18 de Janeiro
Em fotografia, as lentes podem ser classificadas segundo sua distância focal, sendo as mais comuns as Teleobjetivas, mais de 100mm por exemplo, podendo chegar a 600mm, permitindo capturar imagens de longa distância mas por isso mesmo com uma abertura angular pequena, "estreita". Ao passo que as grande angulares, abaixo dos 35mm, permitem "distorcer" o campo focal para abranger uma imagem mais ampla. Abaixo de 15mm temos o famoso efeito "olho de peixe".
A lentes medianas, de 35mm a 70mm são mais próximas da visão natural humana. A mais próxima é a 50mm, bastante similar ao amplitude de campo e distância focal de um olho humano. Mas como temos dois olhos na horizontal, a impressão é de um campo maior, mais próximo de 42mm, ou até mais considerando que diferente de uma imagem parada de uma foto, nosso movimentos rápidos dos olhos podem dar uma impressão ainda mais larga.
Por isso, lentes de 35mm são bastante populares para capturar fotos de ambientes internos ou de grandes grupos de pessoas. Embora sejam desaconselháveis quando se quer focar algo mais distante.
Mas... bem, pelo menos parece que nossos olhos NÃO SÃO MAIS na horizontal, porque disseminou-se na internet a HORRÍVEL e estúpida mania de filmar tudo na vertical, mesmo quando se trata de uma filmagem panorâmica abrangendo, por exemplo, um baile de pessoas dançando ao seu redor, ou uma pan de uma praia.
Evidentemente, essa mania preguiçosa deriva da orientação vertical de nossos Smart Phones, e em alguns casos é sim adequada, como por exemplo, fazer a foto de uma pessoa de pé, uma modelo de passarela desfilando ou coisa parecida. Mas na maioria dos casos é de uma burrice incrível, e a internet está inundada de filmagens verticais de coisas que evidentemente exigiam filmagens horizontais, ao passo que filma-se um teto, um céu ou um chão inúteis para o propósito pretendido, tudo isso porque o infeliz tem preguiça de VIRAR O CELULAR!
Se isso já não fosse ruim o suficiente, tem se disseminado a mania de, pra compensar o estreitamento da visão horizontal que fica a abaixo da capacidade de um olho humano, começaram a ampliar o campo focal ajustando as lentes para o equivalente a menos 35mm ou menos até um nível de distorção bizarro, capturando vazios acima ou abaixo e tornando objetos à distância de um toque parecem fora do alcance da vista.
Não tem nada que a MALDITA BURRICE não estrague! As melhores tecnologias, os melhores recursos, as grandes conquistas do incessante trabalho humano, jogadas no lixo por pura estupidez, e/ou preguiça. E aí invés de vermos um lance amplo, tal qual um campo de futebol, abrangendo horizontalmente a jogada, vemos um quadro fechado, não raro distorcido, na vertical, cheio de NADA acima e/ou abaixo.
Se fôssemos ciclópes, menos mal, mas é pior, parece que estamos sofrendo uma mutação deixando nossos olhos alinhados numa nova orientação vertical.
(OBS: Sim! Eu estudei fotografia, inclusive revelação de filmes em preto e branco e tive várias máquinas com lentes diferentes naqueles tempos onde ninguém imaginava que um dia telefones tirariam fotos.)
3 de Janeiro
No Brasil intitulado como "Batem à Porta", em KNOCK AT THE CABIN (2023) M. Night Shyamalan mais uma vez surpreende com um suspense impressionante que desde o começo subverte expectativas. Muitas pessoas podem não se sentir atraídas (eu incluso), ou mesmo ser repelidas, por uma sinopse descuidada, que pode ser resumida na situação onde um grupo de estranhos invade uma cabana numa floresta tomando uma família como refém e exigindo que ela faça uma escolha impossível: sacrificar um dos seus em prol de um suposto salvamento da humanidade.
Mas, desde o primeiro instante, o filme já elimina qualquer traço do que, com praticamente qualquer outro diretor, seria um terror sufocante onde inocentes desesperados são brutalizados por psicopatas. NADA DISSO! Os invasores estão na verdade mais assustados do que os invadidos, o que é nítido desde suas expressões até seus atos, os menos violentos possíveis. Guiados por terríveis visões proféticas que vão sendo realizadas, eles estão totalmente determinados a impedir o Apocalipse por meio de um sacrifício onde é a família que deve escolher a quem de seus próprios sacrificar, pois os invasores em si não podem fazê-lo, e inclusive estão dispostos a se sacrificar ritualmente para convencer a família da seriedade de sua demanda.
Assim, o suspense oscila primeiro do que parecia apenas um grupo de malfeitores intencionando benefícios vis, até fanáticos religiosos que realmente creem no que fazem, passando por outras nuances na qual as vítimas serem um casal homossexual masculino com uma menina adotada não é mera cota de diversidade ou propaganda ideológica, e sim cumpre um papel narrativo enriquecedor, adicionando uma paleta dramática, e uma persistente dúvida, que seria impossível de ser feita de outra forma.
Chama atenção a intepretação de Dave Bautista, que mesmo com seu 1,94m e mais de 100kg de músculo, o ex lutador de MMA, diferente de seus colegas Dwayne Johnson (The Rock) ou John Cena, passa uma doçura e um carisma impressionantes, conseguindo realmente soar inofensivo na maior parte do filme, mesmo abertamente declarando que um dos pais, ou a criança, terão que morrer.
É impossível não se comover com cada um dos personagens, com a possível exceção do de Rupert Grint (o Rony Weasley de Harry Potter), que expõem seus motivos e dramas pessoais para estarem ali, assim como com o papai Eric e o papai Andrew, que evidentemente temem desde o princípio que a invasão tenha motivação homofóbica. Além do fato de serem dois homens jovens, saudáveis e fisicamente capazes, oferecendo uma resistência significativa à invasão.
! Spoilers leves e parciais !
Quanto a algumas falhas do filme, a maior não é exatamente dele próprio, sendo praticamente uma tradição cinematográfica. É que os invasores provam a verdade do que dizem mostrando cenas na TV que atestam catástrofes ocorrendo ao redor do mundo, em sincronismo com o que eles dizem e preveem, mas sempre de forma parcial, ligando o aparelho no momento certo, e desligando justo quando os telejornais parecem estar prestes a esclarecer mais algumas coisas.
De fato, isso causa uma certa irritação em alguns momentos, dando a impressão de ser um recurso pouco perspicaz para manter a dúvida no casal de vítimas, dos quais um tem um raciocínio bem rápido e consegue por em cheque as alegações dos invasores.
Mas eu desafio alguém a me mostrar um único caso de filme onde não se faça a mesma coisa, isto é, ligar a TV e já cair no plantão jornalístico, e desligar precipitadamente quando ainda haveria muito a ser visto. De certo, o filme poderia explorar melhor esse recurso narrativo, e até o faz acima da média, mas concentrar a crítica nisso, como tenho visto ser feito, é da mesma impropriedade quanto criticar Star Wars por gravidade artificial mágica como se isso fosse exclusividade dele, e não praticamente uma regra hollywoodiana.
E o suspense, a dúvida quanto a se estar diante de fenômenos sobrenaturais reais ou apenas um delírio coletivo, até o terço final só é frustrado não pela narrativa em si, mas pelo próprio nome do diretor, que desde o inesquecível O Sexto Sentido (1999) até este, inclusos, lançou 13 filmes dos quais somente dois não contém elementos supra realistas, já enviesando a interpretação do espectador.
! ! Spoilers Maiores sobre outro filme ! !
Enfim, muitíssimo satisfeito com mais essa ótima obra do diretor, que porém me forçou a compará-la com The Cabin In The Woods (2011), cujas similaridades são gritantes, visto que também temos o tema de um sacrifício ritual numa cabana florestal para evitar o fim do mundo, ainda que este último seja muito diferente em inúmeros aspectos.
Fico pensando se o que vemos neste filme de Shyamalan não poderia ser ambientado no mesmo universo do filme no Brasil intitulado de "O Segredo da Cabana", como uma espécie de alternativa dentre os inúmeros níveis de segurança contra falhas.
Mas paro por aqui, já "spoilei" demais.