Em Defesa do
AGNOSTICISMO

Finalmente achei uma boa autodefinição a respeito de minha crença sobre Deus. Sou: Sentimentalmente TEÍSTA, Intelectualmente AGNÓSTICO e Pragmaticamente ATEU. Sobre isso, após meio que "fugir" do livro de Richard Dawkins DEUS - UM DELÍRIO por alguns meses, acabei ganhando-o de presente, e venho pela terceira vez comentá-lo.

Minha resistência inicial deveu-se ao fato de que embora seja admirador de Dawkins como biológo e defensor do Evolucionismo, sempre achei suas opiniões teológicas no mínimo dispensáveis. Suas críticas a religiosidade tendem a pecar por excesso, as vezes descambando para desastres completos, como Os Mísseis Desgovernados da Religião, onde nem sequer o título faz sentido. (Há uma crítica minha neste mesmo link, de 2001.)

Por outro lado, eu já havia lido dois outros de seus livros, o excelente O Gene Egoísta e o ótimo O Relojoeiro Cego que inclusive usei largamente em minha Dissertação de Graduação Kosmos & Telos. Ainda estou lendo O Escalada do Monte Improvável mas parei no meio, pois o livro tem muitas passagens que me são quase intragáveis, o que também ocorre nos dois ateriores, mas em bem menor quantidade, largamente compensados por uma ótima qualidade predominante.

Também li parcialmente Desvendando o Arco-Íris, que a meu ver, como o próprio autor confessa, não passa muito de uma homenagem ao MAGNÍFICO O Mundo assombrado pelos Demônios de Carl Sagan. Este sim, uma obra-prima que de longe supera todos os livros de Dawkins juntos, no que se refere a defesa do ceticismo e pensamento crítico.

DEUS - UM DELÍRIO não tem esses pontos baixos, sendo o melhor em dinâmica de leitura. Não só pela maior objetividade, leveza, e bom-humor, mas por trazer avalanches de informações de fatos relevantes. É quase revolucionário por estar "integrado" com a internet, trazendo centenas de referências a links que podem ser facilmente checados, ao invés das velhas referências a outros livros que na maioria das vezes são inacessíveis.

Achei o livro extremamente feliz em sua crítica ao abusos cometidos pela religiosidade, e na urgência em combatê-los, como eu já disse em meu Periódico de Março. E se talvez haja algum exagero na questão do abuso religioso na infância, concordo plenamente que ele chamou atenção para uma problema crucial, que é a doutrinação sistemática e nem um pouco condescendente das crianças, frequentemente apoiada pelo estado.

Sempre vi isso como uma das grandes vulnerabilidades, e uma anomalia, da democracia. Um estado teocrático islâmico simplesmente irá restringir severamente a livre educação de crianças fora da religião islâmica, bem como um estado comunista totalitário fará basicamente o mesmo, cortando pela raiz a maior parte das ameaças contra sua ideologia. Já a democracia, por sua própria natureza, permite que se eduque, incentive, propague e fortaleça sistemas de pensamento anti-democráticos, que um dia, podem derrubar a própria democracia e implantar um sistema que corte pela raiz o mesmo privilégio que a geração revolucionária possuiu.

Voltando a Dawkins, fiquei um pouco decepcionado pela falta de uma teoria memética mais forte, e achei particularmente superficial o Capítulo 3, que se dedica aos argumentos para a existência de Deus, visto que são muito brevemente apresentados e mal são refutados. No entanto serviu como um bom resumo do tema, que permite a novatos interessados procurar se aprofundar nas fontes citadas. Concordo que todos os argumentos teístas apresentados até hoje são falhos, mas por outros motivos do que os alegados por Dawkins.

Em compensação, no Capítulo 4, ocorre o ponto alto dessa parte da crítica. A devida ênfase à contradição, que escapou até a mim por muito tempo, do famoso Argumento da Improbabilidade, que ocorre ao afirmar que a única explição plausível para a complexidade do mundo natural se dê pela existência de um projetista (a velha falácia do 747 no ferro velho), porém usando uma analogia, relógio-relojoeiro, onde o projetista é muitíssimo mais complexo que o objeto projetado, e assim teríamos que admitir que Deus é muitíssimo mais complexo do que o mundo, e se é assim, então qual a explicação para Deus?

Se Deus, complexo, sempre existiu, então porque o universo, complexo, também não pode ter sempre existido? Se Deus é simples, e pode criar coisas complexas, então qual o problema em aceitar que das coisas simples tenham evoluído as mais complexas? Alega-se que Deus é simples, porém "inteligente", em contraste com um universo complexo e não "inteligente" (Na verdade, em Kosmos & Telos abordo isso com o conceito mais preciso de intencionalidade.) Mas a inteligência é complexa por definição. E se reduzirmos isso para uma simples 'Vontade', ou uma manifestação mais sintética como "O Verbo", alegando ser este simples, então, seja bem vindo ao Teísmo Evolucionista, a idéia de que Deus também evolui com o universo, que é exatamente o que defendo em Deus Me Livre, mas que infelizente não passa nem perto daquilo que os teístas costumam estar interessados em defender, incluindo os evolucionistas teístas.

Mas o ponto fraco de todo livro é o motivo tema deste texto. Dawkins faz não só um ataque às religiões, e ao teísmo, mas também um ataque ao AGNOSTICISMO, que é a posição que defendo e assumo. Tal crítica, no entanto, é tremendamente equivocada.

A Sensatez do Agnosticismo

Talvez por influência do Maniqueísmo associado à tipica falácia do 8 ou 80, as pessoas não raro tem mais aceitação por quem lhes tenha o ponto de vista radicalmente oposto, do que por aqueles que, seguindo o conselho de Aristóteles, se coloquem num meio termo. Vou reproduzir um trecho de um de meus livros de ficção científica:

"Quando se tem forte convicção de uma visão de mundo, e encontra-se uma visão oposta também fortemente convicta, e ambas são obrigadas de alguma forma a conviver e se tolerar mutuamente, fica explícita então uma situação de que tentar convencer o ponto de vista oposto é uma batalha perdida, e a previsibilidade da situação acaba se tornando pacífica.
Mas quando se descobre uma terceira posição mais próxima, que poderia, em tese, ser mais facilmente convertida, mas que no entanto insiste em se manter neutra, pode haver então uma estranha sensação de desespero e decepção, pois aqueles potenciais futuros aliados se tornam extremamente irritantes por permanecer "em cima do muro".
Isso explica porque posturas neutras, céticas e sintéticas não costumam ser numericamente populares como as posturas radicais e extremistas."

Este é o caso. Há milhares de militantes ateus, e milhões de militantes teístas, mas se houver militantes agnósticos, seguramente não chegam a centenas. O mesmo se dá com o Ceticismo em si, do qual o Agnosticismo faz parte, infelizmente até o termo cético tem sido usurpado por ateus militantes.

O termo Agnosticismo foi criado pelo grande Thomas Henry Huxley, mais informações no interessante, embora um pouco confuso verbete da wikipedia. Mas sempre esteve presente com outras designações.

Pessoalmente, defino o Agnosticismo como o Ceticismo sobre a existência de Deus, há um verbete sobre ceticismo na wikipedia bem mais preciso do que o sobre agnosticismo, mas seguramente o melhor texto sobre ceticismo que conheço é o brilhante Ficção e Ceticismo, mas não é um texto fácil.

Para simplificar, embora a palavra Agnosticismo esteja longe de ser precisa, defino-o, de modo geral como:

Crença na Impossibilidade da Certeza a respeito de (nesse caso) Deus.

Em meu outro site, já fui abordado com o assunto numa interessante mensagem. Dela, importarei um pequeno esquema visual inicial de minha própria autoria.

Teísmos
Específicos
Teísmo
Indefinido
Agnosticismo
Ateísmo
Negativo
Ateísmo
Positivo

O Ateísmo Positivo afirma a Inexistência de Deus, o Ateísmo Negativo afirma que não há bons motivos para crer na existência de Deus, negando a validade dos argumentos a seu favor. Por outro lado, como esse esquema é basicamente explicativo, não poderia comportar a opção de "Teísmo Negativo" por esta não fazer o menor sentido. A disposição de acreditar em algo por que não se demonstrou sua inexistência é completamente estúpida.

Portanto, o Teísmo Indefinido, é aquele que crê, ou ao menos está inclinado a crer em Deus, mas não em um dos deuses específicos pregados pelas religiões, e assim não tem muita convicção na maior parte dos atributos específicos deste Deus. Já um Teísmo Específico é aquele que crê necessariamente num tipo particular de Deus, assim, o muçulmano sunita convicto está nesse caso, bem como o cristão pentecostalista. Já o católico não praticante ou o teísta que não segue religião alguma tende a estar no Teísmo Indefinido

Há certezas radicais em ambos os extremos, e uma mistura de certezas e incertezas nas posições mais próximas do centro, mas no centro em si, o Agnosticismo, só há Incerteza, total!

Richard Dawkins, em sua crítica ao agnosticismo no Capítulo 2 de DEUS - UM DELÍRIO, usou uma divisão em 7 níveis, de teor diferente. Seu esquema é exatamente o seguinte:

Teísta Convicto
100% de chance de existência.
Teísta de Fato
Alta chance de existência, mas não total.
Agnóstico com
tendência Teísta

Mais de 50% de chance de Deus existir, mas não muito alta.
Agnóstico Imparcial
50% de Probabilidade de Deus existir.
Agnóstico com
tendência Ateísta

Mais de 50% de chance de Deus não existir, mas não muito alta.
Ateísta de Fato
Alta chance de inexistência, mas não total.
Ateísta Convicto
100% de chance de inexistência.

Eu, porém, digo que este sistema não funciona bem, pois só poderia ser aplicado dentro de um teísmo específico. Um Testemunha de Jeová está 100% Convicto da existência de seu Deus Unitário ao mesmo tempo que está 100% Convicto da Inexistência do Deus Trinitário da totalidade dos outros cristãos. Bem como o Xiita radical está 100% Convicto da existência de Alá e 100% Convicto da inexistência de Bhrama ou de Amaterasu. Dawkins percebe esse problema, mas o subestima.

Esse tipo de esquema só parece funcionar por que estamos lamentavelmente condicionados a travar o debate sobre a existência de Deus sempre tendo em vista o Deus Monoteísta de tradição Abraâmica, ou no nosso caso particular, exclusivamente o Deus Trinitário Cristão.

Ocorre que há milhões de pessoas no mundo que definitivamente não crêem em um desses deuses tradicionais, mas ainda assim declaram crer em Deus. Pessoas que não lêem a bíblia e nem qualquer outro livro sagrado, nem sequer crêem que eles sejam de fato sagrados. Não crêem em inferno, ressurreição, imaculada concepção e etc, mesmo assim acreditam que deve existir um tipo de inteligência cósmica no universo, algo que dê propósito e sentido às coisas. Pode até ser uma "pessoa" divina, mas pode ser também algo impessoal, um mera "força" ou conjunto de "leis" naturais ou seja lá o que for.

Pode-se até dizer que pessoas assim na verdade não acreditam em coisa alguma, apenas não tenham coragem de assumir o ateísmo, e ou não tenham paciência para seguir uma religião específica. Mas não podemos esquecer de que em boa parte do mundo, isso inclui a MAIORIA das pessoas. Sem contar aqueles religiosos que até se enquadram em uma certa denominação, mas tem uma visão pessoal bem diferente de sua divindade, o que faz toda a diferença na prática, pois alguém assim não costuma agir severamente em favor de sua religiosidade, que é o que costuma trazer problemas.

A diferença, no caso, é a inclinação. Tais pessoas se inclinam a crer em alguma Divindade, e podem muito bem estar esperando uma "nova" tradição específica. Como exemplo recente, pensemos nas milhares de pessoas que abraçaram a religião Wicca, que venera basicamente uma Deusa. No meu esquema muitos deles antes eram Teístas indefinidos, e então se defiram numa nova indentidade, um Teísmo Definido, ou seja, passaram de uma casa para a casa ao lado.

No esquema de Dawkins, eles pularam do Ateísmo de Fato, ou do Agnosticismo com Tendência Ateista para o Teísmo Convicto, no extremo oposto do esquema, pulando 4 ou 5 casas! E ainda assim, como se posicionam de forma diferente em relação a dois deuses distintos, ficam eles Teístas de Fato, ou Ateítas de Fato? Além do mais, praticamente nenhum teísta jamais considerou suas crenças em termos de Probabilidade.

E esse é, na realidade, o verdadeiro problema da argumentação de Dawkins, o sistema até funcionaria se não fosse pelo fato de dar um tratamento probabilístico ao tema, pois todo esse esquema foi feito para enquadrar o Agnosticismo como um sistema que se baseia no fato da probabilidade de Deus existir ou não é de cerca de 50%, o que justificaria a decisão. DE ONDE ELE TIROU ESSA IDÉIA?!?! E a maior parte de sua crítica é nesse sentido. Embora, mais uma vez, ele perceba que tem alguma dificuldade aí, a subestima, e tropeça nela o tempo todo.

Ele monta o esquema inteiro com o objetivo de argumentar, por várias vias, de modo a afastar a probabilidade da existência de Deus dos 50%, empurrando para o lado do ateísmo, e com isso pensa estar rebatendo o agnosticismo!

Acontece que a posição agnóstica normalmente nada tem haver com probabilidade. Eu não sei qual a probabilidade de Deus existir, mas mesmo que achasse que seria de 90% a favor ou contra, isso não me tiraria da incerteza. Portanto, o que diferencia ou não essas posições é a certeza, ao menos num nível prático. O Ateu Positivo e o Teísta Específico tem certeza total de suas posições, mas o Ateu Negativo também tem certeza de que nenhuma crença em Deus é válida, bem como o Teísta Indefinido tem certeza de que há bons motivos para crer em Deus.

O Agnóstico não tem certeza alguma. E ao contrário do que muitos incautos pensam, nem mesmo de que não tem certeza. Não há certeza de que não há certeza, não há certeza de que Deus é impossível de ser provado ou reprovado, não há certeza de que a posição agnóstica está correta. Simplesmente: NÃO HÁ CERTEZA!

É como, em meio a um grupo de torcedores de times diferentes de futebol, alguém declarar não torcer para time algum. Alguém assim não está torcendo para um não-time, ou torcendo contra o futebol. Ele simplesmente não torce! E em geral os torcedores se dão melhor com torcedores de times adversários do que com não-torcedores.

É claro que isso pode mudar se for especificado a que Deus se está referindo. Eu sou Ateu Negativo em relação ao Deus do Velho Testamento, bem como ao Deus do Islã, mas continuo agnóstico com relação ao Deus Kardecista, por exemplo. É até razoável ser um Ateu Positivo em relação aos Deuses da maioria das grandes religiões, mas não em relação a idéia de Deus em si.

O problema então continua sendo a simples incapacidade de distinguir a idéia de Deus de uma divindade específica qualquer. Na verdade, na maior parte do tempo, Dawkins sequer diferencia o Teísmo da Religiosidade, ignorando que é muito comum certas pessoas serem Teístas, Indefinidas, sem serem religiosas e vice-versa. E então, como ficariam os Budistas? Eles são ateus, seguramente, mas são religiosos, bem como os Jainístas, Confucionistas e Taoístas.

Sem dúvida é perfeitamente possível criticar o Agnosticismo, mas não por uma via de probabilidades, e muitíssimo menos pela bizarra via de comparações ridículas que, supreendentemente, não só Dawkins como muitos outros ateus usam frequentemente, que é a de equivaler a crença em Deus com crenças esdrúxulas como unicórnios, elefantes cor de rosa ou chupacabras, alegando que como não é possível provar sua inexistência, deveríamos então ser agnósticos sobre eles também.

Até poder-se-ia, mas esse argumento é simplesmente estúpido por ignorar no mínimo duas coisas óbvias interligadas:

1 - Que a crença em Deus, por sua característica intrínseca, é metafísica e infinitamente extensível, diferente de outros entes específicos que se possa alegar;

2 - E que o Agnosticismo não se baseia no simples fato de não ser possível provar que Deus não existe, mas principalmente no fato de TAMBÉM SER IMPOSSÍVEL PROVAR QUE EXISTE, o que certamente, também não se aplica a outros seres específicos.

Por exemplo. De fato, eu não posso provar que não existam unicórnios no mundo por uma questão puramente prática, tenho mais o que fazer! Mas eu posso provar que não há um unicórnio no meu quarto! E poderia fazê-lo em relação ao mundo se pudesse ter um acesso sensorial simultâneo ao planeta inteiro em todos os seus locais, ou mesmo ao universo. Portanto, um agnosticismo sobre unicórnios seria no máximo do tipo TEMPORÁRIO, para usar uma categoria sugerida pelo próprio Dawkins.

Mas eu não posso provar que não há Deus no meu quarto, e nem mesmo se eu tivesse acesso a todo o universo, pelo simples fato que uma das principais propriedades típicas do Deus, com "D" maísculo, é sua amplitude maior que o próprio universo, e sua indetectabilidade por definição. Por isso esse agnosticismo é necessariamente PERMANENTE, a outra categoria sugerida por Dawkins.

Eu também poderia provar sim a existência de um unicórnio simplesmente mostrando um, mas eu não posso de modo algum provar a existência de Deus nem que mostre a coisa mais milagrosa, estupenda e colossal de todos os tempos, pois o máximo que eu poderia fazer seria mostrar algo sobre-humano, mas como saber se esse algo seria Deus?

Se eu fosse a uma tribo intocada no meio da amazônia, eu poderia convencê-los da existênca do Deus EXERIANO, descendo dos céus num helicóptero, ou num para-quedas, lançando fogo e raios com lança chamas e tazers, curando doenças com artefatos milagrosos (remédios e anestésicos), e tudo o mais que minha tecnologia me permitir.

Como poderíamos então, por meio de alguma demonstração espetacular, saber se o que testemunhamos não passa de pirotecnia de uma estupenda tecnologia extraterrestre, ou mesmo de um tipo de "magia" desconhecida, mas perfeitamente passível de ser estudada, ou mesmo da ação de um ser sobrenatural que tem de fato diversos poderes, mas nem de longe tem qualquer coisa haver com nossa origem, nosso destino, vida pós-morte, criação ou controle do universo e etc?

Portanto, criticar o agnosticismo por meio dessas comparações bizarras, é ignorar a questão mais pura e óbvia que permeia a questão. De que não é uma simples Impossibilidade de Reprovar, mas antes a Impossibilidade de Provar, o que definitivamente não se aplica a exemplo isolado algum como um saci-pererê ou o papai-noel, e nem a proposições sérias, como a da existência de vida extraterrestre, ou de mistérios da evolução pré-cambriana. (Usando a palavra "prova" num sentido mais amplo, pois estritamente não existem "provas" em ciência.)

Isso nos leva à questão fonte da qual emana todo o ceticismo e consequentemente agnosticismo, e que é trivial e intuitivamente óbvia para o agnóstico, mas parece estar fora do alcance da maioria das críticas ao agnosticismo.

É que Provar a Existência sempre será muito mais fácil e plausível do que Provar a Inexistência. Para provar que tenho um diamante em casa, só preciso mostrar um, para provar que não tenho, é preciso revirar a casa inteira. Dependendo do tamanho da casa, isso é impraticável.

Da mesma forma, no exemplo citado por Dawkins, não posso provar que NÃO existe um bule de chá orbitando o Sol, mas posso provar que ele existe, ou ao menos, seria muito mais fácil provar positivamente do que negativamente.

É exatamente por isso que o ônus da prova sempre cabe a quem faz a afirmação positiva. Alguém tem que mostrar o ET se quiser nos convencer que existe de fato um. Mas não faz sentido algum aquele que não acredita ser obrigado a provar a inexistência de algo que não está evidente. Até quem só leu Harry Potter na vida, se leu até o final, aprendeu isso com a bruxinha Hermione.

Provas de inexistência, num sentido geral, são impossíveis por definição, porque não se pode mostrar o que não existe! Pode até haver provas de inexistência local, mostrar que não existe um dragão cuspidor de fogo na minha garagem, mas não que não existam no mundo inteiro e muito menos no universo. Mas eu poderia mostrar que existe, se tiver um. A não ser, é claro, que o tal dragão seja invisível, intocável, indetectável por qualquer meio e etc, o que apenas torna a afirmação automaticamente nula. Pois como foi então, possível afirmá-lo?

Foi Carl Sagan no excelente O Mundo assombrado pelos Demônios que usou a analogia do Dragão na Garagem, numa ótima sátira de algumas crendices populares que se espalham pela sociedade mesmo sem ter evidência alguma a seu favor. Nesse exemplo, o dragão era de tipo indetectável, mas havia diversos "testemunhos", alguns sinceros, sobre sua existência. Mas devo lembrar que embora esse dragão também seja impossível de ser provado, não pode ser comparado a questão sobre Deus, porque sua existência não tem nem de longe a mesma relevância.

As peculiaridades de crenças, sérias ou esdrúxulas, mesmo que também impassíveis de prova, não se aplicam diretamente a questão de Deus, e para finalizar demonstrando isso, vamos mais uma vez falar sobre aquilo que deveria de fato abrir qualquer dicussão sobre o assunto, que é definir Deus. Isso Dawkins fez, mas acho que com pouca precisão.

O termo deus tem inúmeras formas de uso, a única coisa em comum a todo e qualquer uso concebível, é que trata-se de algo com capacidades e características sobre humanas. Mas é evidente que uma discussão atual sobre isso estará levando em conta um ser que tem alguma "responsabilidade / autoridade / poder" sobre o mundo, e ou sobre os seres humanos, ou ao menos sobre aquele que crê.

Portanto, trata-se de um conceito que é relevante para a existência do indivíduo, ao menos num nível íntimo. Essa relevância pode se dar apenas em nossa própria organização mental, ou numa instância futura, ou metafísica da vida. Daí sua importância e seu poder de alterar o valor e forma da experiência de vida. É isso, e não as características detectáveis do mundo, que fazem a posição da existência de Deus fazer alguma diferença para as pessoas.

A crença em alguma entidade mais específica pode até dar algum sentido existencial ao indivíduo, mas a crença em Deus tende não só a dar sentido existencial imanente, mas também transcendente, um sentido Meta-existencial.

O que há em comum a toda e qualquer concepção atual de Deus que seja passível de discussão, é que ele não é algo que pode ser facilmente detectado nem mostrado como qualquer outra coisa, como jamais o foi, o que faz sentido do ponto de vista de seu significado, o de um ser que se aplica a existência humana em si, como experiência dotada de sentido que transcende a simples soma dos eventos do mundo físico. E isso, por si só, também já está fora da detecção e demonstração.

Portanto, aquele que crê em Deus hoje, (obviamente não estou me referindo a aldeias indígenas que ainda possam acreditar em deuses que passam tempo tocando fogo em rios), pensa em um tipo de propósito existencial para si, a humanidade ou o universo, ou numa instância que dê uma importância a essa existência além do mero horizonte existencial material. Um ser que tenha essa importância e capacidade necessariamente não estará disponível para detecção física restrita.

Ou por se tratar de um ser transcendente, ou um ser que mesmo imanente, seria a totalidade dos eventos físicos do universo. Esse sentido mais amplo e mais racional de divindade vem não só atender a uma necessidade psicológica forte no ser humano, mas também fornecer uma possibilidade explicativa para o próprio fenômeno da existência, pessoal e universal, que é algo que não está apenas longe de uma ampla explicação científica, mas talvez, totalmente fora da possibilidade desta explicação. Pois embora o corpo, o mundo, e até mesmo os processos mentais possam ser explicados por teorias adequadas, isso simplesmente não resolve o mistério íntimo, estético e ético da existência.

Assim, o Teísta Indefinido tende a achar que deve haver um significado, um sentido maior oculto por trás do fenômeno da realidade, e essa impressão necessariamente não seria óbvia. É diferente do Teísta Específico que, normalmente, ja acredita saber o que é esse significado, e em geral está pronto a abrir mão de sua potencialidade de significação pessoal íntima para aceitar um sentido já pronto. No entanto, é bem provável também que não haja sentido algum na realidade, obrigando o ser humano a ele próprio dar sentido a sua existência.

É bom observar também, que ao passo que existe um único Ateísmo Positivo, existem inúmeros Teísmos Específicos, por isso imaginar um esquema, como Dawkins faz, que vai de um Ateísmo Convicto até um Teísmo Convicto é no mínimo impreciso, pois não serve para explicar o espectro de possibilidades de crença e muito menos para situar o agnosticismo dentro de um campo de probabilidades.

Por fim, o agnóstico não é alguém que tem certeza da incerteza, nem um ateu ou teísta disfarçado ou envergonhado, e muito menos um covarde que não quer se envolver no debate, como se isso sequer fizesse sentido, visto que declarar-se agnóstico não é ficar de fora da discussão, pelo contrário, e ficar no meio do fogo cruzado recebendo ataques dos dois lados por vezes com uma hostilidade que supera a existente entre o teísta e o ateu.

O próprio Dawkins cita frases de teístas que confessam respeito pelos ateus e desprezo pelo agnósticos, e é tão fácil de achar na web opiniões similares tanto de teístas quanto de ateus, que nem vou me dar ao trabalho de citar links. Tem até letras de música sobre isso! Eu próprio, EU que tenho dois sites na internet em franco conflito intelectual com as mais variadas formas de pensamento, já fui acusado de covarde nesse sentido. Assim como também já o foram diversos dos mais bravos combatentes intelectuais de todos os tempos, como Carl Sagan, Stephen Jay Gould, Mark Twain, Bertrand Russel, Robert G. Ingersoll, Karl Popper, Albert Einstein, Charles Darwin e o próprio Henry T. Huxley.

Considerar o agnosticismo uma postura covarde é uma debilidade mental impressionante, pois não só manifesta o preconceito do crédulo que tem fé em algo sem qualquer evidência, o Ateísta Positivo e o Teísta Específico, como ainda por cima ignorância a respeito do próprio debate intelectual, que nunca pegou leve com os agnósticos.

Ser agnóstico é, ao mesmo tempo que se coloca fora da proteção e amparo de grupinhos, estar ciente e não ter medo da desafiadora liberdade que um universo aberto a qualquer opção pode oferecer. Ou como disse Huxley, que recebeu o apelido de Buldogue de Darwin devido a força com que defendeu o evolucionismo nascente ante a virulenta oposição do criacionismo, é "...não ter vergonha de encarar o universo, independente do que o futuro possa lhe mostrar."

Marcus Valerio XR
29 de Abril de 2008
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Sobre Dawkins