Em Solipse
Pedro Galvão

«The best way to know the Milky Way». É desta maneira que a L.E.M. Publications nos anuncia o seu novo título, The Encyclopedia of Milky Way Civilizations, uma obra em dois gigabytes amplamente ilustrada e convenientemente complementada com uma documentação abundante. Esta enciclopédia é dirigida pelo cosmólogo Kurt Strawson, que contou com a colaboração de algumas dezenas de especialistas das mais diversas áreas científicas. A L.E.M. salienta que muitos deles participaram em viagens inter-estrelares, e que por esse motivo são testemunhas directas do contacto com outras civilizações da nossa galáxia.

Na sua promoção publicitária, a L.E.M. Publications enviou-nos uma entrada da sua nova enciclopédia. Trata-se de um documento sobre a civilização de Solipse, seleccionado aleatoriamente a partir da totalidade da obra. Omitindo as imagens por motivos técnicos, temos o prazer de reproduzir aqui esse documento, e avisamos os nossos leitores que quem enviar o pedido de aquisição desta enciclopédia até a Dezembro de 2185 terá 10% de desconto.

SOLIPSE é o segundo dos seis planetas que se integram no sistema planetário de Hertz. A atribuição destes dois nomes não foi arbitrária, nem obedeceu prioritariamente a critérios estéticos. Como veremos, a escolha do nome de Hertz verificou-se em função de um dos traços fundamentais da biosfera de Solipse, o único planeta vivo de todo este sistema. E quanto a «Solipse»? Tal como «Hertz», a atribuição deste nome em substituição do número de catálogo é bastante recente, e seguiu-se às descobertas insólitas realizadas pelos elementos da Apocalipse 1, que vieram a traduzir-se numa revisão radical dos fundamentos das ciências astroculturais (ver ASCUL/TEO/12).

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Comecemos pelo princípio. A presença humana no sistema planetário de Hertz iniciou-se logo na década inaugural das viagens inter-estrelares. As sondas terrestres indicaram a existência de vida civilizada em Solipse, mas esta informação não provocou um entusiasmo assinalável nem nos nossos investigadores, nem nos que dirigiam politicamente o Programa de Exploração Galáctica. A ideia de uma viagem tripulada não se colocou nem como uma possibilidade remota. Hoje, depois de tudo o que sabemos sobre Solipse, este comportamento pode parecer-nos incompreensível, mas a este respeito importa não esquecer a conjuntura em que decorreu o começo da exploração galáctica. A primeira geração de sondas inter-estrelares acabava de nos indicar a localização de um número muito elevado de planetas com actividade biológica e, entre esses planetas, a frequência de vida civilizada também se mostrava surpreendentemente significativa. Nestas condições, aqueles que projectaram as viagens inter-estrelares tiveram que se regular por critérios extremamente selectivos, e sob esses critérios Solipse estava longe de nos surgir como um destino prioritário. A civilização solipsana parecia «vulgar» à luz da informação recebida. Nessa «vulgaridade» destacava-se o facto de o seu desenvolvimento tecnológico corresponder apenas ao da nossa era pré-industrial. Foi esse facto que contribuiu em grande medida para que o sistema de Hertz não suscitasse uma atenção imediata porque, desde o primeiro momento, o interesse dos políticos e dos cientistas convergira para a pesquisa de civilizações com um grau elevado de sofisticação tecnológica.

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Sobre as características geológicas e geográficas de Solipse, não há nada de extraordinário que possamos referir (remetemos os leitores interessados em detalhes técnicos para SOLIP/BIO/1, SOLIP/GEO e HERTZ/MAP). Apuraram-se essas características com toda a facilidade através dos métodos habituais: a datação isotópica permitiu-nos situar o nascimento de Solipse há quatro mil milhões de anos terrestres atrás e, dadas as condições iniciais, desde aí tudo se processou do modo mais previsível. Surgiu uma atmosfera, formaram-se vastos oceanos de água, a atmosfera original foi enriquecida com oxigénio pela actividade das primeiras formas de vida, tudo segundo os padrões químicos normais para os planetas biogenéticos. Se perspectivarmos Solipse com a intenção de obter um contraste comparativo com a Terra, só dois aspectos merecem ser aqui mencionados: a dimensão e gravidade consideravelmente superiores de Solipse, e as diferenças na distribuição da superfície sólida sobre a superfície total. Em relação ao primeiro aspecto, devemos acrescentar que a gravidade de Solipse resultou, ao nível da morfologia biológica, num cenário dominado por espécies «animais» de pequena ou média dimensão que se apresentam quase invariavelmente em forma de disco. Domina assim uma certa monotonia morfológica, onde as semelhanças externas escondem frequentemente diferenças internas profundas. Não deixa de ser interessante constatar que entre muitas das espécies mais primitivas e os solipsanos inteligentes se registe uma semelhança impressionante nos atributos exteriores. Nas espécies «vegetais» de Solipse também é nítido o efeito da gravidade: embora possam fixar-se no solo atingindo profundidades consideráveis, à superfície encontram-se quase sempre condenadas a permanecer na condição de tapetes de musgo. Vemos assim que a biosfera solipsana evoluiu, nas suas linhas fundamentais, segundo a divisão frequente entre espécies «animais» e «vegetais» -- as aspas justificam-se pela polémica taxonómica descrita em ASTRO/TAX/32 --, mas toda esta evolução processou-se fora dos oceanos, onde as condições parecem não ter sido propícias para o desenvolvimento de vida pluricelular. Esses oceanos ocupam mais de sete décimos da superfície solipsana. Dos restantes três décimos, uma parte encontra-se dispersa por todo o globo em ilhas de pequena dimensão, incessantemente criadas e destruídas pela actividade geológica que percorre a crosta oceânica. As marés poderosas do corpo de líquido de Solipse varrem e submergem essas ilhas com uma violência inexcedível, produzindo condições sob as quais a vida nunca se pôde desenvolver. Só no único continente de Solipse se reuniram circunstâncias favoráveis para a emergência da biosfera actual. Este continente assemelha-se a um anel, um anel granítico que se prolonga pela maior parte do equador solipsano. Foi aí que, há quinhentos milhões de anos terrestres, a vida ousou ir para além dos limites oceânicos, e foi aí que trezentos e cinquenta milhões de anos depois a «invenção» da trissexualidade possibilitou uma enorme aceleração evolutiva, que há cerca duzentos mil anos acabou dar origem a uma civilização extremamente discreta na sua aparência.

Pelos aspectos gerais de Solipse que acabámos de descrever, o desinteresse inicial manifestado pelos investigadores torna-se mais compreensível. Num planeta quase vulgar habitado por formas de vida quase vulgares, o que poderíamos aprender com uma espécie que em duzentos mil anos de existência civilizada pouco ou nada evoluíra tecnologicamente? Até ao final do século XXI, só uma pequena facção de biólogos contrariou esta atitude, esforçando-se por incluir Solipse nas linhas prioritárias do Programa de Exploração Galáctica (ver SOLIP/BIO/12). Na opinião desses biólogos, os dados recolhidos pelas sondas justificavam uma investigação mais detalhada, porque esses dados tornavam manifesta a existência de um fenómeno verdadeiramente «estranho»: a migração regular da única espécie inteligente de Solipse. É certo que os fenómenos de migração são muito frequentes, também é certo que este tipo de fenómeno se encontra bem compreendido pelos biólogos, mas no caso instanciado pelos solipsanos civilizados não se mostrava possível correlacionar esse comportamento com os factores causais comuns. A migração dos solipsanos, para além de nem obedecer a uma regularidade sazonal, fazia-se acompanhar de acontecimentos profundamente enigmáticos. Durante dois anos -- segundo o calendário assente na translacção de Solipse, que aqui será ignorado em todas as outras referências cronológicas -- todos os elementos da espécie permaneciam abaixo da linha equatorial, onde se situava toda a área urbanizada do planeta. Essa área distribuía-se por cerca de trinta pequenas cidades, que na sua totalidade reuniam os seis milhões de habitantes inteligentes de Solipse. Na sua modalidade urbana, o comportamento dos solipsanos decorria normalmente. Partilhavam uma existência sem sobressaltos, fundada numa sociabilidade invejável que se estendia dos laços individuais aos vínculos estabelecidos entre as cidades. A sua tecnologia, mesmo sendo de carácter elementar, mostrava-se mais do que suficiente para responder a todas as necessidades materiais, permitindo, para além disso, que cada indivíduo não precisasse de sacrificar muito do seu tempo à actividade económica. A partir desta ordem social harmoniosa, a civilização solipsana pôde constituir uma cultura dominada por diversas actividades lúdicas extremamente ritualizadas, uma cultura onde a procura de riqueza ou poder ilimitados parecia nunca ter encontrado qualquer lugar. No entanto, todo este modo de vida desenrolava-se apenas por períodos de dois anos. Depois chegava o momento da migração. Os seis milhões de solipsanos abandonavam massivamente as suas cidades, e partiam para o hemisfério superior de Solipse, para aí subsistirem também durante dois anos. Logo que transpunham a linha equatorial, o seu comportamento alterava-se radicalmente. A sociabilidade própria da condição urbana desvanecia-se num instante, emergindo no seu lugar um «egoísmo» generalizado, capaz de romper com todos os laços de afecto anteriormente estabelecidos. Os solipsanos dispersavam-se então por uma ampla longitude do continente. Muitos escolhiam o isolamento completo, outros preferiam formar pequenos grupos, grupos que muitas vezes reuniam indivíduos que nem sequer tinham habitado a mesma cidade. Seguiam-se dois anos terríveis. Longe de todas as comodidades urbanas, os solipsanos viam-se forçados a enfrentar uma luta permanente pela sobrevivência individual. Conseguir comida e evitar os predadores tornavam-se preocupações quase exclusivas. Quase, porque a sua preocupação prioritária residia no contacto com os seus semelhantes. Desse contacto sempre imprevisível podia resultar todo o tipo de agressão. Alguns dos grupos mais fortes chegavam a construir locais próprios para o exercício da crueldade sem restricções. No entanto, após dois anos de barbárie ininterrupta, os solipsanos dirigiam-se de novo para o hemisfério inferior, procuravam as suas cidades de origem, e aí retomavam o seu comportamento civilizado por mais dois anos, tudo como se nada tivesse acontecido.

Como explicar este comportamento migratório? As hipóteses habituais sucumbiam imediatamente perante os factos conhecidos. Sabia-se que, na superfície do continente solipsano, as condições ambientais normalmente consideradas relevantes eram quase idênticas nos dois hemisférios. Este facto, para além de excluir a possibilidade de se explicar a migração através da procura de condições ambientais mais favoráveis, excluía também qualquer explicação que apontasse essas condições como causa suficiente para as alterações de comportamento, até porque essas alterações não se registavam em nenhuma das outras espécies migratórias observadas em Solipse. Embora tudo parecesse indicar que a migração dos solipsanos civilizados não obedecia a uma causalidade essencialmente biológica, a hipótese de que o seu comportamento derivava de uma espécie de patologia de ordem cultural também não se mostrava plausível. Como compreender essa patologia, estranhamente cíclica e massiva, à luz da racionalidade exímia que transparecia nas cidades solipsanas? Foi este o enigma lançado pelos biólogos no final do século passado. Embora a escassez dos dados disponíveis os tivesse feito prescindir da apresentação de hipóteses explicativas, a sua familiarização com fenómenos migratórios dos mais diversos tipos levou-os a afirmar que a migração dos solipsanos, dada a sua singularidade, indiciava a existência de uma biosfera surpreendente.

Este pequeno foco de entusiasmo por Solipse não contagiou as instâncias poderosas, que responderam com a crítica habitualmente destinada às «intromissões» dos biólogos: estes, ao sugerirem que o comportamento dos solipsanos só poderia ser compreendido através do estudo da sua base biológica, estavam a colocar em questão a «autonomia nomológica» das ciências astroculturais (ver ASCUL/HIS/103) e a pressupor um «reducionismo biológico incompatível com os resultados da exploração galáctica». Começamos hoje a verificar que, na maior parte dos casos, esta crítica tem funcionado como um simples pretexto para dissimular um desinteresse pelos mundos vivos não-civilizados e pelas civilizações sem tecnologia avançada. A falta de influência dos biólogos tem sido uma das notas dominantes do Programa de Exploração Galáctica, e se nos viemos a interessar por Solipse não foi pela necessidade de investigação biológica. A primeira viagem tripulada ao sistema de Hertz deu-se por um motivo bem diferente. Em 2168, as nossas sondas comunicaram-nos notícias surpreendentes: a migração dos solipsanos cessara subitamente, e com ela cessara a dupla personalidade da espécie. O comportamento característico do hemisfério superior, para além de se ter estendido a todo o continente, assumira proporções nunca antes registadas. Durante um único ano terrestre, todas as cidades de Solipse sucumbiram perante uma anarquia selvática, e cerca de setecentos mil solipsanos pereceram sob as ruínas da sua civilização. O que estaria a acontecer? Ninguém sabia, ninguém se atrevia sequer a apresentar publicamente conjecturas explicativas, e este estado de ignorância inesperada veio reforçar o impacto da crise solipsana sobre a comunidade científica. De um momento para o outro, décadas depois do primeiro contacto com o sistema de Hertz, a humanidade centrava a sua atenção em Solipse, na expectativa inédita de testemunhar a morte de uma civilização. Estávamos perante uma coincidência extraordinária de um ponto de vista estatístico: uma espécie inteligente encaminhava-se para a extinção, e com ela desmoronava-se perante o nosso olhar uma civilização com duzentos mil anos de história. A vontade de presenciar este instante terminal fez surgir inevitavelmente a ideia de uma viagem tripulada ao sistema de Hertz, uma ideia que se impôs no Programa de Exploração Galáctica sem ter de enfrentar qualquer resistência significativa. É certo que a situação vivida pelos solipsanos, independentemente da sua raridade, possuía um interesse considerável paras as ciências astroculturais (ver ASCUL/TEO/662), mas arriscamos sugerir que na origem do entusiasmo por Solipse esteve também uma certa atracção mórbida, que se estendeu da comunidade científica a toda a humanidade.

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Tinham decorrido apenas cinco anos desde o momento em que a crise solipsana se tornara conhecida quando, sob a liderança de Albert Musaazi, a Apocalipse 1 partiu para o sistema de Hertz, levando consigo dez técnicos de astronavegação e vinte cientistas disciplinarmente diversificados. A permanência em cronotúneis foi breve e decorreu em condições físicas favoráveis (ver APOC/TRA/1), o que foi decisivo para que se pudesse encontrar a civilização solipsana num estado aproveitável para as investigações projectadas. Da espécie inteligente de Solipse restavam apenas uns dois milhões de elementos, a degradação das cidades prosseguia a um ritmo acelerado, mas duas delas, situadas a escassos quilómetros do oceano inferior, apresentavam um estado de conservação bastante mais elevado que o das restantes. Este facto ditou a localização da base de pesquisa da Apocalipse 1, construída numa ilha suficientemente alta para não submergir por completo sob o efeito das marés solipsanas. A partir daí, a escassas dezenas de quilómetros das cidades menos degradadas, quinze investigadores puderam planear as suas actividades de pesquisa, permanecendo à margem da «loucura» colectiva que subjugara os solipsanos inteligentes.

O objectivo prioritário dos investigadores foi o de recolher informação detalhada sobre os aspectos culturais da civilização solipsana. Esse tipo de informação escasseava, sobretudo porque se desconhecia completamente a linguagem dos solipsanos. Tentou-se superar este desconhecimento através da captura de alguns indivíduos, mas esta estratégia produziu resultados desastrosos: os solipsanos capturados, para além de não terem mostrado qualquer disposição para actos comunicativos, acabaram invariavelmente por se suicidar, sem que tivessem precisado de qualquer instrumento externo para fazerem cessar as suas funções vitais. O âmbito de pesquisa ficou assim restringido ao espaço ocupado pelas duas cidades costeiras. Através delas foi possível aprender muitíssimo sobre a organização social dos solipsanos, mas nada do que se aprendeu lançou qualquer luz sobre a crise civilizacional, e mesmo em relação ao antigo comportamento migratório a única descoberta relevante só veio adensar o mistério. Descobriu-se que antes de se ter dado a derrocada civilizacional todos os «portões» de cada cidade obedeciam a um mecanismo autónomo, a um relógio extremamente complexo e preciso que no momento programado isolava toda a área urbana. Depois de ter impossibilitado o acesso a essa área, o relógio desencadeava uma série de operações mecânicas que culminavam invariavelmente no lançamento de um gaz venenoso por toda a cidade. Dois anos depois, esse mesmo relógio conduzia todo o processo de reabertura da cidade. Constatou-se que cada uma das trinta cidades de Solipse ainda apresentava vestígios nítidos destas máquinas. Deste modo, tornou-se óbvia a existência de uma relação importante entre o fenómeno migratório e o funcionamento dos relógios: estes engenhos gigantescos destinavam-se certamente a assegurar que ninguém pudesse viver no espaço urbano durante o período que se seguia ao abandono massivo das cidades. Mas qual era o motivo para uma medida tão drástica? Para este e para outros enigmas, que se iam acumulando através da observação pormenorizada das cidades, as respostas tardavam em aparecer. Decorreram meses de pesquisa fastidiosa. A recolha e classificação dos dados habituais só ocasionalmente foi pontuada por alguma descoberta interessante (ver APOC/TRA/13), mas todas essas descobertas limitavam-se a reforçar a convicção de que a «chave» para compreender o modo de vida dos solipsanos permanecia completamente escondida. A desmotivação apoderava-se dos investigadores. Só uma das descobertas se mostrara encorajante: os solipsanos possuíam uma linguagem escrita. No entanto, o que se sabia sobre essa linguagem era muito pouco, sobretudo porque não se encontrara um único texto com uma dimensão aproveitável para a análise linguística. As duas cidades costeiras tinham sido examinadas com uma precisão milimétrica, mas de todo esse esforço só resultara a recolha de algumas placas de pequena dimensão, que exibiam uma sequência de símbolos extremamente breve. Tudo parecia indicar que para os solipsanos a linguagem escrita não desempenhava um papel importante como veículo de comunicação, e assim a cultura solipsana continuava a resistir a todas tentativas de compreensão.

Os projectos centrais da Apocalipse encaminhavam-se para um fracasso humilhante. Esse fracasso teria sido inevitável se, numa das cidades mais próximas da linha equatorial, não se tivesse registado um foco de violência com proporções invulgares. Na ausência de estratégias de pesquisa mais promissoras, os investigadores decidiram acompanhar esse evento com uma atenção minuciosa. Não se arrependeram. O contacto observacional tornou imediatamente manifesta a singularidade do que estava a decorrer: dois grupos de solipsanos travavam uma batalha ininterrupta, e um desses grupos, muito inferior do ponto de vista numérico, possuía um nível de organização extraordinariamente elevado. O grupo mais numeroso -- do qual faziam parte cerca de cinco mil indivíduos -- obedecia ao comportamento anárquico que se tornara característico desde o início da crise civilizacional. Muitos dos elementos desse grupo chegavam a agredir-se entre si, por vezes até à morte, e nos seus movimentos era nítida a ausência de qualquer estratégia estruturada por objectivos a médio ou longo prazo. No grupo minoritário, que ocupava uma posição predominantemente defensiva, assistia-se a um comportamento muito diferente, no qual transparecia uma estratégia bem definida, que todos tentavam executar sem nunca perder de vista a disciplina hierárquica e a especialização de funções. A maneira de agir destes solipsanos --que em número não ultrapassavam a casa das centenas -- veio renovar o ânimo dos investigadores. Provavelmente, tinha-se conseguido localizar os sobreviventes da catástrofe civilizacional, aqueles que teimavam em lutar pelo antigo modo de vida e procuravam resistiam ao contágio pela loucura colectiva. Se isto era verdade, havia que actuar com toda a urgência, havia que tentar por todos os meios estabelecer contacto com esses solipsanos. O seu comportamento suportava a convicção de que por fim seria possível estabelecer laços comunicativos bem sucedidos. Albert Musaazi, o líder da Apocalipse, tomou uma decisão ousada: isolar a zona central da área onde decorria a batalha, de modo a proteger o grupo minoritário dos seus ofensores e a criar condições favoráveis para o contacto comunicativo. A execução deste plano não foi fácil e quase conduziu a um fracasso sangrento, mas os solipsanos organizados, a partir do momento em que pareceram compreender o propósito dos nossos investigadores, auxiliaram-nos a isolar a zona pretendida. Tudo corria pelo melhor, excediam-se as expectativas iniciais, mas quando a construção do «cerco» estava quase concluída o comportamento dos solipsanos sofreu uma viragem surpreendente. O aliados inesperados dos elementos da Apocalipse decidiram abandoná-los, dispersaram e misturaram-se na multidão, deixando-os completamente sós na área isolada. Todo o esforço realizado parecia ter sido em vão. Mas uma nova surpresa veio relançar o entusiasmo: existia uma vasta «biblioteca» dentro do espaço cercado.

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A descoberta da «biblioteca» solipsana, que acabou por se tornar conhecida como «solipteca», teve uma importância incalculável. Permitiu-nos, antes de mais, encontrar uma interpretação plausível para a batalha que se tinha dado na cidade equatorial. Corroborava-se a suposição de que o grupo minoritário era constituído por solipsanos que pretendiam preservar a sua civilização, isto porque, muito provavelmente, o seu objectivo tinha sido o de impedir a destruição da solipteca, de impedir o desaparecimento da sua própria memória cultural. Esta interpretação, a ser verdadeira, sugeria que solipteca devia possuir um grande valor informativo, o que se veio a confirmar.

As diferenças culturais que nos separavam dos solipsanos eram cada vez mais manifestas, e este facto não fazia prever facilidades no acesso à linguagem solipsana, mas a verdade é que a decifração e tradução da solipteca decorreu sem percalços significativos (ver SOLIP/LAN e ASLIN/TEO/39). Em parte, isso ficou a dever-se aos progressos atingidos pela astrolinguística. No entanto, o extraordinário rigor sintáctico da linguagem solipsana contribuiu muito para tornar acessível o conteúdo da solipteca. Verificou-se que muita da informação recolhida era de natureza matemática. Os investigadores da Apocalipse, confrontados com a descoberta de todo esse conhecimento, não puderam deixar de se sentir surpreendidos. Como era possível que uma civilização tão avançada no conhecimento matemático nunca se tivesse empenhado na aplicação desse conhecimento? Os solipsanos veneravam a matemática, a lógica e algumas das áreas mais abstractas da linguística, mas as ciências empíricas não encontravam qualquer lugar nos seus horizontes cognitivos. O motivo da sua dedicação às ciências «formais», fosse ele qual fosse, decididamente não passava pela procura de instrumentos sofisticados para a compreensão da natureza. Os solipsanos não mostravam qualquer interesse intelectual pelo mundo físico. Podemos até afirmar que nada há de mais estranho à cultura solipsana que a ideia de que o conhecimento científico é um meio para controlar tecnologicamente a natureza. A atitude dos solipsanos perante a realidade natural contribuía assim para explicar seu baixo desenvolvimento tecnológico, mas como explicar esta própria atitude? A solução para este problema só se começou a esboçar quando os investigadores da Apocalipse penetraram no outro domínio privilegiado do pensamento solipsano: a reflexão filosófica.

Não há que hesitar em falar de filosofia solipsana. Muita da informação encontrada na solipteca é filosofia sem aspas, e uma grande parte dela situa-se claramente no domínio da ética. Essa ética destaca-se, como seria de esperar, pelo seu carácter formal. Os solipsanos esforçaram-se sobretudo por discernir relações interessantes entre o pensamento lógico e a acção moral, recusando obstinadamente qualquer abordagem de carácter empírico. É interessante constatar que muito do seu pensamento se desenvolve em linhas kantianas. Encontramos, por exemplo, tentativas para demonstrar por meios puramente a priori que as prescrições morais são universalmente aplicáveis. Os solipsanos também concederam uma atenção especial aos problemas filosóficos suscitados pela matemática. Neste domínio, devemos destacar a existência de uma atitude dogmaticamente realista em relação às entidades matemáticas. Os solipsanos parecem acreditar em números e em conjuntos um pouco como nós acreditamos em árvores e em mesas; o realismo matemático faz parte do seu senso comum do mesmo modo que o realismo em relação às entidades físicas faz parte do senso comum humano. A ideia de que as entidades matemáticas só existem enquanto resultado de alguma construção mental surge no pensamento solipsano como uma hipótese intuitivamente falsa, como uma hipótese que pela sua excentricidade intrínseca se limita a ocupar um lugar ocasional na discussão filosófica, sendo usada sobretudo no contexto de reduções ao absurdo.

É compreensível que esta aceitação dogmática do realismo matemático nos pareça especialmente estranha logo que identifiquemos o traço essencial de toda a filosofia solipsana, que consiste na existência de um cepticismo extremo e generalizado em relação à realidade do próprio mundo físico. Não foi difícil descobrir que os solipsanos tinham vivido sempre atormentados com a hipótese solipsista, com a possibilidade de todo o «mundo exterior» se reduzir a uma espécie de sonho ou ilusão sem qualquer base real, sendo assim insusceptível de existir independentemente da mente daquele que o sonha. Os nossos filósofos encontram-se familiarizados com a hipótese solipsista pelo menos desde Descartes, que a formulou com toda a clareza para depois a tentar refutar. Consta que o seu esforço não foi bem sucedido. Seja como for, a opinião que se impôs até hoje é a de que essa hipótese não pode ser refutada nem demonstrada conclusivamente, mas que este facto não tem qualquer importância prática. Como humanos, estamos condenados a agir durante a maior parte do nosso tempo sob o suposto de que o mundo exterior é real, e nem o mais céptico dos filósofos se consegue furtar a esta situação. Ao nível epistémico, os solipsanos tinham pensado essencialmente o mesmo e pelos mesmos motivos: a hipótese solipsista não pode ser refutada nem demonstrada, já que tudo o que observamos pode ser interpretado tanto supondo que o mundo físico é real, como supondo que todo esse mundo resulta apenas da nossa própria actividade mental. Neste ponto não podemos deixar de citar um dos textos mais significativos da solipteca:

Vejo pontos luminosos no céu, e disto posso ter a certeza. Digo que a esses pontos podem corresponder coisas físicas reais, e chamo «estrelas» a essas coisas. Mas será que esses pontos luminosos são mesmo estrelas? Nada me garante que não esteja apenas perante uma ilusão de estrelas. Só posso saber que quando olho para o ceú é como se existissem estrelas. Porquê? Posso explicar isto dizendo que as coisas são como se existissem estrelas porque existem realmente estrelas, mas posso explicar o mesmo dizendo que as coisas são como se existissem estrelas porque tenho a ilusão da existência de estrelas. Não há motivos para preferir uma hipótese à outra, a não ser que se pressuponha previamente uma delas, e nada do que observo ou alguma vez poderei observar pode contribuir para decidir a questão. (Para as dificuldades de tradução, ver SOLIP/LAN/120.)

O texto que acabámos de citar podia muito bem ter sido escrito por um filósofo terrestre. No entanto, a atitude caracteristicamente humana perante a situação epistémica acima descrita em nada se assemelha à atitude assumida pelos solipsanos. A impossibilidade de refutar o solipsismo nunca lhes surgiu como uma simples dificuldade teórica, mas como um facto determinante para a condução de todos os tipos de actividade. Diz-nos um solipsano:

  Eu não sei se por detrás das minhas sensações há mundo físico real ou se sou o criador solitário de tudo o que se me apresenta. Nenhuma destas hipóteses me parece mais provável que a outra. Disto surge a mais terrível de todas as questões. Devo agir supondo que o mundo que se me dá pelos sentidos é ou não é real? No primeiro caso, reconheço a existência independente dos meus semelhantes e de uma sociedade que me tem como elemento, e isso permite-me colocar a mim mesmo certas obrigações morais. No entanto, se o mundo sensorial é apenas o meu mundo, se tudo o que se me dá é um reflexo involuntário da minha própria mente, então tudo me é permitido, porque não faz sentido eu estar a agir sob obrigações morais perante seres que realmente não existem. O que devo fazer nesta situação? Para ser racional, terei que agir em conformidade com o que é verdadeiro ou com o que é mais provável que seja verdadeiro, mas sendo assim eu não posso saber como agir racionalmente, porque sobre a realidade do mundo que se me dá não me é possível atingir qualquer conhecimento.

  Se estas palavras tivessem surgido no contexto da cultura humana, elas representariam o ponto de vista crítico e desviante de uma minoria. No contexto da cultura solipsana, as afirmações citadas são puro senso comum. A indecidibilidade do solipsismo percorre toda a história dos solipsanos, constituindo uma espécie de obsessão cultural permanente, se é que podemos usar um termo patológico como «obsessão» para nos referirmos ao que na verdade traduz um racionalismo inexcedível. Os solipsanos tinham sempre considerado com toda a seriedade o facto de não ser possível refutar ou demonstrar a realidade do mundo exterior, e esforçaram-se por retirar desse resultado teórico as conclusões práticas relevantes, de modo a poderem agir como seres perfeitamente racionais. Mas que conclusões práticas se podem seguir da simples indecidibilidade do solipsismo? Afinal, deve-se agir como se o mundo exterior fosse real? Neste ponto, a história do pensamento solipsano dá-nos conta de sérias divergências, que em última instância radicam na impossibilidade lógica de se retirar qualquer conclusão prática apenas da indecidibilidade do solipsismo. A grande maioria dos solipsanos, aceitando a formulação do dilema acima enunciado, adoptou uma linha de raciocínio que acabou por os conduzir a um «solipsismo prático»:

Se eu não posso apontar um único motivo epistémico que justifique a minha preferência pela realidade ou pela idealidade do mundo que se me dá, resta-me admitir que toda a minha acção terá que ser indiferente ao valor de verdade de "o mundo que se me dá é real". Eu não serei mais racional ao agir supondo que os meus semelhantes existem realmente do que ao agir sob a suposição contraditória. E no entanto sou forçado a agir, e sei que a minha escolha de determinadas acções não será indiferente a uma crença na realidade do mundo, mesmo sabendo que essa crença (ou descrença) não poderá deixar de ser absolutamente injustificada. Mas agora confronto-me com o seguinte resultado: se eu não acreditasse na realidade do mundo que se me dá, agiria como se só eu existisse, e todas as minhas acções estariam determinadas apenas pelo meu interesse, já que não reconheceria a existência de outros seres com interesses próprios. Ora, como eu não sei se o mundo que se me dá é ou não é real, e como tenho de agir decidindo-me por uma destas hipóteses, não tenho outra possibilidade senão a de escolher a hipótese que esteja de acordo com o meu interesse. Verifico assim que, quer aceite o solipsismo ou permaneça simplesmente céptico, é sempre o meu interesse que determina necessariamente todo o curso posterior das minhas acções.

Nem todos os solipsanos aceitaram este argumento. Entre esses, os mais radicais tornaram-se defensores da ideia de que o suicídio é a única maneira de agir racionalmente. «Estou condenado a agir irracionalmente», afirmou um destes solipsanos, fazendo notar que esse é o resultado inescapável de não se ter qualquer motivo para acreditar na realidade ou na idealidade do mundo exterior, sabendo-se no entanto que a conduta escolhida envolve uma crença numa destas duas hipóteses. Sendo assim, a única possibilidade de se ser racional passa necessariamente pela recusa em agir, e só aquele que se suicida é capaz de se recusar a agir. A selecção natural encarregou-se de eliminar esta teoria, porque todos os que possuiam uma disposição genética favorável à sua aceitação mostraram uma tendência compreensível para não se reproduzirem. Outros solipsanos sustentaram uma posição semelhante, mas mais moderada. O seu ponto de vista encontra-se formulado na seguinte passagem:

Quando eu decido, por exemplo, caminhar junto ao mar, a minha decisão em nada é afectada por eu não saber se o mar existe realmente ou se o mar é uma construção da minha mente. No entanto, se um que se me dá como meu semelhante me pede ajuda, aí sim, surge o problema: eu sentir-me-ia obrigado a ajudá-lo se soubesse que ele é realmente um meu semelhante, mas não o ajudaria se soubesse que ele não é real. Como eu não me posso decidir por uma destas hipóteses, também não sei como agir nessa situação, e é isso que me condena à irracionalidade. Significa isto que estou sempre condenado à irracionalidade prática? Não. Só em casos como o que está instanciado pelo segundo exemplo, porque em casos como aquele em que decido passear junto ao mar o facto de não se saber se o mar existe realmente não torna a minha decisão irracional, porque esse facto é indiferente à minha decisão de passear junto ao mar. Mas o que faz a diferença entre os dois casos que apontei e torna o segundo caso tão problemático? O segundo caso é problemático porque envolve uma decisão em relação a um outro que se me dá como meu semelhante: é o facto de poder estar perante mim um outro como eu, um outro que me desperta obrigações morais, que torna a minha situação embaraçosa, porque eu não sei nem posso saber se esse outro é real e, portanto, não posso saber se devo agir moralmente em relação a ele. Este é um problema insolúvel, e admito que se o tiver de enfrentar alguma vez estou condenado a ser irracional, porque nada me resta senão agir em função do meu interesse, que não é justificado por nada para além de ser o meu interesse. Significará tudo isto que, para que não esteja condenado à irracionalidade, resta-me decidir não agir, fazendo uso do suicídio? Não necessariamente. Posso também viver afastado de todos os que se me dão como meus semelhantes porque, nesse estado de isolamento, nunca terei de enfrentar as situações que me condenam à irracionalidade, já que na prática nunca se me colocará o terrível dilema de ter ou não ter obrigações morais perante outros.

É difícil determinar a popularidade atingida por esta postura isolacionista, mas podemos estar certos de que aqueles que a ela aderiram não tiveram uma influência significativa na história solipsana. Esses solipsanos, ao viverem na convicção de que só um modo de vida estritamente solitário pode salvar a racionalidade prática, retiraram-se para as áreas mais inóspitas de Solipse, colocando-se à margem de todos os desenvolvimentos culturais da sua civilização. Deste modo, foram aqueles que aderiram ao solipsismo prático que acabaram por protagonizar a história solipsana, uma história invulgarmente longa, mas, pelo que sabemos, bastante pobre na diversidade dos eventos que a percorreram. Entre os solipsistas práticos, surgiram desde o início duas correntes antagónicas, e durante muitos milhares anos o domínio sobre Solipse pertenceu alternadamente a uma dessas correntes, em ciclos que oscilaram entre os cinco e os dez séculos de duração. Todos esses solipsanos reconheceram que é o interesse próprio que determina primária e necessariamente a atitude prática perante a realidade do mundo exterior, mas, como seria de esperar, os interesses próprios dos solipsanos estiveram longe de coincidir. Alguns preferiram agir como se o mundo exterior não fosse real, o que se traduziu num tipo de conduta marcado por um egoísmo anárquico; outros, pelo contrário, preferiram agir como se soubessem que o mundo exterior é real, e desenvolveram um modo de vida fundado na sociabilidade. Devemos notar que este tipo de correlação nunca se obteve em todos os casos. Alguns solipsanos, embora tenham decidido viver sob a hipótese da irrealidade do mundo, acabaram por preferir a existência em sociedade, porque na sua perspectiva o conforto propiciado pela sociabilidade servia melhor os seus interesses. Também se registou a situação inversa: alguns dos que viveram supondo a realidade do mundo tornaram-se, à semelhança dos nossos anarquistas, adversários de todas as formas de organização social, justificando a sua posição através de argumentos de ordem ética e política. No entanto, estas duas atitudes só se verificaram em franjas minoritárias da população solipsana. O suposto realista manteve-se sempre estreitamente vinculado ao comportamento sociável, do mesmo modo que o suposto inverso produziu o comportamento inverso. Formaram-se assim duas tendências que nunca puderam coexistir pacificamente, e, por diversas ocasiões, do seu antagonismo permanente quase sobreveio a extinção da espécie. Os solipsanos sociáveis esforçavam-se por construir uma ordem social estável, capaz de viabilizar o progresso cultural, mas os solipsanos anárquicos constituiam uma ameaça incontornável à realização desse propósito: saqueavam as cidades, destruíam os meios de produção, e muito frequentemente liquidavam os seus semelhantes, sem que para isso precisassem de um motivo mais forte que o de satisfazer um caprinho pessoal momentâneo. Nestas circunstâncias, os solipsanos nunca puderam criar um modo de vida civilizado duradouro. Os que preferiam a condição sociável tinham que dedicar muito do seu tempo à luta ininterrupta contra a anarquia, e mais tarde ou mais cedo todo o seu esforço fracassava, em grande parte porque as fileiras dos solipsanos anárquicos iam engrossando à medida que se instalava um pessimismo progressivo em relação às vantagens da existência em sociedade. As cidades acabavam assim por sucumbir, com elas desintegrava-se toda a memória cultural que entretando se acumulara, e os solipsanos retornavam uma vez mais ao grau zero de civilização.

Sobre esta longa era da história dos solipsanos, só temos conhecimento de um único episódio que veio alterar significativamente a estabilidade cíclica. A data desse episódio é ainda objecto de polémica, e sobre os seus detalhes pouco ou nada sabemos. Mesmo assim, os dados existentes permitem-nos afirmar que durante um período de dois ou três séculos quase todos os solipsanos adoptaram uma atitude de silêncio rigoroso, um silêncio que atingiu todas as formas de comunicação. Ao que parece, este estranho acontecimento partiu de um pequeno grupo «para-realista». Os elementos desse grupo dedicavam muito do seu tempo à realização de um objectivo que era visto como utópico pelos seus semelhantes: demonstrar que mundo exterior é real, ou pelo menos que essa é uma hipótese mais provável que a sua negação. Com isso procuravam diminuir drasticamente o número dos solipsanos anárquicos. Este propósito louvável conduziu, no entanto, a resultados perversos. Tudo indica que esses «para-realistas» foram inesperadamente bem sucedidos, pelo menos até certo ponto. Através de argumentos muitíssimo subtis, conseguiram demonstrar que o simples uso de uma linguagem compromete aqueles que a usam com a realidade do mundo exterior, que o suposto realista se apresenta como uma condição de inteligibilidade do uso referencial da linguagem. Ora, o que inicialmente surgia como uma vitória histórica do realismo, depressa se revelou como uma ilusão desastrosa nas suas consequências. Os argumentos dos «para-realistas» tiveram um sucesso extraordinário, mas levaram os solipsanos a tomar uma decisão muito diferente da esperada. Os solipsanos, realmente convencidos de que quem usa uma linguagem está comprometido com a realidade do mundo exterior, não viram nisso qualquer motivo para aceitar o realismo, e decidiram antes abandonar o uso de toda e qualquer forma de linguagem de modo a permanecerem neutrais. Concluíram que essa é a única maneira de salvaguardar a racionalidade. Esta viragem traduziu-se, obviamente, num enfraquecimento enorme dos comportamentos sociáveis, e a anarquia atingiu níveis quase letais. Muitos dos indivíduos das novas gerações cresciam sem aprender o domínio de uma linguagem, já que quase todos os solipsanos mais velhos se recusavam a comunicar. Esta situação catastrófica, no entanto, guardava em si a chave para a reposição da «normalidade». Como todos aqueles que aderiram ao comportamento silencioso se recusavam a usar qualquer forma de linguagem, os escassos suportes materiais em que os argumentos «para-realistas» tinham sido inicialmente apresentados nunca chegaram a ser substituídos, e o seu desaparecimento assinalou o fim do comportamento silencioso. Os novos solipsanos, como nunca puderam conhecer esses argumentos, depressa retomaram o uso da linguagem, e deste modo a velha ordem não tardou a ressurgir.

No entanto, há cerca de quarenta mil anos os ciclos históricos foram interrompidos de novo, e desta vez a interrupção não se reduziu a um simples acidente de percurso. A viragem partiu, naturalmente, da esfera do pensamento filosófico, e deu origem a uma revolução profunda. Uma alternativa viável ao solipsismo prático tinha acabado de emergir, provavelmente pela primeira vez, e colheu um consenso alargado entre os solipsanos, sem o qual não teria sido possível o sucesso da fase de transição revolucionária. Essa alternativa ficou conhecida por dualismo prático e, como os investigadores da Apocalipse depressa puderam reconhecer, nela estava presente a chave para a compreensão do comportamento migratório dos solipsanos. Toda a doutrina do dualismo prático, que prevalecera até à última derrocada civilizacional, assentava numa justificação teórica que pode não nos parecer muito persuasiva, mas a verdade é que ela exerceu uma influência incalculável sobre os solipsanos. A solipteca contém trinta e duas versões dessa justificação, mas a que nos parece ser a mais antiga de todas ocorre na seguinte passagem:

Comecei então por pensar o que há de mais óbvio: que é melhor saber do que não saber, e que, sendo assim, se nada mais me permitir decidir entre duas possibilidades, e se uma delas me permitir saber algo e a outra não mo permitir, então procedo melhor ao preferir a que me permite esse saber. Não sei porque me vi conduzido para este pensamento aparentemente vazio e pobre de consequências, mas a verdade é que, para grande surpresa minha, retirei daqui a conclusão que mudou toda a minha vida. Como foi isto possível? Pensei que, se eu agir sempre como se o mundo que se me dá fosse real, é possível que esteja a agir sempre sob a falsidade desse pressuposto, o que será o caso se o mundo que se me dá não for real, e acontece exactamente o mesmo se eu agir supondo que o mundo que se me dá não é real. Num caso ou no outro, não me é possível saber se estou a agir sempre sob a falsidade do pressuposto em questão. No entanto, pensei eu, se umas vezes agir supondo que o mundo que se me dá é real, e se outras vezes agir supondo o contrário, pelo menos algumas vezes estarei a agir sob o pressuposto verdadeiro e, sendo assim, posso ao menos saber que nem sempre estou a agir sob o pressuposto falso. Profundamente emocionado com este pensamento, regressei à minha ideia inicial, contemplei a sua beleza , e deixei fluir a conclusão inevitável: o melhor é agir por vezes supondo que o mundo que se me dá é real, e agir noutros casos sob a negação desse pressuposto. Pelo menos assim sei que nem sempre vivo sob o engano, e sempre é melhor saber do que não saber.

Logo na sequência deste argumento, o solipsano que o apresentou esforçou-se por retirar da sua conclusão consequências práticas mais específicas. Pelo que sabemos, os resultados que atingiu inauguraram uma nova época histórica. Na sua opinião, como a probabilidade de o solipsismo ser verdadeiro é exactamente idêntica à probabilidade da sua falsidade, um indivíduo racional deverá viver segundo a doutrina do dualismo prático ao aceitar o solipsismo durante metade do seu tempo, e ao negar essa posição durante a outra metade.

Mesmo quem esteja familiarizado com a mentalidade solipsana, poderá confrontar-se neste ponto com uma dificuldade interessante. Suponhamos que um solipsano, depois de ter decidido viver através de fases em que aceita e nega alternadamente a realidade do mundo exterior, estabelece que cada uma dessas fases se deve estender por um período de tempo bem determinado. Suponhamos agora que o solipsano em questão entrou numa fase em que vive como se o mundo exterior fosse irreal. Sendo assim, alguns momentos antes de terminar o prazo previsto para essa fase, ele poderá duvidar de que o tempo estabelecido está realmente no seu termo porque, como vive como se o mundo exterior não fosse real, poderá considerar ilusória a impressão de que já decorreu quase todo esse tempo. Nestas circunstâncias, esse solipsano poderia prolongar indefinidamente a sua postura solipsista, arruinando assim o seu modo de vida dualista. Embora esta linha de raciocínio possa parecer plausível, a verdade é que ela esbarra na aceitação tácita de uma hipótese errada sobre a teia de crenças própria dos solipsanos. É certo que os defensores do modo de vida dualista agem, durante certos períodos de tempo, sob a hipótese de que o mundo exterior é irreal, mas este cepticismo nunca contagia a própria noção de duração temporal, simplesmente porque os solipsanos nunca conceberam o tempo como uma realidade física que deve a sua existência ao mundo exterior. Este é, sem dúvida, um dos aspectos mais intrigantes do senso comum solipsano, mas, como veremos mais adiante, os resultados das investigações permitiram-nos torná-lo compreensível.

Como decorreu o processo revolucionário que culminou no triunfo absoluto do dualismo prático? A partir da solipteca não foi fácil obter uma reconstrução histórica razoavelmente precisa deste evento, não só porque ele se prolongou por cerca de quinze séculos, mas sobretudo porque o estudo da história nunca entusiasmou os solipsanos. É certo que a nossa imagem da revolução solipsana apoia-se, numa certa medida, nas pesquisas arqueológicas posteriores à viagem da Apocalipse (ver ARQ/GEN/109). No entanto, os dados relevantes contidos na solipteca, embora consistam quase sempre em afirmações fragmentárias e marginais, mostraram-se indispensáveis no sucesso ulterior das pesquisas arqueológicas. É altamente improvável que, apenas a partir dos indícios encontrados, os arqueólogos pudessem ter chegado alguma vez a imaginar as dificuldades insólitas que os solipsanos tiveram de enfrentar. Tanto quanto sabemos, em menos de um século a aceitação do dualismo prático estendeu-se à esmagadora maioria da população. Este acontecimento trouxe consequências sociais devastadoras. A velha divisão razoavelmente estável entre solipsanos anárquicos e sociáveis desapareceu, deixando no seu lugar uma população de solipsanos que tinham escolhido uma existência perigosamente esquizofrénica.

Graças a algumas passagens da solipteca, não foi difícil identificar a causa fundamental da instabilidade que então emergiu. Quase todos os solipsanos tinham decidido viver aceitando e negando alternadamente a realidade do mundo exterior, e neste aspecto o consenso era quase global, mas a duração que tinham atribuído a cada período de vida variava bastante de indivíduo para indivíduo, já que não se mostrou possível determinar de uma maneira objectiva a duração correcta ou ideal desses períodos. Alguns preferiam uma periodização extremamente breve. Existem mesmo algumas referências a solipsanos que, aproximadamente de hora a hora, deixavam de viver segundo o solipsismo para logo depois retomarem a sua aceitação. No extremo oposto, situavam-se os solipsanos que tinham escolhido uma periodização que se desdobrava por períodos de muitos anos de duração. Entre ambos os extremos, coexistiam quase todas as possíveis soluções intermédias. No entanto, as preferências dos solipsanos em relação às periodizações estavam longe de ser arbitrárias, já que na maior parte dos casos elas resultavam da aceitação consciente de uma justificação racional. Desconhecemos muitos detalhes do debate que decorreu sobre este assunto, mas foi possível reconstituir pelo menos algumas das linhas fundamentais que o percorreram. Os defensores das periodizações longas defendiam a sua posição ao tentarem mostrar que a preferência contrária se traduzia numa derrota absoluta do modo de vida realista em termos práticos. Afirmavam que quem vive como se o mundo exterior fosse real tenderá a desenvolver projectos a médio ou longo prazo que só fazem sentido sob o suposto realista, e a procurar metodicamente os meios adequados para a sua realização. Esta tendência, que se encontra associada à disposição realista para a sociabilidade, só se poderia traduzir em resultados visíveis caso se vivesse de uma maneira suficientemente estável. Ora, quem vivesse na instabilidade permanente gerada por uma sequência de períodos demasiado breves, acabaria por nunca viver verdadeiramente como um realista, desequilibrando assim a balança e regressando ao velho solipsismo prático. Esta linha de argumentação, embora tenha sido levada em conta pela maior parte dos solipsanos, parece não ter atingido o grau de clareza e evidência que teria sido necessário produzir uma adesão sem grandes relutâncias. Contra ela, os defensores das periodizações breves apresentaram um argumento muito mais objectivo. O ponto de partida desse argumento consiste na simples afirmação da imprevisibilidade da morte: mesmo admitindo a possibilidade de uma vida imortal, há que considerar seriamente a permanente possibilidade de uma cessação súbita e inesperada da existência. Nestas circunstâncias, a adopção de uma periodização longa coloca em risco o ideal de vida dualista, e quanto mais longa for a periodização, maior será esse risco. Como pode isto suceder? Importa não esquecer que o ideal dualista prescreve uma vida temporalmente constituída por «porções» iguais de existência realista e solipsista. Suponhamos então que um solipsano com uma periodização extremamente longa, tendo vivido como um realista no primeiro período racional da sua existência, acaba por morrer quase no fim de um outro período realista. Um solipsano como esse terá então vivido menos tempo como solipsista do que como realista, e este desequilíbrio terá sido tanto mais grave quanto mais longa tenha sido a sua periodização. Sendo assim, as periodizações breves têm a vantagem indiscutível de minimizar as probabilidades de desequilíbrio por morte inesperada.

Não sabemos se este debate foi marcado por muitos outros argumentos influentes, mas sabemos que a ausência de um consenso traduziu-se num predomínio assombroso do comportamento anárquico. E não foi difícil explicar esse predomínio: como os solipsanos viviam com periodizações de duração muito variável, e como mesmo os que tinham periodizações semelhantes iniciavam cada novo período em momentos muito diferentes, todos os laços firmes de sociabilidade dissolveram-se rapidamente. É certo que os solipsanos, durante os períodos realistas, continuavam a mostrar uma disposição sociável, mas essa disposição não produzia efeitos significativos, porque a constituição de sociedades razoavelmente estáveis era inviabilizada pelas diferenças de periodização.

Este deve ter sido um dos momentos mais críticos da história da civilização solipsana. A via exacta que conduziu à sua superação ainda não está inteiramente esclarecida, mas as hipóteses aceites certamente não se afastam muito da verdade. Logo após a descoberta da ideologia do dualismo prático, os investigadores da Apocalipse sentiram que por fim estavam na posse de uma boa explicação para o comportamento migratório dos solipsanos, que assim se tornava perfeitamente compreensível como um resultado da execução dessa ideologia. No entanto, subsistia o problema de saber como decorrera a emergência do comportamento migratório regular a partir das anteriores discrepâncias de periodização. A invenção dos relógios que mais tarde acabaram por controlar o acesso a todas as cidades marcou um momento decisivo desse processo, mas não podemos ver nesse evento a única grande causa da estabilização histórica, já que ele não poderia ter decorrido sem a existência prévia de alguma organização social minimamente desenvolvida. Sendo assim, o que terá levado ao surgimento dessas primeiras sociedades baseadas no dualismo prático? Tudo nos leva a crer que esse processo decorreu segundo os desígnios cegos da pura selecção natural. A partir do caos inicial caracterizado por uma distribuição aleatória das diversas periodizações, essa mesma aleatoriedade acabou por dar origem a pequenos grupos de solipsanos com periodizações muito semelhantes. Tornou-se assim possível desenvolver alguma sociabilidade durante os períodos realistas. É claro que isso não pôde acontecer em relação aos que tinham adoptado periodizações extremamente breves, mas os que tinham escolhido viver segundo períodos bastante longos puderam usufruir de algumas das vantagens inerentes à existência em sociedade. A selecção natural favoreceu esses grupos. Certamente muitos acabaram por se dissolver, mas outros, no entanto, conseguiram aumentar em número e em poder. Ressurgiram assim algumas áreas urbanas, e aqueles que as habitavam viram-se confrontados com o desafio de procurar, durante os períodos realistas, formas de as proteger tanto dos lhes eram estranhos como de si mesmos. A invenção dos primeiros relógios veio então corresponder a esta necessidade de uma maneira extraordinariamente eficaz. Esse passo revolucionário, para além de ter reduzido muitíssimo o risco de extinção, viabilizou o desenvolvimento de uma organização social duradoura. Os solipsanos que começaram a viver sob o ritmo imposto pelos relógios de migração adquiriram grandes vantagens sobre todos os outros, já que no início de cada período realista não tinham que partir praticamente do zero. O seu esforço civilizacional produzia assim resultados cumulativos, resultados que tornavam cada vez mais manifesta a superioridade do modo de vida migratório. Como seria de esperar, esse modo de vida acabou por englobar toda a população.

Podemos dizer que essa foi a época em que os solipsanos conheceram os seus dias mais felizes. Durante os períodos realistas, assistia-se ao florescimento progressivo de uma organização social bem sucedida, e o funcionamento dos relógios garantia a sua preservação nos períodos em que os solipsanos se deslocavam massivamente para mais um incursão ao «estado da natureza» no hemisfério superior. Não há registo de qualquer tipo de conflito violento entre as cidades, e mesmo ao nível das relações individuais os períodos realistas eram marcados por um predomínio invulgar da pacifidade, explicável somente pela oportunidade de que os solipsanos dispunham para libertar todos os seus instintos agressivos durante os períodos solipsistas. Estas circunstâncias fizeram emergir uma cultura admirável, uma cultura que ainda se mostra profundamente enigmática de um ponto de vista humano.

Já aqui foi mencionada a riqueza do pensamento lógico e matemático dos solipsanos. Esse foi, sem dúvida, o domínio privilegiado da sua actividade espiritual, mas sabemos hoje que o uso das linguagens simbólicas próprias desse domínio nem sempre se destinou a finalidades estritamente cognitivas. Confrontados com inúmeras «teorias» lógicas e matemáticas aparentemente sem importância ou mesmo sem o menor sentido, os investigadores que trabalhavam em torno da solipteca decidiram interrogar alguns solipsanos sobre o seu propósito. As respostas não foram muito esclarecedoras, mas deram a entender que essas «teorias» resultavam sobretudo da experiência estética dos solipsanos. Esta descoberta inaugurou um campo de investigação inédito, onde as tentativas de melhorar a nossa compreensão dos solipsanos parecem redundar frequentemente num non sense absoluto. No vasto conjunto de obras dedicadas a este tema -- obras pouco recomendáveis para qualquer leigo -- podemos encontrar uma profusão inquietante de referências a geometrias trágicas, algoritmos barrocos ou funções metafóricas. As diferenças entre os diversos tipos de narrativas axiomáticas, onde se destacam as convergentes e as divergentes, têm captado uma atenção particularmente intensa. Um outro foco de interesse é aquele que tem incidido sobre a arte «underground» solipsana, um estilo artístico que nunca foi muito apreciado, identificável em grande parte pela presença de um gosto obsessivo por falácias extremamente subtis e pela acumulação de resultados paradoxais. Sabemos que os apreciadores deste estilo procuravam atingir estados de fruição estética muitíssimo angustiantes, acabando frequentemente por cometer suicídio. No extremo oposto destes horizontes sombrios, encontramos muitas «teorias» solipsanas que, segundo a opinião predominante, devem ser concebidas sobretudo como obras humorísticas. Entre as curiosidades encontradas nesta área podemos apontar, por exemplo, um sistema de lógica modal com oito quantificadores e trezentos e vinte seis valores de verdade que, segundo parece, tem resultados que despertam reacções profundamente hilariantes na maior parte dos solipsanos. É certo que através de uma mistura insólita de matemática, teoria da arte e psicologia extraterrestre, continuam a decorrer as pesquisas sobre o significado das obras de arte solipsanas, mas já são muitos os que defendem o abandono deste campo de investigação por acreditarem que ele só se pode traduzir em afirmações sem sentido sobre um horizonte estético a que nunca poderemos aceder.

Sobre os múltiplos aspectos da cultura da era migratória, devemos também destacar aqueles que se referem à experiência religiosa dos solipsanos. A religiosidade solipsana, caracterizada por uma crença frequente na existência de Deus durante os períodos realistas, começou por se nos apresentar como uma descoberta surpreendente. Se os solipsanos se mostravam sempre tão cépticos quanto à existência do mundo físico, como se dispunham tão facilmente a acreditar na existência de Deus? Este enigma, no entanto, não inviabilizou a compreensão do pensamento teológico dos solipsanos, sem dúvida mais acessível que a sua actividade estética. À semelhança da teologia tipicamente humana, a teologia solipsana centra-se numa representação de Deus onde se destaca a sua omnipotência e a sua benevolência. A existência do mal, também reconhecida pelos solipsanos, confrontou-os com um dos problemas teológicos mais discutidos na nossa galáxia (ver RELIG/TEOL/22): se Deus realmente pode fazer tudo e deseja o bem, como é possível explicar a existência do mal? Os solipsanos, mantendo a crença na omnipotência e na benevolência de Deus, conseguiram explicar a existência do mal de uma maneira muitíssimo adequada à sua teia de crenças. Para esse efeito, limitaram-se a excluir a omnisciência da sua representação de Deus. À primeira vista, a própria omnipotência parece implicar a omnisciência -- se Deus pode fazer tudo, então pode saber tudo --, mas os solipsanos furtaram-se a esta conclusão ao esclarecerem o alcance da omnipotência divina. Deus não pode fazer com que as coisas são não sejam idênticas a si mesmas, Deus não pode fazer do número cinco o resultado da soma de dois com dois, e no entanto estes «limites» ao poder divino não refutam a omnipotência de Deus, simplesmente porque não podemos esperar que um ser omnipotente faça o que é absolutamente impossível de se fazer. Ora, pensaram os solipsanos, a demonstração da realidade de um mundo exterior é uma impossibilidade absoluta para qualquer sujeito cognitivo, e é por isso que Deus, mesmo sendo omnipotente, não pode saber se o mundo que criou é ou não é real. A racionalidade de Deus leva-o então a agir durante metade do tempo sob o pressuposto de que a sua obra é real, e a agir durante a outra metade, obviamente, sob o pressuposto contrário. Todo o mal existente no mundo torna-se assim explicável como um resultado dos actos divinos praticados durante os períodos em que Deus procede como se as suas criaturas não fossem reais.

Esta imagem de Deus reflecte de uma maneira extraordinariamente nítida a teia de crenças dos solipsanos. Já se tornou claro que essa teia, embora esteja centrada num cepticismo radical em relação à realidade de todo o mundo físico, não nos permite caracterizar os solipsanos como uma espécie vitimada por alguma loucura colectiva. A sua racionalidade não pode ser seriamente colocada em questão. Reafirmamos que os solipanos, para além de terem procurado justificar as suas crenças fundamentais de uma maneira objectiva, esforçaram-se também por agir sempre em conformidade com essas crenças. Toda a história dos solipsanos se estruturou pela procura ininterrupta de um modo de vida racional. Na verdade, quase que podemos identificar essa história, num estilo idealista, com a história do próprio pensamento solipsano, e é isto que faz com que os solipsanos nos pareçam irremediavelmente estranhos. As condições económicas ou tecnológicas nunca fizeram funcionar o motor da sua história de uma maneira decisiva. Foi a argumentação filosófica que desempenhou esse papel, e fê-lo com uma exclusividade surpreendente. Já vimos como o surgimento inesperado de um novo argumento filosófico desencadeou instantaneamente um vasto processo revolucionário. Nada parece estar mais longe da nossa própria história, onde a influência das ideias filosóficas, nas raras ocasiões em que se faz notar com clareza, tem de se desenvolver através de uma longa rede de mediações e pressupõe a existência de condições sociais muito favoráveis. O mesmo pode ser dito sobre qualquer outra das espécies inteligentes conhecidas. Sendo assim, a que diferença podemos atribuir a excepção instanciada pelos solipsanos?

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A história solipsana parecia avançar quase sempre de «cima» para «baixo» ou, se preferirmos a terminologia marxista, da superestrutura para a infraestrutura. Esta ilusão ontológica, no entanto, desvaneceu-se irreversivelmente quando os solipsanos começaram a ser estudados a um nível ainda mais «baixo», ou seja, não através da sua organização política e económica, não através das suas condições tecnológicas, mas através da sua estrutura puramente biológica. Foram os biológos da Apocalipse 1 que descobriram o aspecto crucial da extraordinária da biosfera solipsana, marcada por uma singularidade que se manifestou de uma forma progressivamente complexa e diversificada ao longo da história natural de Solipse, uma singularidade que ainda hoje continua a surpreender-nos. A estrela Hertz recebeu o seu nome devido a essa singularidade, devido à admirável biosfera hertziana de Solipse, uma biosfera que evoluiu em função de uma estranha capacidade partilhada pela maior parte das espécies que nela emergiram: a capacidade de emitir dados sensorais ilusórios através das ondas hertzianas apropriadas.

A origem da actividade biológica hertziana permanece enigmática (ver SOLIP/BIO/30 e seguintes), mas pelo que sabemos tudo terá começado com a «invenção da rádio», isto é, com o surgimento da capacidade para usar o sistema nervoso das espécies dotadas de audição como um receptor radiofónico. Os emissores conseguiam assim capturar as suas presas com mais facilidade, induzindo-lhes alterações na percepção auditiva capazes de as atrair para áreas que as deixavam vulneráveis. Outros emissores, pelo contrário, limitavam-se a suprimir os ruídos suscitados pela sua própria presença, e aumentavam também desta maneira as probabilidades de uma captura bem sucedida. A tendência para uma especialização no sentido da «sedução» ou da «dissimulação» -- técnicas usadas tanto para fins ofensivos como defensivos --, surgiu assim logo nesta fase inicial, onde as espécies que dependiam demasiado do seu sentido auditivo acabaram por se extinguir. Toda esta situação, no entanto, não redundou na destruição do valor da audição como instrumento de sobrevivência, já que muitas das espécies usadas como receptores desenvolveram também capacidades emissoras capazes de iludir aqueles que procuravam enredá-las no mesmo tipo de ilusão. Desenvolveu-se assim uma escalada evolutiva onde presas e predadores se especializaram tanto em reconhecer de uma maneira cada vez mais subtil os dados auditivos ilusórios como em emitir representações ilusórias cada vez mais perfeitas, mais próximas do ambiente auditivo normal. Esta escalada, no entanto, sofreu uma viragem brusca quando se deu o segundo grande salto evolutivo: a «invenção da televisão».

A capacidade de induzir ilusões visuais foi, sem dúvida, uma das maiores conquistas que atravessou a biosfera solipsana, uma conquista só igualada na seu impacto evolutivo pelo surgimento da trissexualidade e da própria actividade hertziana. Uma nova época de extinções em massa traduziu-se numa mudança radical nas regras e nos participantes do jogo inter-específico. O enredo hertziano ascendeu a grau ainda mais elevado de subtileza nas técnicas de ilusão sensorial e no equilíbrio daí resultante. Enquanto emissores, os solipsanos não só desenvolveram gradualmente a qualidade das representações visuais emitidas como também enfrentaram o desafio de as tornar coerentes com as representações ilusórias auditivas. O surgimento desta capacidade fez emergir, ao nível da dimensão receptiva, o desenvolvimento gradual de técnicas para detectar as mais ínfimas discrepâncias entre os dados obtidos pelos diversos sentidos. Este tipo de procedimento comparativo tornou-se decisivo tanto ao nível da emissão como ao da recepção, e em ambos os níveis deu origem às primeiras relações inter-específicas de simbiose fundadas em laços hertzianos. Na maior parte dessas relações intervinham certas espécies solipsanas que se destacavam, enquanto emissoras, pela qualidade das imagens visuais produzidas, mas que não eram muito dotadas na produção de ilusões auditivas e não se mostravam especialmente felizes na articulação dos dois tipos de informação sensorial. Nestas circunstâncias, preferiam enviar as suas emissões visuais a outras espécies, que acabavam por retransmiti-las depois de as terem incorporado convenientemente em ilusões auditivas. Os resultados obtidos desta forma geralmente beneficiavam ambas as espécies, excepto nos casos em que os indivíduos da espécie retransmissora usavam os dados recebidos para iludir a sua própria fonte de informação visual ilusória. Estes casos de traição, no entanto, parecem ter sido sempre muito raros, mas o mesmo já não pode ser dito sobre os casos de pseudo-traição, onde o indivíduo da espécie «traída» comete o erro de enviar dados para retransmissão a um indivíduo de uma espécie que, na verdade, conseguiu iludi-lo ao fazer-se passar por um indivíduo da espécie apropriada para a relação simbiótica. Através de um exemplo como este, podemos entrever alguma da complexidade que começou a marcar as relações inter-específicas depois da «invenção da televisão», uma complexidade produzida não só pelos mais diversos tipos de simbiose emissora, mas também por uma diversidade igualmente prodigiosa de simbiose na detecção de ilusões. Em ambos os níveis, a especialização atingiu graus elevadíssimos, principalmente em relação aos dados visuais: certas espécies distinguiam-se no tratamento das propriedades cromáticas, outras ao nível da luminosidade, outras ainda na sua capacidade para lidar com formas geométricas. Os esquemas de simbiose mais eficazes resultavam da distribuição desigual de capacidades como estas. Nos ecossistemas mais densos eram tantas as espécies que corriam o risco de se tornarem vítimas de ilusões para as quais tinham contribuído que muitas delas acabaram por desenvolver uma tendência para produzir ilusões subtilmente imperfeitas, ilusões que continham uma certa «marca pessoal» quase indetectável, de modo a poderem reconhecê-las caso lhe fossem devolvidas com o propósito de induzir em erro.

É certo que a «invenção da televisão» marcou o maior salto evolutivo na actividade hertziana da biosfera de Solipse, mas não podemos ignorar algumas das invenções que se lhe seguiram. Correndo o risco de ceder a um antropomorfismo excessivo, podemos dizer que uma dessas invenções se traduziu na emissão de ilusões com um conteúdo «olfactivo». Essa inovação, no entanto, veio a não se mostrar significativa, já que com ela o «olfacto» dos solipsanos acabou quase por desaparecer. O mesmo sucedeu em relação a um certo tipo de «sensibilidade eléctrica», que chegara a ser bastante frequente e importante antes de ter entrado na teia hertziana. Já as ilusões com um conteúdo táctil tiveram um futuro bastante promissor, embora a esse nível a perfeição ainda hoje se continue a apresentar como um ideal distante. Seja como for, a verdade é que foram muitas as espécies que acabaram por triunfar devido aos seus talentos para lidar com ilusões tácteis, e não podemos negar que o desenvolvimento desses talentos, ao associar-se às capacidades auditivas e visuais, veio aumentar significativamente a complexidade das relações inter-específicas. Seria errado pensar, no entanto, que toda essa complexidade que temos vindo a referir partiu sempre da invenção de novos tipos de ilusão sensorial. Há também que apontar um factor determinante que até ao momento não foi mencionado: as diferenças que sempre se registaram e acentuaram no hardware sensorial das múltiplas espécies solipsanas. Devido a essas diferenças, uma emissão capaz de iludir quase todos os elementos de uma certa espécie acabava por não ter qualquer eficácia sobre os elementos de outra espécie. Deste modo, para além de procurarem produzir ilusões sensorialmente convincentes, os solipsanos enfrentaram sempre o desafio de ajustar as suas emissões às singularidades perceptivas das espécies visadas. Esta condição geral de todo o jogo hertziano produziu espécies com técnicas de defesa extremamente peculiares. Entre essas técnicas, a mais frequente encontra-se em espécies que desenvolveram múltiplos orgãos sensoriais do mesmo tipo com qualidades perceptivas diferentes. O caso mais notável é o de uma espécie cujos elementos, para além de terem dezasseis pares de olhos, conseguem obter um tipo de visão diferente com cada um desses pares, o que os torna praticamente imunes a ilusões visuais, já que esta característica lhes permite detectar esse tipo de ilusões através do confronto permanente entre os dados recebidos pelos seus diversos olhos. Uma estratégia bastante diferente, mas igualmente eficaz, é aquela que podemos encontrar nas espécies que desenvolveram grandes variações no hardware sensorial dos seus diversos elementos. Os inimigos potenciais de uma destas espécies, quando são confrontados com algum dos seus elementos, encontram assim muito mais dificuldades em iludi-lo, já que as diferenças intra-específicas de percepção inviabilizam qualquer «receita» fixa que possa ser eficazmente aplicada a todos os que pertençam a uma espécie com este tipo de defesa.

Os traços gerais da biosfera solipsana que temos vindo a descrever podem parecer-nos bastante estranhos. Devemos evitar esta perspectiva, caso queiramos ter uma noção daquilo que realmente é estranho mesmo à luz padrões solipsanos de normalidade. Todas as biosferas suficientemente ricas acabam por dar origem às suas próprias excentricidades, e em Solipse esta regra não encontrou qualquer excepção. Os género dos inversores, por exemplo, merece ser mencionado a este respeito. Os inversores são predadores de pequeno porte individualmente inofensivos, mas colectivamente imbatíveis. O que os distingue, no entanto, é a sua técnica de ilusão. Uma tribo de algumas centenas de inversores, depois de ter escolhido uma área consideravelmente ampla, instala-se nela e dá início à sua actividade. Durante algumas semanas, os inversores vão alterando toda essa área em múltiplos aspectos, até que esta fica com a aparência de uma ilusão sensorial pouco conseguida. Depois, sempre que uma presa potencial chega à área transfigurada e sente estar a sofrer uma ilusão, os inversores começam a emitir ilusões genuínas, ilusões com um grau elevadíssimo de perfeição. A presa, ainda potencial, comete então o erro de sentir que regressou à realidade, quando na verdade estava a começar a abandoná-la. Esse costuma ser o seu último erro.

Muito menos subtil, mas igualmente invulgar, é a técnica própria dos assimuladores. Contrariamente a quase todos os outros solipsanos enredados na teia hertziana, os assimuladores não procuram ser fidedignos nas suas ilusões. Na verdade, a eficácia da sua estratégia repousa em talentos anti-realistas: atacam as suas presas e defendem-se dos seus predadores através de emissões que os deixam mergulhados em estados súbitos de profunda desorientação sensorial, em estados perceptivos próximos da sinestesia total. Este tipo de incapacidade para produzir ilusões próximas do ambiente normal também caracteriza a mais sinistra das espécies solipsanas: a espécie dos cartesiadores, conhecidos entre os biológos por «génios malignos». Dada a fraca qualidade das suas ilusões, um génio maligno é incapaz de iludir qualquer solipsano adulto, e por isso escolhe as suas vítimas entre as crias das espécies que lhe servem de alimento. Depois de capturar uma das suas vítimas, o génio maligno vai alimentando-a enquanto a mantém num estado permanente de ilusão. Pelo que sabemos, o mundo ilusório transmitido inclui certas fronteiras que evitam a fuga da vítima. Essas fronteiras não a perturbam nem lhe parecem estranhas, já que fazem parte do ambiente que sempre conheceu. Por fim, quando a vítima atinge o peso suficiente, o génio maligno, que sempre se tinha apresentado como seu progenitor, devora-a sem dela deixar o menor vestígio.

O problema de saber se os génios malignos possuem algum tipo de inteligência tem sido bastante discutido, mas este assunto inscreve-se numa controvérsia muito mais ampla, já que se coloca o mesmo problema em relação a oito espécies extintas. Este número de espécies inteligentes ou próximas da inteligência é tão elevado que não pode ser visto como o resultado de uma simples coincidência estatística. Os biólogos acreditam que a biosfera de Solipse, com todo o seu enredo delicado ilusões hertzianas, possui condições que favorecem extraordinariamente o desenvolvimento da inteligência. No entanto, a breve vida das oito espécies mencionadas constitui um indício intrigante das grandes dificuldades que as espécies supostamente inteligentes sempre tiveram de enfrentar logo depois de terem surgido. Seja como for, só uma única espécie atingiu o nível da vida civilizada: aquela que atraiu a humanidade a Solipse por se estar a encaminhar rápida e misteriosamente para a extinção. De um ponto de vista biológico, esses solipsanos, os solipsanos em que temos centrado a nossa atenção, devem o seu sucesso no jogo inter-específico a uma peculiaridade que só eles desenvolveram. Embora as suas aptidões sensoriais sejam bastante fracas, sobretudo ao nível da emissão, foi neles que emergiu uma capacidade emissora de um tipo inteiramente novo: a capacidade de emitir emoções. Ao induzir estados mentais de medo e dor nos seus potenciais predadores, e de tranquilidade e prazer nas suas potenciais presas, os nossos solipsanos conquistaram uma posição singularmente privilegiada na biosfera de Solipse. O papel desta capacidade para induzir emoções pode ser comparado ao papel que a mão humana desempenhou na emergência da nossa espécie. O surgimento da emissão de emoções, tal como o surgimento da mão humana, veio reforçar decisivamente o desenvolvimento da inteligência. A inteligência solipsana, no entanto, depois de se ter traduzido na aptidão para raciocinar através de símbolos, esbarrou inevitavelmente na questão da realidade do mundo exterior. A herança genética dos solipsanos inteligentes, profundamente moldada pela actividade hertziana que acabámos de descrever, produziu dispositivos para a formação de crenças muito diferentes dos nossos. Os solipsanos evoluiram de uma maneira que aguçou extraordinariamente a sua disposição para desconfiar de toda a informação recebida pelos sentidos, e esta disposição, tendo-se incorporado no nível do pensamento conceptual, resultou num cepticismo fortíssimo quanto à realidade do mundo físico. Já as crenças relacionadas com a experiência do tempo, por exemplo, ficaram fora do alcance desse cepticismo, porque essa experiência permaneceu sempre imune às ilusões hertzianas. Também não nos deve surpreender o facto de os solipsanos, depois de admitirem a realidade do mundo exterior, se disporem facilmente a acreditar em Deus. Dadas as condições biológicas que produziram o pensamento solipsano, mostra-se mais problemático acreditar na realidade do mundo exterior do que na própria existência de Deus. À medida que vamos conhecendo melhor todas essas condições, a perplexidade sentida inicialmente em relação aos solipsanos civilizados acaba por ceder infalivelmente a esta questão: como poderiam eles ser de outro modo?

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Afinal, por que tinham os solipsanos mergulhado numa profunda crise civilizacional, marcada pela dissolução repentina do modo de vida dualista? Por que se encaminhavam rapidamente para a extinção? Mesmo perante os factos conhecidos sobre a cultura e a biologia dos solipsanos, este enigma persistiu teimosamente. A solipteca não continha quaisquer dados esclarecedores a este respeito, até porque toda a informação nela reunida era anterior ao início da crise civilizacional. Os investigadores da Apocalipse viram-se assim confrontados com a necessidade de encontrar respostas através do contacto directo com os solipsanos sobreviventes. Suspeitavam já que a postura solipsista tinha adquirido uma grande supremacia. Teria ocorrido algum retorno massivo ao velho modo de vida do solipsismo prático? Talvez. Mas como? Porquê? A forte disposição suicida de todos os solipsanos capturados bloqueava as investigações. Os biólogos tentaram desesperadamente encontrar uma maneira de impedir a realização dessa disposição, de modo a que assim fosse possível forçar o diálogo, mas nunca estiveram próximos de ser bem sucedidos. Esta estratégia foi cancelada por ordem do próprio Musaazi.

Parecia assim que o regresso à Terra iria ocorrer sem as respostas desejadas. No entanto, a decisão de Musaazi partira do propósito de poupar ao máximo os recursos disponíveis, para que a permanência em Solipse se pudesse prolongar vários meses para além da data inicialmente prevista. E isto para que por fim fosse possível compreender os motivos da crise solipsana. Mas como? Consta que enquanto decorria a agitação proveniente da captura de solipsanos, Musaazi continuara a interrogar-se sobre um acontecimento cuja importância entretanto fora menosprezada: a fuga dos solipsanos «normais» após a recolha da solipteca. Fazendo uso do calendário que vigorara durante a era do dualismo prático, Musaazi verificou que esse estranho episódio tinha coincidido aproximadamente com o fim de mais um período realista. Isto sugeria que esses solipsanos eram de facto defensores da filosofia dualista, tendo por isso abandonado a sua cidade quando se iniciara um novo período solipsista da sua vida. Sendo assim, era de prever que na data em que esse período terminasse eles retomassem a atitude realista e regressassem à sua cidade. Seria então mais fácil estabelecer o contacto desejado.

Exactamente na data prevista, identificou-se a presença de um grupo organizado de solipsanos «normais» nas ruínas da cidade onde fora descoberta a solipteca. Não foi difícil iniciar o contacto com aqueles que se apresentaram como líderes desse grupo. Estes não pareceram surpreendidos por estarem a lidar com seres humanos, e dispuseram-se a corresponder à curiosidade dos investigadores, mas só até certo ponto. Toda a crise civilizacional que se vivia em Solipse, disseram, resultara do surgimento de um argumento poderosíssimo a favor do solipsismo. A esmagadora maioria dos solipsanos aceitara esse argumento, e assim rejeitara todo o modo de vida dualista, preferindo viver num estado de anarquia bruta. Mesmo muitos dos que ainda defendiam o dualismo prático acreditavam no solipsismo, e só mantinham o de vida migratório por este estar de acordo com os seus desejos pessoais. Apesar das circusntâncias, existiam ainda alguns solipsanos que alimentavam a esperança de discernir alguma falácia que arruínasse o argumento a favor do solipsismo, e por esse motivo conservavam uma atitude de puro cepticismo quanto à questão da realidade do mundo exterior. Os líderes que participaram no diálogo com os investigadores da Apocalipse contavam-se entre esses solipsanos. Pretendiam reabilitar a filosofia dualista, e durante os seus períodos realistas lutavam desesperadamente pela conservação da sua cidade e da cultura em que ela se desenvolvera. Por isso, depois de se terem mostrado agradecidos por os humanos terem impedido a destruição da solipteca, reclamaram a sua devolução. Como toda a informação da solipteca já tinha sido apropriadamente copiada, parecia não haver qualquer motivo para não corresponder ao pedido dos solipsanos. No entanto, surgiram algumas dificuldades inesperadas. Os investigadores da Apocalipse queriam conhecer detalhadamente o argumento que despoletara a crise civilizacional, mas os solipsanos declararam que não podiam comunicá-lo antes de lhe ser devolvida a solipteca. Receavam que os investigadores, depois de terem conhecido o argumento, ficassem imediatamente convertidos ao solipsismo e depois não correspondessem ao seu pedido, já que nessas circunstâncias deixariam de acreditar na existência real da solipteca e daqueles a quem esta pertencia. Os investigadores receavam que os solipsanos, depois de terem tudo o queriam, se retirassem mais uma vez sem dar satisfações. De nada serviu tentar explicar-lhes que por muito bom que fosse o argumento nenhum humano conseguiria aceitar realmente a sua conclusão. Os solipsanos, depois de terem reconhecido os humanos como seres racionais, pareciam não compreender como isso era possível. Neste ponto o diálogo começou a tornar-se verdadeiramente difícil, mas os investigadores da Apocalipse acabaram por ceder. Antes, no entanto, tomaram providências no sentido recuperar a solipteca caso os solipsanos deixassem de colaborar.

Não foi necessário recorrer a essa estratégia. Depois de um diálogo marcado por alguns desentendimentos linguísticos, foi possível reconstituir o estranho argumento solipsano a favor do solipsismo. Dada a sua importância histórica, não podemos deixar de o apresentar aqui, modificando apenas os exemplos originalmente usados. Todo o argumento é essencialmente probabilístico. Nele parte-se da atribuição de uma probabilidade inicial às duas hipóteses de resposta para a questão da realidade do mundo exterior. Começamos assim por supor, seguindo a doutrina dualista, que é tão provável que o solipsismo seja verdadeiro como que seja falso, ou seja, já que não existem quaisquer dados que favoreçam uma das hipóteses, atribuímos uma probabilidade «subjectiva» de 50% tanto ao solipsismo como ao realismo. Até aqui nada de novo. Mas suponhamos agora que a hipótese realista é a verdadeira, e consideremos esta questão desconcertante: qual será a probabilidade de os objectos de um certo tipo, e apenas esses, serem irreais? Supondo que o mundo exterior é real, qual será a probabilidade de tudo nele ser real excepto, por exemplo, os mamíferos? Essa probabilidade, respondem os solipsanos, é de 25%. Porquê? Partimos dos 50% atribuídos à hipótese realista. Depois, ao considerarmos a possibilidade de, sendo o mundo exterior real, tudo nele ser real excepto os mamíferos, verificamos que não existem quaisquer dados que favoreçam esta hipótese em relação à sua negação. Ela deve por isso ser considerada tão provável como a sua negação, e assim somos levados a repartir equitativamente os 50% da hipótese realista. Neste ponto há que assinalar uma consequência interessante: se a probabilidade de tudo ser real excepto os mamíferos é de 25%, então a probabilidade de os leões, por exemplo, serem irreais, é pelo menos de 25%, já que os leões contam-se entre os mamíferos. Podemos compreender o interesse desta consequência se agora considerarmos esta questão: partindo novamente do suposto de que o mundo exterior é real, qual será a probabilidade de, por exemplo, ser verdadeira a hipótese de tudo nele ser real excepto os gorilas? Como mais uma vez não existem dados que permitam favorecer esta hipótese perante a sua negação, devemos também atribuir-lhe uma probabilidade de 25%. Aqui entramos em sérias dificuldades. Neste cenário, qual será a probabilidade os leões serem irreais? Essa probabilidade tem de ser inferior a 25%, já que metade dos 50% atribuídos ao realismo pertence à hipótese em que, sendo o mundo exterior real, só os gorilas não são reais, e os restantes 25% não podem ser totalmente atribuídos à hipótese de os leões serem irreais, já que devemos atribuir também alguma probabilidade, por exemplo, à hipótese em que só os gatos ou só as moscas são irreais. Chegamos assim a uma conclusão claramente contraditória: a probabilidade de os leões serem irreais é e não é inferior a 25%. E os resultados absurdos, obviamente, não ficam por aqui. Se, por um lado, atribuímos uma probabilidade de 25% tanto à hipótese em que só os mamíferos são irreais como à sua negação, e, por outro lado, fazemos o mesmo com a hipótese em que só os gorilas são irreais, excedemos a probabilidade de 50% atribuída hipótese realista, entrando assim em contradição com a ideia de que tanto o realismo como o solipsismo têm a mesma probabilidade. Não é necessário apresentar outras consequências paradoxais exploradas pelos solipsanos para avançarmos para o ponto crucial do seu argumento: como a hipótese de que o mundo exterior é real conduz a resultados contraditórios, ela não pode ser verdadeira. Através desta estratégia de redução ao absurdo, conclui-se que o solipsismo é verdadeiro, que todo o mundo exterior consiste apenas numa construção involutária da mente de quem dele tem experiência.

Pelo que sabemos, a discussão dos aspectos probabilísticos deste argumento atingiu um nível técnico muito mais avançado. As dificuldades associadas ao chamado «princípio da indiferença», em especial, continuam a ser debatidas pelos solipsanos, sobretudo entre a minoria que procura manter-se céptica em relação a este problema. No entanto, a adesão geral dos solipsanos à tese solipsista parece não ter enfraquecido, em grande parte por não ser possível construir um argumento análogo que coloque o solipsismo em dificuldades semelhantes. Isso acontece, simplesmente, devido uma assimetria ontológica inescapável: enquanto que é possível que, sendo o mundo exterior real, algumas coisas não sejam reais, é absolutamente impossível que o mundo exterior, sendo irreal, inclua algumas coisas reais.

O regresso da Apocalipse 1, para além de ter suscitado uma vaga multidisciplinar de «estudos solipsísticos», colocou uma vez mais a humanidade perante o problema ético de saber se será ou não imoral interferir na história de uma civilização extraterrestre, um problema que no caso dos solipsanos se reveste de uma gravidade especial, já que é a sua própria extinção que se encontra em causa (ver EXTR/ETC/23). Há quem acredite que a selecção natural acabará por favorecer decisivamente os defensores do anterior modo de vida dualista, mas as últimas notícias não têm corroborado este ponto de vista. Seja como for, é sem dúvida a primeira vez que a exploração galáctica nos faz enfrentar o problema insólito de salvar uma espécie inteligente que se recusa a acreditar na nossa própria realidade.

Pedro Galvão
galvao.no.sapo.pt

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