Este conto relata acontecimentos posteriores aos do Livro Virtual
RAIO-Y, cuja leitura prévia é altamente recomendável.

Na Mãe-Terra, o Sol aparenta ser branco quando está a pino, amarelando cada vez mais quanto mais se aproxima do horizonte, até atingir um intenso vermelho. Mas o planeta ORIZON-5 é iluminado por um gigante vermelho, e ocasionalmente por uma anã branca, o que não era o caso naquele momento. Assim, quando a pino, o Sol é amarelado, emprestando tons dourados à tudo o que iluminar, e de um vermelho intenso já quando a meio caminho do horizonte. Ao se por, sua radiância escarlate é tão pura que por vezes se torna difícil visualizá-lo, num curioso fenômeno que parece forçar a visão da pessoas para um limiar ligeiramente infravermelho.

Era sob um céu púrpura, graças a reflexão espectral de nuvens de média altitude, que se aproximava uma pequena aeronave, que lembraria um de nossos carros, embora sem rodas, e flutuava com delicadeza rumo a uma colina à beira mar. Na verdade, a colina terminava numa escarpa, de uns 50m de altura, que mergulhava direto no mar ácido. Geografia que, por sinal, era comum em ORIZON-5, onde praias eram raras e pouco recomendadas.

O veículo pousou em um dos pequenos portos de um estacionamento que permitiria ao menos uma dezena, e um homem de barbas brancas, que manifestava surpresa, se aproximou para receber o visitante. Quando a porta da aeronave se abriu, e o único passageiro desceu, o anfitrião fez questão de frisar a surpresa. - Mas... Porque não veio voando?!

- Não vim? - Respondeu o recém chegado em tom irônico. Os olhos cobertos por uma viseira negra que, ainda assim, não impedia que se notasse o brilho de seus olhos.

- Você sabe o que eu quis dizer! - Reclamou o "velho", ainda que num tom amistoso. "Velho" porque tinha, de fato, mais que o dobro da idade de seu visitante, e porque usava um visual austero. No entanto, ainda conservava boa disposição física, e ainda melhor disposição mental.

Haneander, o visitante, sorriu e respondeu. - Não quero chamar atenção. Faz tempo que não saio e toda vez que o faço esquadrilhas de câmeras voam atrás de mim. E não é só da mídia que estou fugindo!

- Aahh... Então nossos "responsáveis" não sabem que vamos ter uma conversa? - Ekzar, o anfitrião, expressava pouco caso no termo "responsáveis", e após cumprimentar seus visitante, o convidou a descerem uma pequena estrada, rumo a uma aconchegante, embora estranha para quem não estivesse acostumado àquela arquitetura, casa onde vivia um dos mais antigos responsáveis pelo projeto que outrora construíra os 4 hipermetas foto silicônicos que outrora protegiam ORIZON-5. 'Outrora'! Visto que não restara mais ameaça que não pudesse ser resolvida facilmente pela Defesa Planetária comum, e porque afinal, Hane era o único dos RYs que ainda estava no planeta.

- Os rapazes tiveram alguma notícia do Luri? - Perguntou o cientista e filósofo, embora sem nenhuma esperança de resposta positiva.

- Nada relevante. Eles estão chegando discretamente em SIRENIA menor, e já examinaram cada detalhe de registro na Infosfera. Há vários relatos de avistamentos estranhos, a maioria fantasiosos, mas nada que realmente nos interesse.

- Os rapazes já estão chegando lá?! Quanto tempo faz que foram embora?

- Cinco anos e meio! - Respondeu um surpreso Hane. - Como pode se esquecer? Não se falou em outra coisa nesse planeta por uns 3 anos seguidos, e no último aniversário estavam tão ávidos por notícias que quase me convenceram a comparecer num evento ao vivo!

- É? E me diz uma coisa Hane... Onde está escrito que eu tenho que assistir essas porcarias?

- Ah... Desculpe. Mas quando se recebe essas porcarias direto na cabeça, é fácil esquecer que vocês tem essa opção! Pobre Luri! Deve receber isso tudo até hoje! Onde quer que esteja.

- Os rapazes não deviam ter tanta pressa. Se Luri não quiser ser alcançado, não adianta correr!

- Doni acha que tem que alcançá-lo. A qualquer custo. Sente-se culpado por ter sido tão duro com ele.

Finalmente entraram na casa, mas cruzaram a sala, toda decorada com arte retrô, e chegaram num simpático jardim interno, onde se via, muito ao longe, a imensa Primeira Cidade de ORIZON-5. Um civilização que contrastava a mais prolongada era de paz de sua existência com uma curiosa decadência psicossocial. Especialistas diziam que a partida de Seki e Doni tivera um impacto que a partida de Luri jamais poderia ter tido, e como Hane continuava pouco sociável, toda a badalação com os super-heróis de ORIZON se perdera, mergulhando boa parte da população num tipo de melancolia perpétua.

- Muito bem meu rapaz... - Disse um simpático Ekzar. - O que temos para conversar que ninguém mais pode saber?

- Alguns já sabem... Tenho reunido alguns bons e leais físicos. A maioria jovens, ansiosos por trabalhar. E alguns da velha guarda, daqueles que ainda levam ciência a sério. - O RY provocara seu amigo e outrora professor, que deixara de ser cientista e se dedicava a filosofia. - E eu não levo? Ao menos nunca ri dela.

- Bem... Eu, nós, temos um projeto. Um grande projeto! E antes de apresentá-lo ao governo, tenho que tê-lo total e completamente definido, me preparando para toda resistência que sei que vou enfrentar.

- Ora ora... E o que poderia ser? Vou dar um chute às cegas... Você quer criar um outro RY?

- Ah! Não sabia que filosofia garantia dons divinatórios! Só errou num pequeno detalhe. Pretendo criar uma menina.

A expressão e o suspiro de Ekzar foram suficientes para confessar a surpresa. Já haviam falado disso antes, ele sabia o que seu ex-aluno vinha planejando há tanto tempo, mas só então entendia por que ele vinha sendo tão discreto com o assunto. - Uau! Uma menina... Quer dizer... Uma mulher! Finalmente decidiu fazer uma companheira à sua altura! - O comentário embutia a piada de sempre frisar que as esposas de Hane eram todas bem maiores que ele.

- Deixa de besteira! Não sou pedófilo! Não vou desposar uma mulher que vi nascer e crescer! Se ela vier a ter crianças minhas vai ser por inseminação artificial!

- Tá. E juro que vou falar mais sério daqui a pouco. Mas bem que você poderia aproveitar para dar um fora nessas suas esposas! Já perdi a conta! São quantas? Sete? E todas elas folgadas, consumistas e incrivelmente chatas! Mas a culpa é sua! Tem milhões de mulheres inteligentes e decentes por aí, mas você...

- São só 5! Jenika foi embora mês passado. Ah... Como sou grato!

- Até que enfim fez algo de bom! Pena que não vai demorar muito para você por mais duas no..

- VOLTANDO AO QUE INTERESSA... - Interrompeu o RY.

- Voltando ao que interessa... Eu até disfarcei bem, mas agora tenho que dizer... CRIANÇAS!?!? VOCÊ QUER CRIAR UMA RY FÉRTIL!?!? Qual é mesmo aquele texto sobre psicoterapia para hipermetas?

- É a melhor opção Ekzar! Não temos tantos planetas jovianos para gastar com uma outra geração de RYs!

O professor se deteve, ponderando. - Você acha que é realmente necessário? Quer dizer... Acha que precisamos mesmo de outra equipe? Só mais uma já não seria suficiente?

- Não são os Ians!

O filósofo fez uma pausa dramática. - As seilans? - No que Hane apenas confirmou com a cabeça. - Mais um motivo para ser uma mulher.

- Não sei meu rapaz... Elas ainda estão a 40 mil anos-luz daqui, não tem nenhum portal entre nós e de qualquer modo, teríamos que dar a essa futura RY uma poderosa defesa telepática. Não temos conhecimento de como fazer isso!

- Então temos duas más notícias, essa última que você falou, e isso! - Então Hane estendeu a palma da mão e mostrou um gráfico da Galáxia. a última análise do Departamento Avançado de Segurança Planetária, que analisava possíveis e longínquas ameaças, mostrava os territórios seilans se expandindo a uma proporção espantosa, e ainda que mesmo as piores projeções não sugerissem qualquer perigo relevante em menos de 300 anos, era prudente, e comum, fazer projeções bastante adiantadas.

- As seilans produzem hipermetas mais rápido do que nós fabricamos hipernaves Ekzar! Se não começarmos a nos precaver agora, ninguém sabe o que será das gerações futuras!

- Entendo. Bem. Ainda acho que você exagera. Parece falta do que fazer! Mas se quer mesmo seguir adiante com isso, e veio pedir o meu conselho, tenho antes que te contar uma história.

- Vim aqui pedir ajuda profissional de um físico, não ouvir estórias do vovô!

- É uma história cujo vazamento certamente me colocaria na penitenciária se chegar ao conhecimento do governo. Embora, a essa altura, não sei se eu me importo. Não com essas penitenciárias cada vez mais luxuosas que estão inventando. - Reprimiu uma gargalhada.

- Como é?

- Uma história que... Penso, provavelmente já tem prontas as respostas para as questões técnicas e psicológicas que devem estar te atormentando. E nem pense em fingir que pode saber, pois sei os nomes de todos os que sabem sobre isso, e nenhum deles trabalharia para você. Aliás... Não são muitos.

- E ao invés de me enrolar, você seria capaz de sintetizar numa frase o que poderia ser tal coisa?

- Claro! Na frase: Vocês 4 não foram os primeiros RYs que geramos!

E talvez nunca antes na vida Ekzar se deliciou tanto com o silêncio chocado de Hane.

RY-0

Hane até tentou, mas não conseguiu deixar de levar seu professor a sério. Ele sempre fora brincalhão com ele, mas sabia ser convincente quando queria. Ou tinha enlouquecido, ou estava brincando. Deixou o velho cientista falar após ativar uma série de comandos no sistema informático de sua casa.

- Não adianta procurar nos arquivos de nenhuma rede ou sistema. Nós escondemos tão bem que nem o Luri pôde achar. Aliás, não está em sistemas integrados, está em mídias holográficas rígidas. Como esta aqui. - E então um pequenino robô flutuante adentrou a sala, trazendo um pequenino cartão rígido transparente, com variações espectrais de cores translúcidas num padrão desordenado. Tecnologia antiga, praticamente em desuso.

- Mas, por segurança, não abra essas arquivos aqui. Faça-o do outro lado do planeta, de preferência no espaço, longe! Mas muuuito longe mesmo de qualquer sistema de rastreamento! Bem... Tivemos que guardar segredo. Não foi uma questão de escolha. Ela por pouco não nos destruiu!

- Quem?! Ela!?

- Nunca lhe demos um nome. Só depois de vocês que passamos a nos referir a ela como RY-0. Não precisamos destruir um planeta para produzi-la porque, diferente de vocês, ela recebeu uma parte de genética Ian pura, o que, aliás, foi o grande problema... Mas suas células já eram naturalmente vivas! Precisamos de muito menos energia para a fusão dos micro moduladores. Um mero choque de dois asteróides totalizando uns 300 milhões de toneladas foi suficiente. O Raio-Y só precisou ser usado depois da fusão primária que criou o zigoto. Quando começou a divisão celular, tivemos a primeira surpresa, suas células não seguiam nosso planejamento, ela crescia disforme, com má formação, mas algumas intervenções corrigiram problema. Na verdade, nem esperávamos um resultado tão rápido logo na primeira tentativa. Queríamos fazer um fêmea exatamente para que se reproduzisse, mas muito antes que pudéssemos pensar nisso, ela atingiu a maturidade e os problemas de verdade começaram.

- Porque vocês usaram material genético Ian?

- Sim! Os Ians nos enganaram! Foi isso que causou um rompimento definitivo e praticamente acabou com o Projeto Diplos de intercâmbio! Eles haviam concordado em criar um intermediário entre nossas duas espécies, mas espertamente não nos avisaram que a divisão celular acelerada faria a genética Ian predominar sobre a nossa matriz genética silicônica. Ou seja, ela puxou a mãe! A parte Ian!

- E ela se uniu a eles?

- Ha! Antes tivesse se unido. Quer dizer, no começo, achamos que sim, mas logo entrou em conflito com eles e causou um estrago enorme. E eles nos acusaram de termos tentado enganá-los! Mas não faz sentido, porque havíamos acertado proporções genéticas equivalentes, e a nossa manteve a taxa prevista de reprodução, a deles, ficou 3 vezes mais rápida, e eles alegaram que não podiam prever, mas podiam sim! Depois descobrimos que era a mesma tecnologia que haviam usado nos robôs fotônicos de regeneração rápida com fonte de energia remota, e com certeza eles já dominavam essa técnicas há séculos. Técnica que nós nunca conseguimos reproduzir.

- Como ela era?

- No começo, era bem menos poderosa que vocês, como de fato havíamos planejado. Não queríamos, na primeira tentativa, fazer um ser poderoso demais. No entanto, com a reprodução celular acelerada, os micromoduladores apresentaram o comportamento completamente inesperado de geraram mais de uma cópia, e ela foi ficando imprevisivelmente poderosa. Para se ter uma idéia, havíamos planejado um espectro de aura similar ao seu, mas o aspecto ficou branco!

- Aura branca pura!

- Totalmente pura! Imprevisível! Incontrolável! Ela podia alterar as dimensões do próprio corpo. As vezes era enorme, umas 3 vezes maior que qualquer um de nós, as vezes, encolhia, e sua aparência também variava!

- Ela parecia uma mulher?

- Mais ou menos. Tinha formas femininas reconhecíveis, mas distorcidas... As pernas eram maleáveis, como uma cauda, provavelmente porque ela só vivia no espaço. Ela podia andar sobre gravidade forte, e solidificava as pernas, mas normalmente não precisava. Parecia uma lâmia, uma sereia, sei lá! O rosto também aparentava ser... Parecia uma anatomia cinzenta! Os olhos cresceram demais, normalmente não tinha cabelos. Podia assumir uma aparência mais humana se quisesse, mas normalmente não fazia a menor questão.

- E depois de atacar os Ians?

- Ela veio até nós, dizendo que queria se reproduzir, e isso tudo aconteceu em menos de um ano! No espaço profundo, longe de ORIZON-5. E então, quando dissemos que precisávamos que ela assumisse compromissos, que tinha que colaborar, ela ficou furiosa, inexplicavelmente furiosa! Não parecia entender o que queríamos, e talvez nem pudesse, visto que não teve tempo de amadurecer, se desenvolveu rápido demais! Ela decidiu rumar para cá, onde achava que devia haver outros como ela, dissemos que era impossível, primeiro porque ela era radioativa. Muito radioativa! E segundo porque não tinha a menor condição de interagir diretamente com outras pessoas. Não tinha a menor consideração com a fragilidade humana, além do mais, era vulnerável a oxigênio! Teria se intoxicado!

- Mas ela veio?

- Não porque não deixamos. A um custo muito alto. Ela nos ignorou e partiu rumo a ORIZON-5, mas a interceptamos e impedimos seu progresso. Ela voltou para os Ians, nos dizendo que se uniria a eles para nos destruir, e tivemos que apelar para um golpe verdadeiramente baixo. Lançamos naves sutis para segui-la e quando ela se aproximou da primeira frota Ian, sinalizando uma aliança, nós embaralhamos as transmissões e atacamos a frota, dando a entender que ela tentou enganá-los. Não tivemos escolha! Se ele tivesse se aliado a eles, seria questão de tempo para aprender a se reproduzir com a matriz genética deles, e aí seriam eles que teriam uma equipe RY. Teríamos sido exterminados!

- Deu certo? O golpe baixo?

- Sim, porque ela nunca mais conseguiu se aproximar deles. Tentamos entrar num acordo com ela novamente, mas ela foi inflexível. Então descobrimos que era porque estava morrendo. Entrou em degeneração numa taxa tão rápida quanto a que teve ao se desenvolver. Oferecemos ajuda, mas ela acabou nos deixando num impasse. Se não lhe déssemos uma hipernave, para que fosse embora do sistema ORIZON, ela disse que nos atacaria até o fim. Concordamos, e ela de fato foi embora. Não nos preocupamos porque, como disse, naquela taxa de degeneração, ela não pode ter vivido muito tempo.

- Como não? Ela não podia se cristalizar?

- Sim. Mas quando despertasse a degeneração voltaria a atacar, tão rápida quanto antes. Nenhum de nós acreditava que ela durasse mais de um ano.

- Acreditava? Não acreditam mais?

- Depois que vocês nasceram, compreendemos melhor alguns aspectos de reprodução celular foto silicônica. Alguns passaram a aventar a hipótese de que ela poderia ter ciclos de degeneração e renovação, e que poderia prolongar sua existência por meio de alterações radicais em seu próprio organismo, reconfigurando seu padrão celular, que de fato era muito maleável... Mas, mesmo assim, não acredito que ela poderia ainda esta viva.

- Mas e se ela tiver descoberto um meio de se reproduzir?

- Com quem? Só se houvesse Ians para onde ela foi, mas rastreamos sua viagem até perdê-la no espaço profundo, mais de 20 anos-luz rumo ao vazio. Nenhum sinal de vida por lá. Não podemos descartar a possibilidade, mas... É bastante improvável.

- Ah... A não ser que ela tenha encontrado o Luri! Ou pior, Seki ou Doni!

- Mesmo que encontre... Eles não estão preparados para reproduzir. Nem você. Teremos que fazer algumas intervenções radicais para tornar isso possível.

- Então... É possível?

- Bem... Vamos às boas notícias.

Hane e Ekzar caminharam para uma área externa, e apreciaram um pouco a noite que caía. Numa súbita mudança de comportamento, o RY fitava o horizonte, e confessou. - Você tem razão... Sobre minhas esposas... A culpa é minha. Tenho um fraco por este perfil feminino fútil. Mesmo quando elas querem ser diferentes, eu acabo sabotando qualquer iniciativa.

- Você as acostuma mal?

- É... Eu as corrompo! No fundo me excito com aquelas brigas delas.

- Talvez as seilans dessem um jeito em você.

- É serio Ekzar! Se elas chegarem aqui, nos escravizam! Se não tivermos defesas...

- É evidente que o primeiro passo é usar um espectro de aura verde puro, igual ao do Seki. E o sexo feminino não será problema. Pouco depois de fazermos vocês, descobrimos os valores corretos para equilibrar o Raio-Y. Estou certo de que a possibilidade de acerto é de mais de 95%. O problema todo é fazê-la fértil sem incorrer nos mesmos problemas potenciais da RY-0. Essa... RY-5 terá que capaz de controlar voluntariamente sua capacidade de fecundação, não faz sentido nos submetermos à aleatoriedade do processo humano normal. E por outro lado não podemos também simplesmente elevar a fertilidade porque aumentaria os riscos de uma mutação partenogênica auto clonável, que poderia ser induzido por um desejo, mesmo inconsciente, de se reproduzir, visto o grau de manipulação mentônico somática possível nesse nível de metanaturalidade.

- Partenogênese?! Isso seria possível?!

- Na verdade, na RY-0 era possível, mas a instabilidade natural de sua genética não permitiria uma gestação viável. Ela precisaria de outra matriz genética de equilíbrio. Havíamos previsto isso, e mesmo a manobra dos Ians não conseguiu superar essa limitação. Na verdade, há quem ache que esse era o principal motivo de sua degeneração prematura, um esforço constante do organismo em gerar um feto e consequentemente abortá-lo, o que consumia doses cavalares de energia. De qualquer modo, é uma possibilidade que tem que ser evitada. Se ela se descontrolar, poderá gerar clones de si própria incessantemente, ou, pior, se ela escapar de nosso controle...

- Entendo... Também teremos que consumir outro planeta, ou você tem idéia melhor?

- Teremos. Não me atreveria a usar uma técnica similar à da RY-0. Podemos usar ORIZON-8. Tem matéria mais que suficiente, e teremos energia de sobra para equilibrar a fusão mentônica. Mas o problema da fertilidade continua, e eu não sei como resolvê-lo. Teremos que consultar especialistas da área.

- E eu já sei quem.

DISTROIA

Cerca de 5 anos após Hane tomar conhecimento da RY-0, a RY-5 ganhava vida. A consumação de ORIZON-8, por meio de um bombardeio de bombas de fusão correu conforme o previsto, mas como o planeta era bem menor que o que dera origem aos 4 RYs anteriores, teve que sofrer um processo de compactação prévio por meio de bombas de concentração gravitacional.

A geneticista que solucionou a maior parte dos problemas relativos à fertilidade ganhou o direito de batizar a menina com uma variação de seu próprio nome, e também foi a primeira, e última, esposa cientista de Haneander. Ekzar, por sua vez, não participou do procedimento, tendo sua participação, na verdade, se limitado à contribuições matemáticas que enviara à distância.

Hane foi taxativo perante o Governo Triunvirato de que não aceitaria qualquer punição ao cientista por ter lhe revelado a existência da RY-0, mas o assunto não só se manteve protegido, tendo se espalhado por no máximo uma dezena de outros cientistas e membros do alto escalão, como ainda foi colocado em dúvida a ponto de fazer o RY desconfiar da própria sanidade de Ekzar. Mais confundia do que explicava, e afinal, não havia evidência alguma, mesmo remota, que corroborasse a estória. O próprio registro que Hane recebera era no mínimo duvidoso, visto que não passava de uma série de anotações e reconstruções do suposto ocorrido por parte de alguns outros cientistas tão ou menos confiáveis. Por fim, para nublar ainda mais a questão, se por um lado a inesperada benevolência do governo sobre o tema parecesse depor contra Ekzar, por outro lado, a insistência no sigilo depunha a favor.

Em contrapartida, o nascimento de Distroia foi amplamente divulgado, tendo sido inclusive transmitido ao vivo para todo o planeta, que fez coro com a contagem regressiva de disparo do Raio-Y, e que também ficou sabendo da verdade a respeito da destruição de ORIZON-9. A perda de mais um planeta joviano nada foi comparado ao ganho de uma RY menina, que reacendeu a esperança e auto estima da população a ponto de provocar um baby boom. ORIZON ultrapassava a marca de 100 milhões de habitantes quando Distroia finalmente engravidou, de gêmeos, por meio de inseminação artificial do conteúdo genético de Hane, que manteve sua promessa de tratá-la sempre como uma filha.

Assim como o fora a maioria de seus predecessores, Distroia também tivera muitos parceiros sexuais humanos até decidir se dedicar exclusivamente à maternidade, e criar XISROIA e BUNEANDER, que rapidamente atingiram a maturidade, ao menos no sentido físico.

Quando ORIZON-5 novamente tinha 4 hipermetas defensores, Seki e Doni, que jamais retornaram, entraram em contato informando ter fortes evidências de que Luri estava morto, aparentemente tendo explodido num deserto do terceiro planeta de SIRENIA menor, o que deixara Haneander, e a psicológica Ange, arrasados.

Especialistas concordam que esse evento foi o estopim de uma série de desentendimentos entre a família RY, cuja instabilidade emocional dos gêmeos, em especial Buneander, levaria a uma escalada de violência que culminaria no pior sofrimento que uma mãe, Distroia, pode experimentar.

Ter que matar seu próprio filho.

Mas essa é outra história

Marcus Valerio XR

10 de Março de 2011
Contos de Ficção
Científica e Fantástica