A Cara, e O "Cara", do BRASIL

E as Caras de Grandes Brasileiros

12 Março de 2013

4.525 caracteres

Se fosse fazer um Monte Rushmore brasileiro, seria em Teresina de Goiás, às margens da Rodovia GO-118 por onde já passei várias vezes e até tirei várias fotos, mas a maioria com filmes químicos ou de celular. E as boas que consegui infelizmente não consegui recuperar. Lá, temos essa interessante formação rochosa abaixo.

Embora a imagem não deixe ver com clareza, essas rochas sempre me sugeriram rostos, e tenho meus eleitos para figurar entronizados em rocha esculpida, parodiando o equivalente norte americano.

O primeiro seria Dom Pedro II. Político hábil que sabia intermediar ânimos e conciliar os interesses da nação com os interesses particulares, evitando conflitos e desenvolvendo o país como nunca antes. O segundo, Getúlio Vargas, que até dispensa comentários, e lamento pelo brasileiro que não souber por que ele mereceria um lugar em tal monumento. Meu terceiro ídolo seria Juscelino Kubitschek. A maioria até hoje não tem idéia da importância que foi o processo de interiorização sem o qual o Brasil poderia estar até hoje centralizado no Sudeste e subdesenvolvido na maior parte de seu território. Aliás, o impacto disso ainda demorará algumas décadas para ser plenamente apreciado.

Na verdade, há espaço para 5 personalidades nas tais rochosas, e é claro que minha seleção é sujeita a discussão e aceita sugestões. E para o quarto lugar, ainda que correndo o risco de me precipitar, elejo um no qual aposto que a história reconhecerá a tremenda importância. Ninguém menos do que Lula.

Só dois tipos de pessoas podem não ser capazes de apreciar a relevância deste ex-presidente para o nosso país. Aqueles que são jovens demais para não saber o que era ter vergonha de ser brasileiro perante o resto do mundo, e aqueles tão corrompidos pelo reacionarismo estúpido que são incapazes sequer de compreender o que significa tirar 50 milhões de pessoas da pobreza e colocar o país no seleto grupo dos grandes atores mundiais.

Todos os meus 4 escolhidos tem muita coisa em comum. O amor incondicional pelo seu país. Amados pela grande maioria da população. Foram hostilizados por elites e vítimas de toda sorte de denúncias. E realmente estiveram envolvidos com atos discutíveis, como simplesmente TODOS os grandes estadistas não podem deixar de estar. E os 3 primeiros também tiveram em comum destinos trágicos, ainda que de formas bem diferentes.

Após a desastrada manobra política da Princesa Isabel enquanto o Imperador estava ausente e doente, que terminou por deflagrar a Proclamação da República, Dom Pedro II, que era brasileiro nato, foi exilado e não teve sequer o direito a um funeral em seu próprio país. Getúlio, mais uma vez, dispensa comentários, e o acidente automobilístico que matou JK até hoje levanta suspeitas de muitos historiadores.

É por tudo isso que bem que seria A Cara do Brasil se Lula fosse enfim julgado e condenado por seu envolvimento com a farsa do mensalão. Não por não ter existido. Mas por ter sido hiperdimensionado pela mídia, sendo usado e abusado da forma mais covarde por segmentos econômicos e políticos com nada a oferecer ao Brasil, apelando ao golpe baixo de denunciar o esquema que eles próprios criaram.

Os mesmos diretamente envolvidos com centenas de criminosos que dilapidaram o patrimônio público para engordar suas contas em Paraísos Fiscais, pagaram com dinheiro da união para seus cúmplices levarem de graça empresas estatais criando milhares de desempregados, e mergulharam o país em crises financeiras criminosas.

Estes permanecem perfeitamente impunes. Mas o líder do governo que levou o país à melhor condição em mais de meio século seria condenado por um judiciário que, surpreendentemente, resolveu mostrar serviço e se tornar incrivelmente rigoroso após deixar escapar ilesos, per meio de detalhes processuais, réus cujos processos estavam abarrotados de provas concretas e testemunhos diretos.

A mídia jamais fez questão de diferenciar a corrupção que apenas enriquece os criminosos sem nenhuma contrapartida, de um esquema sem o qual o país não seria o que é hoje (a começar pela votação da Reforma da Previdência) e que nem sequer enriqueceu os próprios autores. Estranhamente, é esse que por uma incrível ironia do destino foi julgado com dureza draconiana.

O mensalão sempre existiu. Aliás, é regra nas democracias legislativas. Só que em geral o pagamento é feito na forma de agrados como Ministérios, pastas no governo, comando de empresas estatais, verbas municipais e etc. Na sua forma mais crua, a base de dinheiro direto, sai até mais barato para o país. O que é uma mesada de 30 mil mesmo acumulada ao longo de anos, comparado a verbas de milhões para serem engolidas em labirintos burocráticos, licitações bisonhas, ou pior, plenos poderes e apoio para implementar legislações e políticas do interesse de minorias oligárquicas?

E a nível icônico, é totalmente a cara do brasileiro não reconhecer devidamente seus benfeitores, e idolatrar artistas e esportistas por completo irrelevantes. Ou mitificar personagens históricos sem importância real.

Para entrar para história deste país, ao menos como alguém cuja memória seja celebrada, o sofrimento de uma terrível injustiça parece ser obrigatório. E é só por isso que não duvido que O "Cara" corra esse risco.

A poética disso é tão grande que, apesar do horror que seria para o povo, uma parte de mim com gosto pela tragédia chega quase a desejar que acontecesse.

Marcus Valerio XR

12 de Março de 2013


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