Marcus Valerio XR

No espaço, não há sons. O espetáculo visual é silencioso. O planeta azul oferece um belo quadro, com sua metade iluminada, girando imperceptivelmente em torno do centro de uma massa de terras. Pelo menos é o que vêem naquele ponto, alguns olhares concentrados, com muitos planos em mente.

- Tem certeza que é aqui?

- Bem. É o que as coordenadas indicam. Só que não podemos ver.
- Nenhum de nossos sensores mostra nada!
- É totalmente indetectável. Não se conhece tecnologia capaz de percebê-la. Mas está lá. A uns 1300m de profundidade.
- E as pessoas que moram na superfície? Nem desconfiam?
- Com certeza não. Ou nem teriam coragem de ficar lá. Se é que saberiam o que isso significa.
- Muito bem. Já providenciou a peça que faltava?
- Sim. Daqui a umas 53 horas ele já estará pronto.
- Melhor assim. Não quero fazer o Chefe esperar mais. Ele aguarda esse momento há anos. Finalmente conseguiu todos os códigos necessários e...
--- - COMO ESTÁ O CRONOGRAMA!?!?
- !!! Che-Chefe! Eu não percebi que... O senhor estava...
--- - FIZ UMA PERGUNTA!!!
- Já... Já estamos com tudo preparado e...
- O... Curan... Curandeiro está pronto senhor. Terminou o treinamento... Hoje mesmo. Logo estaremos enviando uma nave para buscá-lo. É... O senhor... Garante mesmo que as defesas anti-aéreas não irão...
--- - ACHA QUE EU PERDERIA MEU PRECIOSO TEMPO SE NÃO SOUBESSE O QUE ESTOU FAZENDO?!?!
- N-Não Senhor!
- Só queremos ter certeza senhor!
--- - MUITO BEM. VOCÊ NÃO PRECISAM FICAR TÃO PREOCUPADOS! TRABALHARAM DIREITO E FIZERAM SUA PARTE. ASSIM QUE O METANATURAL CHEGAR ESTARÃO DISPENSADOS E O ACORDO SERÁ CUMPRIDO.
- ...O-Obrigado senhor!
- Somos muito, agradecidos.

Quando o Chefe se retirava era impossível não notar que ficava mais fácil respirar. Ele não devia ser um mal sujeito apesar da aparência assustadora. Se é que podia-se dizer que tinha uma aparência. Era sempre justo e honesto. Mas não dava para ficar a vontade com ele. Ainda mais ali. A 40 mil kms de altitude, a bordo de uma nave não muito grande, contemplando pelo visualizador holográfico a abissal imagem do planeta Terra.
Marcus Valerio XR
Marcus Valerio XR

O sol se põe na estrada mas não diminui o azul cinzento que impera no céu e na paisagem arenosa. O estreito asfalto, na verdade um outro tipo de piso sintético muito mais resistente, serve de guia a um bando de amazonas em motos flutuantes ultra sofisticadas. Todas lindas, as mulheres e as motos, grandes e corajosas, nenhuma usa capacete mas algumas usam óculos de proteção. Mais por estilo pois seus rostos são protegidos pelos escudos de energia frontais das motos. À frente do grupo 3 delas se destacam, a do meio um pouco recuada das outras, prepara seu gravador de ondas cerebrais, que converte pensamentos fortes em sinas sonoros. E assim, com a tiara receptora na cabeça, se concentra para produzir mais um capítulo de seu diário.

Deserto de KOLNEIA, dia 164 do ano 687 da idade pós dourada, ou ano 3947 pelo sistema antigo. Septuagésimo oitavo registro da minha fase nômade.
Meu nome é Alice Bahaba, e se você que está ouvindo esse meu diário esporádico não me conhece, melhor ainda. Detesto quando minha má fama me precede.
Primeiro deixe-me esclarecer uma coisa, este é o primeiro diário deste mês e como sempre nessa ocasião eu faço uma breve apresentação de mim mesma e minhas pupilas, para o caso de você estar tomando contato com minhas memórias pela primeira vez.
Eu tenho 48 anos, mas meu metabolismo é supra homo sapiens, não sei se chego a ser homo superior pois sou DARIANA, como explicarei mais a frente para o caso destes registros serem pesquisados por alguém de uma cultura menos contemporânea. Tenho 1,87m de altura, peso 85 kgs, meus olhos e cabelos são castanhos ligeiramente avermelhados e eu sempre os mantenho ao natural ao contrário de algumas de minhas meninas que mudam cor de olhos, cabelos e pele em toda oportunidade que encontram como se fossem criaturas miméticas.
Minha mãe era cientista numa cidade utópica, BEL-LAR para ser mais exata, meu pai era administrador numa das cidades médias que eu não me lembro o nome e nem me interessa. Graças e eles terem assumido minha criação, tive a oportunidade de conhecer não só as cidades utópicas como as terras médias e as terras livres, onde preferi viver.
Nenhuma de nós após uma vida tão desregrada, poderia entrar numa Cidade Utópica, e as cidades médias são confusas, chatas ou caóticas demais. Por isso vivemos aqui, nesses territórios sem lei, onde cada povoado tem suas próprias regras e onde nós podemos ser o que nos queremos ser, e não apenas o que a sociedade quer que sejamos.
Fui rebelde por natureza, indomável, chego a ter pena da minha mãe, e embora lamente ter feito muitas besteiras na vida, hoje tenho orgulho do que sou.
Me vejo no retrovisor, estou com minha viseira de cristal metálico, presente de um incauto apaixonado que me cortejou há alguns meses atrás e que na primeira investida ficou com alguns dentes e neurônios a menos devido a sua indiscrição. Mas acabei dando o braço a torcer e quase lhe pedi desculpas, era um bom homem, mas nem chegou perto de sequer ameaçar me domar.
Acho que a cicatriz que agora já sumiu do meu rosto, que havia ganhado alguns dias depois foi castigo do Universo por ter sido injusta com ele, é a única explicação. Eu tinha desligado o escudo de energia como sempre faço quando quero sentir o vento em meu rosto e cabelos, e quando ajustava os escudos e sensores laterais, o que causa uma breve queda no sensor de aproximação frontal, um maldito besouro se chocou no lado esquerdo bem em cima de minha bochecha. Arrancou uma tira de sangue e doeu um bocado, passei o dia inteiro mal humorada. E se tivesse sido no olho? Demoraria um mês para me curar totalmente.
Portanto passei a tomar mais cuidado com o escudo, nunca alterar os sensores com ele desligado. Fiz isso de regra para todas as meninas.
Nesse momento estou sobre minha moto voando a 29 m/s a frente de minha gangue. Estamos devagar, uma de nossas motos está com o disco antigravitacional dianteiro destruído e tem que se mover sobre rodas até encontrarmos peças de reposição em algum lugar nesses vastos e desolados desertos, o que não será nada fácil. Se eu deixasse, não duvido nada que as malucas donas da moto, estivessem correndo sobre rodas a uns 100 m/s, o que é um suicídio.
Sou uma líder experiente e bastante respeitada, mesmo assim não é fácil manter essas meninas na linha. Tenho que saber precisamente quando ser carinhosa e quando devo acertar o nariz de uma delas para por um mínimo de juízo naquelas cabecinhas inconsequentes. Com algumas exceções é claro. Assim elas me respeitam não só como uma chefe, mas como uma mãe.
Das 40 moças que me acompanham só confio mesmo em duas para qualquer responsabilidade maior, Djane Mei e Velita Karmeni. Não fosse por elas eu já teria perdido a paciência.
Há também a Xivia Pesel, nossa campeã, que devido a extraordinária capacidade de combate conquistou o respeito das outras e acabou por se esforçar em se adaptar à imagem que fizeram dela.
Na verdade posso contar nos dedos as pessoas desse mundo capazes de derrotá-la numa luta franca, nem eu mesma consigo, mas no fundo em seus meros 24 anos ela ainda não passa de uma criança como as outras.
Com a exceção de 16 garotas, todas as outras inclusive eu somos DARIANAS, prováveis descendentes de uma hipotética humanidade matriarcal de dois certos planetas chamados SAMTARA e SEILA, cujo primeiro dizem existir do outro lado da galáxia. Pessoalmente não acredito nesses mitos antigos mas eles são ótimos para o ego das meninas. Acreditar que em algum ponto da Via-Láctea um império de mulheres como nós está devorando civilizações inteiras da mesma forma que nós devoramos "gatinhos" e IONES é no mínimo super excitante.
Por falar nisso acabamos de deixar para trás uma pequena cidade chamada Nova Kalma, aliás todas as cidades que encontramos nos últimos meses se chamavam "nova alguma coisa". Como sempre eu preferia uma estadia mais discreta mas os imbecis dirigentes da cidade tiveram a infeliz idéia de nos hostilizar e aí não deu pra segurar as meninas, elas arrasaram a cidade, pegaram todos os rapazes IONES jovens e fizeram uma orgia que eu juro que nunca ter visto nesses meus 15 anos de estrada e aventuras.
Depois eles contrataram um bando de justiceiros ou protetores locais que juntos com o que restou da polícia dessa região, nos seguiram dezenas de kms e num momento meu de descuido e imprudência de algumas das meninas, acabaram por capturar duas delas.
Jamais deixo sequer uma de minhas garotas para trás, nos reorganizamos, revidamos e demos a aquele bando de machistas babacas uma lição que poderia muito bem faze-los desistir de serem homens. Mas depois eles ainda deram um jeito de juntar mais reforços e se eu não me engano até uns metanaturais locais. Nos seguiram mais um bom bocado mas ao que parece, desistiram há dois dias atrás. Acredito que isso se deve ao fato de eu ter obrigado algumas de minhas pupilas a deixarem para trás os 4 Iones que elas insistiam em trazer.
Resultado, isso nos custou uma moto, que foi totalmente destruída, a outra que não pode mais flutuar e muita munição. Além de algumas delas terem se machucado, nada grave mas há quem vai ficar um tempo com uma cicatriz no braço esquerdo.
Uma vez prometi a elas que em breve todas teriam sua própria e exclusiva moto, no momento só temos 30 contando a avariada, isso obriga algumas a andarem em dupla. Estou demorando a cumprir essa promessa apesar de estarmos progredindo, na ocasião em que prometi éramos 28 moças e 15 motos.
Mas agora o que me preocupa é que com o estardalhaço que fizemos todas as patrulhas dos próximos povoados já estejam de sobre aviso a nosso respeito. Por isso decidi sairmos de nossa rota original e vagarmos pelas terras baixas por uns tempos, para limpar a barra.
Com certeza será mais tranquilo mas em compensação a possibilidade de acharmos peças para consertar a moto avariada diminui muito. Tenho que impor muita moral nessas moças pois minha intenção na próxima cidade e ter uma estadia amigável e quem sabe até conquistar a confiança dos nativos.
Não vai ser fácil, muitas de minhas pupilas estão ovulando e se você não sabe o que isso significa para uma DARIANA, eu recomendo que sendo homem, nem chegue perto de uma delas quando estão nesse estado a não ser que esteja com muita disposição sexual. Se a lua estiver cheia então fuja! Elas ficam totalmente malucas.
Eu por ser mais velha já não tenho uma vontade tão impotente contra minha própria libido, mas eu também adoro sexo, e muito!
Sempre lembro de pensar que a melhor coisa do mundo sempre existiu independente da tecnologia. Prova de que a Deusa é bondosa. Adoro minha moto, adoro roupas de tecidos sintéticos e adoro visores ultra ópticos. Mas nada disso se compara a sexo.
Dizem que há alguns milênios atrás houve sociedades que consideravam o sexo como uma coisa maligna, que destruía o espírito humano. Só mesmo uma hipocrisia absurda e uma maldade monstruosa poderia construir um pensamento desse tipo. Não consigo acreditar que isso seja concebível.
É certo que muitas coisas melhoraram nos últimos séculos afinal os Iones surgiram há pouco mais de 400 anos, e mesmo nós DARIANAS fomos uma evolução posterior ao surgimento dos homo superiors. Sei que há algum tempo atrás ainda haviam mulheres que na minha idade já estariam com rugas. Pior ainda! Ouvi falar numa tal de pausa na ovulação que lhes eliminava o desejo sexual! Eu me mataria.
Mas não consigo entender uma sociedade que tornava a fonte da vida, do amor, do prazer, justamente na fonte da morte.
Estou me empolgando, o dispositivo de gravação piscou em alerta as oscilações de meus pensamentos. Se quero continuar gravando tenho de me manter concentrada. Isso eu sei fazer, as vezes consigo gravar até músicas.
Agora, passada a última curva, avistamos sinais de povoado. Já não era sem tempo. Vimos um veículo aéreo cruzar ao longe violando a Lei de Cobertura. Incrível! Violando uma das poucas leis desse território. Se estiver ao nosso alcance vamos derrubá-lo.
As meninas estão empolgadas, é hora de parar e conversar com elas, algumas merecem uma bronca séria desde que saímos de Nova Kalma, mas preciso ser mais suave nesse momento. Não quero excitá-las ainda mais.
Está na hora de ser mãe. O sol acaba de se esconder, o vento está fresco e agradável. Não há sinal de vida além da fumaça da cidade logo a frente. A placa diz Nova Altéia, população 1500 habitantes.
Acho que vai ser bom.
Marcus Valerio XR
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O Sol se levanta no horizonte e a estrada se revela em extensão aparentemente infinita. Numa reta quase perfeita, um veículo rasga o ar como um meteoro, mas tocando o solo, criando vento no deserto. A ausência aparente de formas de vida é quase absoluta, apenas pequenos animais presenciam o evento, alguns dos quais são expulsos pelo deslocamento de ar antes de serem esmagados pelas rodas.

Meu nome é... Sou conhecido como Dai-Haime. Não tenho o hábito de fazer diários mas é que essa estrada... Tem algo estranho. Traz uma inspiração. É como se cada viajante que passasse por aqui ficasse tentado a deixar algum monólogo gravado.
Hoje é o dia 165 do ano padrão de 687, mas como gosto muito de coisas antigas, estamos também no 3947 da Era Comum. E agora? O que digo? Não sou familiarizado com diários ou...
Ah! Estou me aproximando do deserto de KOLNEIA, aceitei um serviço que não faço há algum tempo, resgate de prisioneiros. Acho que é isso. Mesmo estando fora desse tipo de prática há alguns anos tenho um extenso currículo, qualquer um que puxar minha ficha perceberá que poucas pessoas no mundo rivalizam comigo em termos de eficiência naquilo que faço, que vai desde demonstrações espetaculares de Metanaturalidade até missões de combate, passando pelo que estou indo fazer agora.
Droga! Mais um pássaro esmagado pelo escudo de proteção do meu carro! Não me oferece perigo mas alguns protetores de animais podem implicar comigo. Quando se anda a 150 m/s sobre rodas é preciso estar preparado para esse tipo de inconveniente.
Eu não sei por que aceitei esse trabalho, talvez por insistência do Edikar que me não parou de me encher a paciência até eu dizer "Aceito". Mas o problema é que meus clientes são uma pequena comunidade religiosa formada por uns tais "Sentinelas do Grande Dia", um bando de fanáticos religiosos que se não me engano tem uma crença superada há uns mil anos. É incrível como ainda alguém pode esperar o fim do mundo. Eu detesto essa gente!
Nem sei por que o Edikar insistiu tanto, quando eles me virem, gostaria que não acontecesse, não duvido nada que vão me tomar por partidário daquele deus do mal deles... Sei lá qual é. Alguma variação de Shaitan. Afinal só ando de preto e se não me engano eles são daqueles panacas que só podem se vestir de branco representado a "pureza do bem".
Provavelmente vão implicar também com o meu carro, e nisso eu até entendo. Tive um bom trabalho para deixá-lo com um visual bastante assustador. Passei dias pesquisando arquivos antigos de carros do final do século XX da era Comum, para conseguir essa espetacular aparência de carro esporte com blauer, um tipo de captador de ar que se destaca na frente e no meio do capô, que no meu caso é o gerador do meu escudo frontal. O desenho dos faróis é uma especialidade minha, são dois olhos finos e alongados, um típico olhar maligno, brilhante e assustador.
Se você acha exagero um gerador de escudo destacado saiba primeiro que meu veículo usa rodas, nada de flutuadores, o que nessas ótimas estradas as vezes a gente nem percebe. Pudera, tem robôs operários ZENITRONs trabalhando o tempo todo, até demais, acabei atropelando um deles na semana passada. O pior de tudo é não ter ninguém com que se desculpar, eu queria ressarcir o prejuízo, mas o sistema é totalmente automático e não há sequer simulação de personalidade. Só fiquei aliviado quando vi o mesmo robô perfeitamente consertado no dia seguinte.
Essa tecnologia ZENITRON é demais! Meu próximo carro vai ter disso.
Quem gosta desse tipo de veículo em áreas como essa, onde volta e meia aparece um pássaro, tem que ter um escudo dos bons. Mas...
Droga! Estou fugindo do assunto. Bem.
Mas talvez o motivo mesmo de eu aceitar esse serviço é que, realmente estou curioso. Segundo o Edikar um bando de motoqueiras malucas, dessas garotas supermetabolizadas, aprontou a maior confusão em algumas cidades e raptaram uns garotos. IONES eu acho.
Essa é a parte trágica. Qualquer moleque normal provavelmente iria até curtir a situação, desde que tenha preparo físico pois esses garotas costumam ser insaciáveis. Mas com o monte de lixo que aquelas religiões imbecis conseguem enfiar na cabeça dos outros nada duvido que esses garotos devem estar passando maus bocados, morrendo de medo da punição divina só porque as moças querem brincar um pouquinho.
Mas dane-se, o fato é que estão pagando muito bem. Muito Bem Mesmo! Sinceramente esse pessoal deve estar desesperado ou então não têm o que fazer com riqueza.
Bem. Pela manhã devo chegar ao ponto de encontro e espero que no máximo daqui a dois dias já esteja na cola das motoqueiras malucas.
Espero que não tenha do que me arrepender.
Marcus Valerio XR
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Em escuridão total, num espaço pequeno e abafado, dois garotos dialogam.

- Ei! Paramos!
- Shh... Fale baixo.
- Acho que chegamos a algum lugar.
- O que vai acontecer agora... Ah não... O que elas vão fazer com a gente?!
- Ah! Para com isso! Fica calmo. Elas não vão nos machucar.
- Ma-Machucar!!! Você tá preocupado com isso?!
- Shhh. Agora você que está gritando.
- Você acha que eu tô preocupado se elas vão me machucar?
- Ué! Nós não somos invulneráveis. Regeneramos mais rápido mas...
- Elas vão nos sujar! Vão nos forçar a derramar nossa preciosa energia...
- Ah! Ai mas que droga! Por que é que elas tinham que me trancar com você.
- O... O quê?! Você fala como se não fosse nada!
- ... Cara. Você realmente acredita nisso?
- ...N-Não... Não pode ser! Você não crê nas palavras dos Sentinelas!? Você é... É um herege! É um Blasfemo! É um....
- Shhh. Fala baixo. A dona saiu da moto. Deu pra sentir?
- ...Sen-Sentinela... Perdoe esse descrente... Por favor...
- Tá. Calma. Não é que eu não acredite. Eu acredito. Mas acho que os Patriarcas exageram um pouco. Não é possível... Quer dizer, não faz sentido que nós sejamos punidos se elas nos obrigarem a...
- !!! Você ouviu! Que foi isso!?
- ?!? Não sei. Mas não tô ouvindo mais elas. Acho que se afastaram. De repente acho que se a gente conseguisse sair daqui podíamos fugir.
- Mas e nosso amigos?
- É tem razão. Não podemos deixá-los. Mas se a gente conseguir abrir isso aqui por dentro deve ser mais fácil abrir por fora.
- E se eles não estiverem perto? E como vamos saber em que moto eles estão?
- Fácil. Se todas as motos estiverem vazias e flutuando, e só olhar a que estiver com os discos girando mais rápido. Sinal de que está com mais peso. Vamos. Me ajuda aqui.

Em outra escuridão total, num outro espaço pequeno e abafado, dois outros garotos dialogam. Mas aqui há uma luz. Um deles tem um pequeno anel luminoso.

- Sabe o que eu acho? Que essas donas que pegaram a gente tão... Tão...
- Tão o quê?
- Tão desobedecendo a líder. A tal da Alice.
- Porque você acha?
- Viu que ela mandou deixar a gente na estrada?
- É mas depois deve ter mudado de idéia. Por que aquelas duas voltaram para pegar a gente.
- ...Eu acho que a líder não mudou de idéia. Aquelas duas vieram sem ela saber. Por isso nos colocaram nesses depósitos de carga. Pra nos esconder.
- Que diferença isso faz? Droga. Logo agora que eu estava tão avançado em poder de cura. Semana passada praticamente ressuscitei um viajante. E ele ficou ótimo!
- Sim. Mas o que isso tem haver?
- O que tem haver?! Você sabe o que elas vão fazer com a gente?!
- Shh. Fale baixo.
- Elas vão nos sugar! Vão tirar nossa energia vital com...
- Com o quê?
- Com Sexo!
- ?!? É sério!?
- Ei! Isso não é brincadeira. Vamos parar no Tártaro por causa disso.
- Por quê?
- Porquê!?! Você nunca leu nada... Os patriarcas não te disseram...
- Meu pai não gosta dos patriarcas.
- Ah não... Eu não acredito que estou aqui trancado com um descrente.
- Pô cara... Elas são bonitas.
- !!! Ai... Sentinelas! Perdoem-me por ouvir essas coisas.
- O que foi?
- Elas são agentes de... De...
- De o quê? O quê?! Fale?!
- De XAIT! Oh... Perdão Sentinelas, por pronunciar tão hediondo nome.
- Essas moças? Tão bonitas? Agentes de XAIT?
- Shhh. Não repita esse nome!!!
- Ei! Você pode gritar e eu não?!
- Ouviu?!
- O quê?!
- !!! Ah não. Ela voltou.
- Estamos nos movendo de novo. Em outra direção.
- Como será que estão os outros?
Marcus Valerio XR
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O Sol se põe no horizonte... Na verdade o Sol não sai do Horizonte por 6 meses seguidos nessa região do planeta. No meio do deserto arenoso, entrecortado por infindáveis retas de revestimento sintético liso, uma pequenina cidade de destaca. As casas parecem tendas, embora possuam armações fortes. Umas 60 ao todo, interligadas por alguns túneis. Em volta há pequenos mas produtivos jardins e bem ao centro, uma construção que por mais estranha que pareça sempre lembrará um templo.

As pacatas pessoas, vestindo roupas túnicas brancas pareciam temerosas. Havia um nervosismo geral, uma expectativa de que algo ruim estava para acontecer. Mas mesmo assim não estavam preparadas para a cena que se seguiria.
Desde onde os olhos pudessem alcançar avistaram algo surgir na estrada. No início uma luz, segundos depois duas luzes, mais alguns segundos um diabólico par de olhos amarelos. Menos de 10 segundos depois o barulho do deslocamento de ar já assustava os incautos aldeões, e subitamente o veículo parou.
As crianças todas se esconderam, também a maioria das mulheres. Só ficaram alguns homens, os mais idosos. Os Patriarcas.
O veículo era preto. A maioria das pessoas dessa época não seria capaz de reconhecer as linhas "clássicas" do carro. Ele lembraria um velho Trans-Am do século XX, mas os faróis a frente foram redesenhados para assumir a forma de um "L"afilado como um bumerangue, com as pontas inferiores voltadas para dentro. O resultado era um olhar maligno. Havia inscrições em um antigo idioma, duas pequenas palavras usando letras do antigo alfabeto. A maioria das pessoas ali não conseguiria sequer desconfiar da pronúncia, e muito menos do significado do termo "Dark Force".
Então a porta se abriu, recolhendo-se para a parte de trás da carroceria. Uma nuvem densa de fumaça de gelo seco escapou para fora ocultando o desembarque do passageiro. Quando a fumaça se dispersou a porta do veículo já estava fechada, e a sinistra figura estava de pé, olhando para seus clientes. Uma capa sobretudo quase arrastava no chão. Botas arrojadas e luvas com ornamentos de metal. A voz saiu tenebrosa como a de um demônio, embora não exatamente grave. Arrepiou os Patriarcas.
- Bom dia Senhores. Eu sou Dai-Haime. Quem me convocou?!
Seguiu-se um desajeitado silêncio. Usando além da túnica, um chapéu que lembraria o dos velhos Quakers, um senhor idoso se aproximou cuidadosamente do visitante. E após gaguejar em silêncio, conseguiu se controlar.
- Eu sou o Patriarca Mor desta comunidade, investido pelos Sentinelas a espera do Grande Dia. O Senhor Edikar já nos alertou sobre você. Aqui está a primeira parte do pagamento.
O senhor estendeu as mãos oferecendo uma pequena caixa, evitando olhar no rosto do forasteiro. Na realidade não havia um rosto para ser olhado. Havia uma espécie de nuvem negra esfumaçando a face do indivíduo, de modo que só se notava um par de olhos amarelos brilhantes.
Dai-Haime mal abriu a mão e o anfitrião deixou a pequena mas pesada caixa cair. Quase escapuliu. Ele detestaria ter que usar telecinésia para pegar o pagamento do chão, uma vez que se abaixar estava fora de questão. O aldeões ficariam ainda mais apavorados com a demonstração de metanaturalidade.
Ele abriu a caixa, quase não acreditava no que via. Eram 3 placas de metal. Duas de Urânio puro, uma de Nióbio, e mais uma pequena medalha de Detranium. "Uau! Detranium!" Ele pensou.
O ancião então mostrou um visor eletrônico e uma imagem tridimensional surgiu mostrando a segunda parte do pagamento, que seria entregue ao término do trabalho. Eram mais duas medalhas, um pouco maiores, de Detranium. Depois a imagem mudou para um pequeno mapa local, indicando a rota onde as motoqueiras haviam passado. O computador do carro logo captou e registrou as informações.
Dai-Haime não precisava de mais nada, fez apenas um sinal de concordância e disse. - Me dêem 48 horas. - E saiu rumo a seu veículo virando-se para o carro e em suas costas aos anciãos puderam ver um pentagrama, estrela de 5 pontas, verde brilhante e que girava. Ao longe avistou, escondidas, duas crianças, um menino e uma menina, olhando fixamente para ele. Quando perceberam que ele as vira entraram em pânico e saíram correndo gritando algo incompreensível. Entraram numa tenda e começaram a rezar enquanto uma comoção se espalhou pela cidade, perceptível pelas vozes que se fizeram ouvir.
Ele podia jurar que captava pensamentos do tipo. "Vá embora logo demônio." E nem sabia por que mas estava muito irritado com isso.
A porta do seu carro, o Dark Force, se abriu. Novamente a fumaça impediu que se visse ele adentrar o veículo. O carro arrancou instantaneamente deixando um vácuo que quase derrubou alguns dos Patriarcas. Em segundos já sumira de vista.
O líder dos aldeões seguiu correndo para uma das tendas. Lá dentro parou a frente de um visor e se comunicou com alguém. Alguém cujo rosto não aparecia, ao invés disso, apenas uns padrões luminosos.
- Já está tudo acertado?!- Disse a voz no visor.
- S-Sim... Senhor... O... O agente das trevas já partiu ao encalço das criminosas. No máximo em dois dias nossos rapazes estarão de volta.
- Dois dias! Não disponho de todo esse tempo! - A voz se tornou ameaçadora.
- Sim... Eu sei senhor mas... Nada podemos fazer. Nossa situação é desesperadora! Eu jamais pensei que um dia fosse contratar um tipo como esse tal...
- Não me interessa. Se aquele curandeiro não estiver aqui no prazo serei obrigado a cumprir minha última ameaça! E acredite! Eu prefiro não fazer isso.
- Sim senhor. Tenho certeza disso senhor. Mas rezemos aos Sentinelas para que...
- Não me inte... Ah!!! Está bem. Aguardarei sua próxima comunicação.
E abruptamente a comunicação se encerrou. O ancião respirou fundo e depois saiu correndo rumo ao templo. Se ajoelhou e começou a rezar pedindo perdão a seu deus e seus representantes. As Sentinelas.
Ele "sabia" que o dia do Juízo Final estava próximo.
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Parte 2

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