto dessa uma desencadeará a vontade de retê-la só para si, ele não necessariamente o fará, e caso saiba que deixá-la livre é a melhor garantia de continuar a tê-la, mesmo sofrendo ele não a impedirá, embora sofrerá com isso.

Essa abordagem é muito romântica, chega a ser sublime. Isso de fato ocorre, mas aí me parece ser elevar o termo Ciúme para um nível muito além do senso comum e de qualquer definição de dicionário que já tenha visto. Seria esse definição vinda da Psicanálise?

Para essa percepção de Ciúme, darei um nome romântico: "ERO-CIÚME"

Em homenagem a EROS, no sentido mais nobre da palavra. Imagine então esse Ero-Ciúme na frase a seguir:

Contudo, o ciúme é um sentimento poderosíssimo, e sua emergência é desconcertante, é avassaladora, porque nos remete ao medo da perda do afeto. A emergência do ciúme pode ser vivida de forma violenta, amarga e sofrida, mas quase sempre essa turbulência dará lugar a tentativa de manter o objeto de afeto junto de si, e via de regra nos dispomos a inúmeras concessões apenas para garantir a permanência desse olhar que nos reconhece.

Esse é o Ero-Ciúme.

... Talvez você esteja pensando, de onde ela tirou essa distinção?...

... Do meu coração!!!....

E como tudo o que vem deste coração... Essa distinção merece um nome divino.

Portanto temos então:

Proto-Ciúme: Para o base biológica instintiva baseada no Imperativo de Prioridade.

Etno-Ciúme: Para o Sentimento de Posse sacramentado Socialmente.

Ero-Ciúme: Para um sentimento sublime que se aplica num nível humano mais elevado.

Voltando...

Se você é extremamente ciumento com sua parceira a ponto de vigiá-la, de cercá-la e tentar isolá-la dos outros homens, agindo para com eles como o macho age para seu semelhantes concorrentes, bem, fica evidente que tudo isso é por que você tem medo de perdê-la. Mas não se esqueça que ela é humana, e não uma simples vaca!

Aqui refiro-me prioritariamente ao Proto-Ciúme, e em algum grau menor também ao Etno-Ciúme. Ou seja, é o conflito de uma atitude animal sendo aplicada num contexto humano.

Nesse caso o medo não é de perder a parceira, é medo de perder a autoridade sobre ela, é medo de ter o próprio controle ameaçado... é sentimento de posse, e aí tanto faz se é uma vaca ou uma mulher, um carro ou uma idéia, já que tudo que se quer demonstrar é a posse sobre o objeto.

Já essa resposta se concentrou basicamente no Etno-Ciúme.

Sob qualquer ponto de vista esse atitude demonstra uma incrível incompetência como Ser Humano em algua área.

Acho que demonstra uma enorme dificuldade em separar o valor do que eu sou do que eu possuo. Sabe a velha discussão entre  o "SER" e o "TER"?... Pois é, é isso.

Agora sim entraremos na parte emocionante.

A primeira possibilidade é a de que você não confie na sua parceira. Você a trata como uma "traidora" em potencial. Se você sofre com essa perspectiva, então a Incompetência a qual me refiro é a de ter escolhido e manter um relacionamento com uma pessoa que você não deposita confiança. Você sofre por escolha. Se relacionar com uma mulher deveria ser algo mais do que possui-la sexualmente, mesmo porque como Ser Humano seu objetivo não é a simples reprodução.

...não creio mesmo que o desejo de possuir alguém sexualmente restrinja-se apenas ao instinto de reprodução da espécie. Na espécie humana, o encontro sexual possui significados muito mais complexos do que o simples pulsar dos relógios biológicos, eles têm sua função mas não são os únicos protagonistas nessa história.

Como se pode ver trata-se do conflito entre o Etno-Ciúme e suas implicações sociais, com o Proto-Ciúme que induz a um comportamento que resulta num conflito entre o biológico e o cultural.

Estamos recheados desse conflito em todos os instantes. Ficamos excitados com coisas que vemos a todo instante, inclusive nas ruas, mas não podemos tocá-las. A cultura consumista explorando a sexualidade humana nos inferniza com um exposição que nos desperta a multiplas sensações principalmente o impulso sexual, mas não podemos satisfazer o desejo que se abate sobre nós. Somos atiçados no Biológico, mas o Cultural bloqueia o que o biológico é impelido a realizar.

Se agirmos exatamente como nos ordena nossos impulsos iremos parar numa instituição social denominada penitenciária ou similar. Ou seja, uma atitude animal não pode ser tolerada num contexto social, ainda que tenha sido provocada.

Nessa discussão sobre o Ciúme, o que mais me é flagrante naquele a quem chamo de Pessoalmente Incompetente, é a insistência em se comportar de forma "inadequada", ou seja, uma situação basicamente cultural despertaria basicamente um Etno-Ciúme, mas muitos reagem com o Proto-Ciúme. O resultado é em geral nefasto.

Mas suponhamos que você confia na sua parceira, sabe que ela não o "trairia" facilmente. Mas você compreende nela uma fraqueza humana, sabe que ela é "fraca", que sua parceira também pode, assim como você, ceder a uma tentação, optar por um concorrente. Sendo assim a incompetência está localizada no fato de você não ter conquistado uma parceira mais fiel e mais forte, sentimentalmente falando, e ou na sua falta de confiança em si mesmo como um bom concorrente capaz de manter o interesse dela em você. Se você não se importasse com uma eventual escapulida da parte dela, tudo bem, mas se você sofre com tal possibilidade e mesmo assim mantém uma parceira na qual mais uma vez não confia, ainda que por um outro motivo, você mais uma vez escolhe o sofrimento, e ou ainda admite sua incompetência como competidor.

Note que nesse caso essa "fraqueza humana" na verdade diz mais respeito a uma "fraqueza" animal, ou na fraqueza em se manter o impulsos animais fora de nossa conduta humana.

Vamos pensar agora que você não acredita em pessoas totalmente fiéis. Que não há como encontrar uma parceira na qual confiar plenamente pois afinal, humanos são humanos, são frágeis e falhos. Sendo assim não há como culpá-lo por ter uma parceira que não seja plenamente "confiável". Se você sofre com a pesrpectiva da traição, então a incompentência está no fato de você não ser capaz de compreender uma fraqueza humana natural em todas as pessoas, você exije um desempenho sobre-humano, algo que mesmo você não é capaz de fazer e mesmo que fosse estaria querendo demais ao esperar de outras pessoas o seu comportamento. Se você não sofresse com isso, tudo bem, se fosse mesmo capaz de perdoar uma possível traição, não haveria problema, mas se não é o caso então sofre a toa, por algo que não pode ser mudado.

Aqui mais uma vez, Proto-ciúme e Etno-Ciúme se misturam de forma sutil, flagrados no termo "traição", que só faz sentido culturalmente.

Se em qualquer uma das situações acima você vigiasse sua parceira sem grande traumas, ou seja, se fosse apenas zeloso e compreensivo, permitindo-lhe liberdade de contato com outros homens ainda que vigiados embora sem pressão, e o mais importante, não sofresse com isso, então as possibilidades de Incompetência Humana descritas estariam anuladas. Mas se você age como um galo bravo, desprendendo esforço excessivo e se desgastando emocionalmente para manter sua parceira na linha, então novamente, sofre desnecessariamente.

E aí sim, conclui que a postura animal, vinda do Proto-Ciúme, não é adequada a um contexto cultural, que deflagra o Etno-Ciúme, a atitude então deveria ser predominantemente humana, abordando o comportamento social. Ou seja, apesar de por vezes incitado pelo Etno-Ciúme, onde uma atitude mais estratégica e racional seria mais eficiente, o indivíduo age de forma primitiva.

No nosso contexto ocidental, com uma mulher precisando do contato social, deveríamos nos adaptar a uma teia de relacionamentos que ainda que possam oferecer algum risco de perda de prioridade sexual, não compensam uma atitude de Etno-Ciúme excessiva e muito menos de Proto-Ciúme. Não podemos por véus ou trancar mulheres em torres. O indivíduo que nesse contexto não suporta ver sua companheira sequer conversar com outro homem mesmo que não haja qualquer indício de possibilidade de "traição", está fazendo uma confusão de Etno com Proto-Ciúmes mas agindo basicamente com relação a este último, simplesmente perde a condição humana. Como descrevo a seguir.

A não ser que você viva num contexto onde a possibilidade de sua parceira ser agredida sexualmente é muito alta, impedi-la sequer de conversar com outros homens e demonstrar uma fraqueza pessoal, uma incapacidade de se comportar como um Ser Humano e não como um simples animal.

E para demonstrar o quanto tal atitude não só é inútil e prejudicial como chega a ser absolutamente invertida em termos de eficiência:

Daí surgem posturas cada vez mais estúpidas, a ponto de funcionarem de forma absolutamente oposta ao que você gostaria, que ao invés de diminuir a possibilidade da "traição", fazem é aumenta-la. Ou seja, sofre e nem sequer consegue o objetivo pelo qual desprendeu tanto esforço.

Meu caro Marcus, sua explanação é digna de um filósofo, eu confesso que nunca vi algo tão visceral como o ciúme ser tratado de forma tão cerebral. O que posso dizer é que tudo o que você disse só faz sentido na retórica, no discurso, nas palavras, não vejo mesmo como algo tão emocional como o ciúme possa ser contido de maneira tão intelectual como você propõe.

... Sabe o que penso?!... Que você faz uma tentativa hercúlea, e confesso louvável, para racionalizar algo que é no mínimo 50% irracional. Eu sinto muito, mas não acredito que nossas escolhas afetivas sejam tão "simples" assim, ou seja, não acredito que o encadeamento lógico de seu brilhante raciocínio possa realmente explicar o conflito entre o que pensamos racionalmente sobre nossas escolhas amorosas e o que nos mobiliza afetivamente ao fazermos essas escolhas. Mas, juro que entendo sua argumentação, e mais do que isso, sua necessidade de tratar tão emocional assunto de forma tão racional.

E agora sim posso dizer por que discordamos. O Proto-Ciúme é inteligível pelo plano biológico, o Etno-Ciúme pelo plano etnológico. Nenhum dos dois é inanalizável. Podem ser muito bem racionalizados, e tem sido, por diversas abordagens. O que de fato é "irracional", mais de 50% talvez, seja o Ero-Ciúme, a esse sim talvez um esforço de análise fosse pouco útil, porém nesse texto eu não abordei o Ciúme por esse prisma.

Pela enésima vez uma divergência de opiniões surge não devido ao desenvolvimento do raciocínio mas sim devido a discordância de definições dos termos empregados. Enquanto eu usei a palavra Ciúme para me referir principamente ao plano biológico e secundariamente ao Cultural, minha dialogante acrescentou uma dimensão mais complexa, no campo da psicanálise, e meu outro dialogante fez o mesmo porém de uma forma menos explícita.

Confesso que tenho ficado bom em detectar quando uma discussão trava devido a falta de entendimento entre os debatentes por não concordarem com o termos empregados, sem no entanto se darem conta disso, e insistirem como se estivessem um vendo falhas no argumento do outro. Ou seja, confundem falhas de conclusão com discordâncias de premissas. Por isso insisto tanto na clareza de definições.

Seja como for... se o Samir leu sua mensagem até aqui, eu imagino que ele deva estar ligeiramente confuso, pois penso que ele funciona mais na paixão, embora me pareça que ele seja em alguns pontos muito mais frio, objetivo e racional do que qualquer argumento lógico. Mas, quanto ao ciúme, acho que no caso dele muito do discurso controlador fala de questões culturais e mesmo de uma necessidade de se afirmar como macho dominante na "rinha". Uma coisa eu tenho certeza, se ele ler isso até o final, ele se sentirá incomodado, pode apostar nisso.

Bom, se era essa sua intenção... e, eu aposto que era... você o está provocando, não é mesmo?!... Eu tenho certeza que você conseguiu... A propósito, o que ele respondeu?

Me parece que isso só é possível porquê você não sente ciúmes, não sabe o que é isso, não viveu, caso contrário você poderia entender que não dá para classificar em algumas categorias algo que é tão subjetivo e tão pessoal como um sentimento. Valeu sua tentativa, mas definitivamente meu caro, eu não me sinto um incopetente pessoal por ser um ciumento e de forma alguma posso concordar com a idéia de que uma traição possa ser justificada em função dos ciúmes do parceiro, isso é demais para min, não dá mesmo.

Também não concordo em justificar uma "traição" em função do ciúmes alheio, mas que acontece, acontece!

(...)

Mas isso não é o pior. Com essa atitude você simplesmente perde a capacidade de detectar uma possível traição real. E agora estou sendo pragmático. Se você acha que qualquer vendedor de seguros é um amante em potencial, então não será capaz de diferenciá-lo de um verdadeiro Ricardão. Ou seja, falha em sua percepção.

Sabe o que penso?... Que quem não sabe diferenciar uma verdadeira possibilidade de "traição" de uma falsa, não o faz por falha de percepção, o faz por não querer, querer de verdade, ver a realidade. Para algumas pessoas é mais fácil lutar contra fantasmas do que contra "inimigos" reais, já que esses exigem a tomada de resoluções, exigem ação, exigem o confronto direto com a vida e seus desdobramentos. Lutar contra quimeras, nada disso exige, essa é uma luta em que a própria pessoa estabelece os inimigos, as batalhas e as soluções sem que de alguma forma seja contestada... é muito cômodo!

Brilhante! Concordo com essa possibilidade, mas ela não exclui a outra.

Vamos ignorar aquela parte mais pessoal, que ademais é irrelevante.

(...)

Por fim, numa atidude de ciúme excessiva, que simplesmente causa o objeto de seu próprio temor, ou seja, simplesmente cria a situação propícia para a traição, você acaba sendo seu próprio algoz, fechando o círculo que deixa claro que o Ciúme é uma deficiência que o faz lutar contra si mesmo, num esforço, inútil, desgantante e nocivo.

Ao agir pelo sentimento exclusivo de Proto-Ciúme tendo misturado ou ERO/ETNO/PROTO, é impossível promover um comportamento eficiente na situação social.

Por quase 7 anos estive envolvido com uma mulher com a qual me casei. Jamais a vigiei, pois simplesmente confiava nela. Tinha essa paz de espírito. Só duas vezes fiquei transtornado. Uma quando um pulha, bêbado por sinal, mexeu com ela numa boate na minha frente, e só não quebrei a cara do sujeito por que ela não deixou. E outro quando um sujeito, num bar, simplesmente a agarrou por trás e ficou cheirando a cabeça dela. Por sorte percebi que era um gay que fazia isso com todas as mulheres, antes de tomar uma atitude radical.

AHA!... Então, meu doce Cavaleiro, também você não é imune ao "bichinho" verde - VERMELHO - do ciúme?!.....

Essa é a questão meu caro, quando você se sentiu ameaçado você se deparou com o ciúme, ninguém é ciumento apenas por hobbie, quando se tem ciúme se tem por algum motivo real,...

Lamento dizer mas acho isso simplesmente incômodo, criticaram justificadamente o reducionismo de meu raciocínio mas agora promoveram um reducionismo ainda mais radical.

Quando o primeiro fato ocorreu, o indívuo não a cortejou, ele não lhe fez um elogio, ele simplesmente AVANÇOU nela, fisicamente, bêbado e grosseiro, se eles estivessem sozinhos ela poderia ter sido até violentada. Nenhuma mulher gostaria daquilo. Se chamarem isso de Ciúme tudo bem, só acho que há uma diferença astronômica em se sentir incomodado por um ato deste, de se sentir revoltado por que sua parceira conversa amigavelmente com um colega de trabalho!

No caso fui despertado por uma síntese de Proto e Etno ciúmes, nunca pelo Ero, pois o sujeito não a abordou sentimentalmente a ponto de por em risco a preferência dela por mim. Da mesma forma que poderia ter agido mesmo que eu não conhecesse a mulher, pelo simples impulso "cavalheiresco" de porteger a "donzela" do "vilão". Naquele contexto não conheço um só Homem que não teria no mínimo ficado muito aborrecido, e a maioria partiria para a violência. Como eu mesmo teria feito se não fosse impedido. Eu poderia sim ter quebrado a cara do indivíduo naquela situação, mas JAMAIS partiria para agressão a um sujeito que estivesse tentando envolver minha esposa de uma forma cavalheiresca e cortês, sem antes me dispor ao diálogo.

Nem sei se chamaria esta situação de Ciúmes, mas quando eu declaro que não sou ciumento, querer que eu não me indignasse com uma situação destas é demais! Não ser ciumento não significa ser um... "pamonha"!

O segundo caso foi mais sutil, se eu fosse mais impulsivo poderia ter agido precipitadamente antes de perceber a situação, a maioria dos que chamo ciumento, teria atacado fisicamente o sujeito para depois perceber que ele era não só inofensivo quanto até agradável quando melhor conhecido.

Deve haver um dano cognitivo generalizado na maioria das pessoas ou então minha mente funciona de um modo muito diferente, pois vi comentários similares de diversas pessoas.

Ao que tudo indica é o velho Maniqueísmo, que não aceita meio-termo. "Se o indivíduo se diz não ciumento então deveria assitir calmo e impassivo enquanto sua esposa é agredida sexualmente, caso contrário, ele é ciumento."

Ou é 8 ou é 80! Porra! Acho que há uma distância colossal de uma coisa para outra! Não dá para enfiar tudo no mesmo saco!

...

Well...

Voltando:

O Ser Humano deve ser livre, para optar em qualquer momento. Para mudar. Não deveríamos ter instituições religiosas,seculares, tradições ou "bons costumes" para nos dizer o que devemos fazer em matéria sentimental.

Oh! Marcus!... Nós somos as instituições religiosas, seculares, tradições e "bons costumes"!... Essa história é nossa e nós a recontamos todos os dias... a matéria sentimental está profundamente amalgamada com todas as outras matérias de nossas vidas...

Sim. Claro. Mas nós somos especialistas em, como disse Marx, por em ação forças que fogem ao nosso controle.

.... podemos tentar escapar disso, mas não devemos nos iludir, o que somos é fruto de tudo isso e mais um pouco...

Muitas vezes Marcus o conhecimento acumulado pelas tradições são fruto da experiência humana e podem ter muito a nos ensinar, apesar de defender a individualidade e a busca pessoal eu acho que um dos males de nosso tempo é nossa recusa em ouvir e aprender com aqueles que viveram antes de nós.

Ótimas intervenções estas.

Pois o Ser Humano, é indomável.

Penso que mais gostaríamos de ser do que somos... ou, melhor dizendo, há uma parte de nós indomada que luta para se manter livre, mas há partes de nós que já não mais consegue caminhar sozinha.

É preciso ter cuidado. Quando digo "O Ser Humano é indomável", admito que considero esse SER de modo bastante ontológico e quase platônico. Considero que existe uma essência fundamental humana que consiste principalmente na capacidade de evoluir e romper com paradigmas, sendo então, impossível de ser domada. Se muitas pessoas não agem assim não significa que esse "Ser" perca sua qualificação, uma vez que sempre há quem a realize.

Ou pode ser, como prega o Existencialismo de Sartre, que a existência preceda a essência, então não haveria um "Ser" Humano mas sim um Não-Ser que ao ser submetido à existência, torna-se humano. Bem vistas as coisas, no plano prático o resultado não é muito diferente.

...

Por fim, espero ter esclarecido melhor o que penso a respeito deste tema, noto que várias vezes não sou fácil de entender, por isso decidi me explicar melhor. Pois como disse Kant:

"Não tenho medo de ser refutado, e sim de ser mal compreendido."

Até logo pessoal, e obrigado.

Marcus Valerio XR
2o Semestre de 2001

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