V A M P E L - II

Matrimonium Lamia Noctis

Obs: Este conto é uma sequência de

VAMPEL - Vocationem Lamia Noctis

Pela enésima vez vieram lhe perguntar onde deveriam ficar algumas mesas e cadeiras, as últimas, por sorte. Coordenar 17 pessoas para organizar toda a estrutura da festa no começo até foi interessante, mas agora se tornava exaustivo. - Não muito perto da bancada. - Disse ele a dois fortes homens que carregavam a penúltima mesa, de metal pintado em branco, depositando-a no local adequado e imediatamente coberta por uma das moças com delicado forro de seda avermelhado sob renda branca.

Enfim, as 30 mesas estavam postas, com um total de 180 cadeiras, todas do mais refinado material. Nada de plástico ou de metais leves que se costuma ver nos restaurantes populares. Sob a suntuosa cobertura de lona, que mais parecia um estrutura de madeira, o alto nível da decoração estava estampado em toda parte, e só seria equiparado pelo buffet e pela música ao vivo de um quarteto de cordas e um piano.

Mal podia acreditar que estava vivendo aquele momento. Iria se casar! Um casamento tão inesperado para ele quanto para sua família. Anunciado há menos de 3 meses, e que levantaria comentários entusiasmados, e fofocas intermináveis, por mais tempo do que ele estava disposto a dar atenção.

Na verdade o Sr Bertoni, mordomo da casa, ficara com a maior parte dos preparativos, mas Denilson fez questão de se envolver também, sob protestos de seus futuros empregados. - Não é certo o noivo trabalhar tanto. - Dissera a governanta.

- Não se preocupe senhora... Quem tem que demorar se arrumando é a noiva.

O sol já caminhava para o horizonte, era hora de ir acordá-la. Deixou a parte externa onde se daria a cerimônia, sob o céu ainda azul e pouquíssimas e inofensivas nuvens. Escolheram um mês do ano em que jamais se registrara uma chuva forte naquela região.

Na sala, se dirigiu para a escadaria que dava ao subterrâneo, adentrando aquilo que alguns reconheceriam como se fosse um corredor de hotel, com as portas dispostas alternadamente à esquerda e a direita. Ao final do corredor dobrou à esquerda, onde a luz natural do dia já não mais chegava, dependendo inteiramente de iluminação artificial.

Depois dobrou à direita duas vezes, enfim chegando à grande porta dupla de madeira em cor vinho. Digitou o código e a porta se abriu. Entrou, fechou, e dentro da luxuosa sala ainda havia mais um lance de escadas para baixo. Finalmente entrou no segundo nível subterrâneo, iluminado apenas com sutil luz neon vindo por baixo das paredes com um efeito quase mágico. Ao centro, a enorme cama com um dossel de renda rosa, onde ela dormia profundamente, em total imobilidade, sem respirar.

Mas passou direto, tirou a roupas e foi para a suíte onde tomou um banho, e só então, de roupão, voltou, abriu as cortinas do dossel e subiu na cama. E a contemplou.

Ludmilla Vampel, sua noiva, ainda estava em sua profunda hibernação. Um sono bem mais pesado que o da maioria das pessoas normais. Somente um estímulo extremo a acordaria. Ele se agachou de frente a ela, observando a total imobilidade. O corpo virado para cima, mas a cabeça para o lado, uma das mãos sobre colo, outra esticada sobre o lençol.

Já não mais a achava fria. Era capaz de sentir o calor sutil especialmente nas partes mais quentes de seu corpo. Mas a imobilidade daria arrepios num desavisado. Daqui a alguns anos teriam que simular sua morte, e seria bem fácil enganar a todos deixando o corpo dela exposto num caixão. Impossível notar que estaria viva.

Então ele se deitou, ergueu a mão dela e repousou a cabeça entre seus seios, colocando a mão de volta sobre seu rosto.

Dormiria um pouco até ela acordar.

A NOIVA

Lamianoctis Hematophagus não sonham. Apesar de seu sono durar quase 12 horas, é como se, no máximo, tudo corresse em menos de uma. Estando devidamente instalados, fecham os olhos. A mente divaga por um momento, como nas pessoas comuns, gradativamente se perdendo num caos mental até o completo blecaute. Ininterrupto por cerca de 10 horas. Então, como se fosse um mero piscar de olhos, ou talvez apenas um fechar para um breve relaxamento, a mente começa a emergir da inconsciência, subindo os degraus da ordem cognitiva até finalmente atingir a plena atividade racional. Então, abrem os olhos.

Mas neste breve momento de escalada rumo ao despertar, pode ocorrer o que há de mais próximo ao sonho. Na realidade uma reflexão, predominantemente consciente, mas difusa, que quando relembrada após o despertar tem uma aparência onírica.

E nessa escalada ela se lembrou que aquela seria uma noite muito importante, embora ainda não estivesse claro o porquê. Sabia que seu amado a esperava, e se lembrou do quanto era bom tê-lo, e do medo de perdê-lo. E se lembrou daquela noite, quase um e meio século atrás, em que voltando para casa após um tolo e superficial desentendimento, se arrependia do que lhe havia dito, da cobrança de fidelidade que fizera quando ele lhe confessara, após insistência, que sentia saudades da amante. Quando ele confessou que sua necessidade carnal o incomodava. E ela o repreendera crendo que ele já devia ter superado essa fase.

Que apenas o amor dela deveria ser suficiente.

Ele concordou, e se sentiu culpado. Lhe garantiu que controlaria a libido, que sua companhia lhe bastava, e só então soube que ela teria que se ausentar para compromisso inadiável, e que ele não poderia acompanhá-la.

Caminhando com seu típico vestido do século XIX, após descer da charrete tomando a estrada poeirenta rumo à casa mais afastada da cidade, ainda intrigava o cocheiro que a trouxe, pois dispensara a lanterna apesar da inesperada escuridão.

A iluminação elétrica ainda não existia, mas as lâmpadas a óleo deveriam estar acessas naquela noite sem lua. Brasílio se esquecera de acendê-las? Não. Percebera que na verdade ainda estavam quentes. Haviam sido apagadas!

Tendo sumido na escuridão, o cocheiro ainda perguntou se ela estava bem. De longe ela confirmou e insistiu que ele poderia ir embora. Enxergava com nitidez mesmo abaixo das árvores que ocultavam a débil luz das estrelas. Havia lamparinas acessas dentro da casa, mas mal seriam perceptíveis para olhos normais.

Então, antes que seus ouvidos captassem algo, sentiu uma presença estranha. Algo muito anormal estava ocorrendo.

Podia ser aquilo? A coisa da qual tomara conhecimento há poucas noites atrás e que acabara de ser citada na reunião da qual estava voltando?

Correu, ignorando a delicadeza do vestido, e quando percebeu a agitação no sobrado, não podia perder tempo abrindo a porta e subindo pela escada. Saltou para o telhado da varanda, quebrando algumas telhas e se atrapalhando, rasgando o vestido sem perceber, com a atenção toda concentrada pelos sons que vinham da janela aparentemente arrombada.

Entrou no quarto e se deparou com uma cena que mesmo em seus mais de 350 anos de vida jamais pensara ser possível.

Brasílio estava na cama, as roupas rasgadas, aterrorizado, sob uma criatura demoníaca de pele acobreada, chifres, longa cauda de seta que enrolava as pernas de seu amado, imobilizando-as, e imensas asas cujos dedos da articulação seguravam os pulsos dele contra a cama enquanto ela tinha mãos livres para se acariciar e se extasiar, completamente nua, num ato sexual selvagem.

Por uns momentos a cena a paralisou. Havia ouvido falar na existência daquelas criaturas, as súcubos, há menos de um mês quando estivera de viagem no Rio de Janeiro. Relutou em acreditar. Mas nesta mesma noite recebeu um convite de alguns representantes da Sociedade Lamianoctis, e teve que comparecer à reunião no centro da cidade, que, entre outras pautas, comentou brevemente que houvera uma atividade de súcubos naquela região.

E agora a criatura estava ali, cavalgando sobre seu amado, que parecia muito mais assustado do que agraciado.

Vampel avançou contra ela, que só então lhe prestou atenção, libertando um dos pulsos dele para lhe atacar com a asa. A vampira a agarrou e tentou puxá-la, mas a súcubo puxou a asa de volta e atacou de novo, desta vez Vampel, que naquela época havia acabado de mudar seu nome para Helena assumindo nova identidade, se desviou da asa e agarrou a criatura pelo corpo, puxando-a enfim de cima de Brasílio.

Se engalfinharam brevemente numa mediação de forças, e não demorou para que a súcubo percebesse que sua adversária não era uma mulher normal. Aliás, era mais forte do que ela! E saberia que era mais forte que qualquer homem não fosse o fato de homem algum jamais ter oferecido resistência a ela.

Afastando-se compensou aquela inferioridade com os membros extras. As garras dos polegares das asas e a cauda de seta atacando junto com os braços até conseguir empurrar a vampira contra a parede.

Assustada, a súcubo saltou pela janela, mas Helena foi atrás e a impediu de subir agarrando-se em sua cauda. O frustrado vôo se limitou a alguns metros adiante, no qual a lamianoctis a levou até o chão. Caíram rolando, a demônia se embolou com as asas e quando se levantou sua inimiga já vinha sobre ela, os dentes arreganhados revelavam presas menores, mas parecidas com as suas, e olhos agora completamente vermelhos, diferentes dos da succubus.

As unhas compridas não eram meras unhas de uma dama, mas sim resistentes como as garras da própria súcubo e produziram cortes dolorosos. Ela revidou com um certeiro ataque da cauda que perfurou a perna da adversária, distraindo-a para então usar as asas e a empurrar longe, tendo a oportunidade de alçar vôo outra vez.

Pensou que estava livre quando a quase meia dezena de metros, num salto espetacular, a vampira mais uma vez a alcançou e agarrou-lhe a cauda, forçando-o para baixo novamente.

No entanto, naquele momento ela ouviu seu amado gemer, como se agonizasse, e ao longe viu outra daquelas criaturas se aproximando, num ângulo que sugeria que poderia entrar no quarto. Pensou rapidamente e decidiu soltar a súcubo, correndo de volta à casa, pulando em direção à janela do quarto e quando entrou olhou brevemente para trás, vendo a demônia alada se afastar rumo à companheira que também não mais se aproximava.

Voltou sua atenção para seu companheiro, que começava a tremer como se estivesse prestes a ter um colapso.

Seu corpo estava frio, e ele mal conseguia respirar. Ela pressionou-lhe o peito, e então levou seus lábios aos dele forçando ar garganta adentro.

Então a situação dele se inverteu. Começou a respirar ofegantemente, o coração disparou e por um momento se curvou para trás, gritando de dor.

Pareceu, por um momento, falecer, mas quando ela o sacudiu desesperadamente, de repente ele voltou a respirar, desta vez apenas de modo ofegante, pouco a pouco se recuperando do choque.

Só então sua ereção começou a se desfazer.

DESPERTARES

Ela relembrara aquilo. Uma das mais vívidas e fortes memórias de todo o seu meio milênio de existência. Mas então também se lembrara que era um passado distante. Aquela fatídica noite ocorrera há 142 anos.

Então sua mente começou a finalizar sua organização, e sabia então que hoje era a grande noite. A noite de seu casamento. Com um novo homem, de um novo tempo, que no entanto carregava em seu ser toda a essência de seu antigo companheiro humano.

E, antes que abrisse os olhos, já sabia que seu amado jazia em seu peito.

Quando o viu, ele sorria, mas ainda tinha os olhos fechados. Já havia percebido a frequência vibratória do coração dela acelerar. O que antes pareceria um ronronar preguiçoso de um gato, acelerara até quase um zumbido, ao mesmo tempo que se aquecera.

Ela o acariciou, sabendo que já acordara, e finalmente ele a olhou nos olhos.

- Boa noite.

- Não dizem que dá azar ver a noiva logo antes do casamento?

- Só se ela estiver se arrumando. E por falar em superstição, não seremos abençoados pela chuva hoje. A noite será limpa e a Lua mais linda do que nunca.

Ela olhou para o relógio na parede. - Você ainda tem três horas e meia para mudar de ideia e fugir. - Rindo.

- Tive um ano e não consegui. - Disse com certa perplexidade. - Aquela foi a última vez que tentei fugir de você, e foi apenas... Uma fuga com o corpo. - Demorou, parecendo reviver uma aventura completa em poucos segundos. - Mas meu coração já era seu prisioneiro... Desde os primeiros momentos daquela... Daquela nossa... Entrevista.

Se ergueu para olhar melhor nos olhos dela. - Eu não vou a lugar algum sem você. Já basta ter que suportar os dias. E perguntou num tom paternal. - Era melhor você beber mais cedo hoje. Está com fome?

Ela fez uma expressão infantil. - Estou...

- Eu pego. - Então ele se levantou e foi até a geladeira, retirou uma garrafa pequena e colocou-a a aquecer por 30 segundos num microondas. Levou-a então para Ludmilla, que ainda a agitou por quase um minuto. Finalmente bebeu, de um só gole, todo o conteúdo. - Bendita invenção este forno de microondas.

Tiveram então que se separar. Duas empregadas vieram ajudar sua senhora a se preparar. Ele deixou o quarto e nos poucos passos que dava pelo corredor foi brevemente tomado da recorrente sensação de irrealidade, como se estivesse vagando num sonho, que fazia com que o tempo parecesse parar. Subindo as escadas que davam para o térreo da casa ouviu o quarteto de cordas fazendo um teste da acústica do local, e então mergulhou na sensação de sonho com ainda mais intensidade.

E voltou ao recente passado...

Pouco mais de três meses atrás tivera um momento especial na sua vida, ao ser convidado para tocar ao vivo no mais famoso programa noturno da rádio de música erudita da região. No que parecia uma possível retomada de sua carreira artística, executara ao violino com maestria a peça Scherzo, de Brahms, acompanhado de um amigo pianista. A execução fora antecedida e seguida de entrevistas que comentaram sobre sua primeira apresentação ainda no ensino secundário, como um talento precoce que como tantos outros terminou prejudicado pelas comuns dificuldades da vida, mas que jamais perdera contato com o mundo da música. Entre as poucas apresentações que teve, deu aulas, e depois passou a trabalhar na Vampel Instrumentos Musicais, descobrindo que como vendedor tinha mais tempo livre para tocar do que como professor. E também trabalhara como organizador de eventos de música, em geral audições que a Vampel Instrumentos, e outras empresas, patrocinavam.

Terminada a execução da peça, que viria a ser bastante aplaudida pelo pequeno mas seleto público presente, e elogiada pela pouca mas atenciosa audiência, a entrevista foi retomada e a maliciosa radialista perguntou sobre os boatos de que sua saída da Vampel Instrumentos teria se dado devido a um possível relacionamento secreto com sua chefe seguido de um rompimento.

O que ele sentiu naquele momento, diante do risinho silencioso mas provocador de seu amigo pianista, foi um choque que demoraria muito a avaliar, pois após meses conseguira finalmente se livrar de um arrepio toda vez que ouvia o nome de sua antiga empresa ser mencionada. O processo de demissão fora o de menos. Não só fôra liberado do aviso prévio como recebera uma carta de recomendação tão enfática que foi disputado por outras lojas, mas a lembrança da convocação de sua chefe até a casa dela fôra algo que o perturbara de um modo indizível. E quando aquela pergunta foi feita, toda essa confusão que ficara reprimida há algum tempo veio à tona.

Ele simplesmente não conseguiu responder, após um longo e constrangedor silêncio rompido pela própria apresentadora, com risos, pedidos de desculpas e bom humor. Por fim, terminou rindo também, se lembrando que já estava quase convencido de que aquilo fôra um sonho.

Finda a entrevista, ficou frustrado por não ter sido possível tocar a outra música que ensaiaram, embora já estivessem avisados dessa possibilidade. Se tivessem conversado menos sobre sua vida pessoal...

Lhe ofereceram porém a oportunidade de gravá-la noutro estúdio, mais afastado dos estúdios menores da rádio, que tinha espaço suficiente para gravar de uma só vez uma Jazz Big Band completa. Já era tarde, mas ele aceitou prontamente. O engenheiro de som disse que ele poderia entrar e ficar à vontade, pois deixaria gravando o restante de uma fita, teria que dar uma saída e voltaria mais tarde, e assim que a luz da gravação se acendesse, teria mais de meia hora de tempo, o que lhe permitiria tocar duas ou até três vezes caso cometesse eventuais erros. Só lhe lembrou que tudo o que fizesse lá dentro seria gravado.

Então entrou e relaxou. Pegou seu violino, e devido à ausência de seu amigo, se preparou para executar uma versão sua do célebre Adagio de Albinoni, que ele adaptara, para compensar a falta de acompanhamento, com alguns ornamentos que enriqueciam a melodia.

Praticamente entrou em transe quando começou a tocar. Aquela era, possivelmente, a música que mais executara em toda a sua vida. O adagio, sendo um compasso lento e introspectivo, lhe permitia até mesmo divagar enquanto uma parte automática de seu corpo a executava, já tendo atingido a completa independência, a não ser pelo fato da beleza melancólica da melodia ditar o tom de seus pensamentos.

Se lembrou do fim se seu namoro.

De certa forma, reconheceu que o bizarro evento da convocação da Senhorita Vampel lhe poupara de um vexame. Tendo que adiar o pedido de noivado devido ao turbilhão de pensamentos e sentimentos que tivera nos dias seguintes, acabou sendo surpreendido pelo fato de que sua quase noiva decidira terminar o namoro, comunicando-lhe o eufemístico "dar um tempo". Além de ter evitado uma constrangedora situação onde lhe presenteasse com alianças que ele até já havia encomendado, talvez perante outras pessoas, também se livrou do inevitável processo de deterioração que se seguiria considerando o fato de que não conseguia mais se ver no futuro com ela, o que aliado à sua dificuldade de dar fim ao relacionamento, por remorso em causar sofrimento, prometia resultar num processo arrastado e possivelmente ainda mais sofrido.

Assim, enquanto tocava, relembrava esse sentimento trágico, de ver algo belo desvanecer, uma noite cair sem a perspectiva de uma nova aurora.

Apesar de reconhecer que fôra melhor, demorou a se recuperar. A saída do emprego praticamente coincidira com o fim do namoro e sua mudança de endereço. Sua vida inteira virou de cabeça para baixo. Não chegou a ter problemas financeiros, pois se preparara para um período sem trabalhar, dedicando-se apenas aos estudos musicais, na esperança de ainda cursar uma faculdade de música. Mas isso pareceu ter intensificado seus problemas sentimentais

Por fim, tamanha era a desassociação entre seus devaneios e a precisão com que executara a música, repentinamente se deu conta de que tinha que concentrar sua atenção na sequência final do arranjo melódico, que apresentava variações originais que exigiam o máximo de sentimento capaz de se traduzir numa melodia profunda e penetrante.

As notas finais de perfeita execução pareceram um despertar de um longo período de sono. Que porém contemplara não uma aurora, mas um crepúsculo.

Ficou em silêncio, curtindo a quietude quase mórbida do ambiente. E viu a luz da gravação se apagar, bem antes do que esperava.

Estava de costas para a porta de entrada quando a ouviu se abrir quase imperceptivelmente.

Então, a sensação indescritível lhe garantiu tanto a certeza de quem era quanto o impediu de se virar.

De algum modo, ele sabia.

De alguma forma, teve certeza que o "tempo que ele tivera para pensar na proposta" se encerrara.

A CERIMÔNIA

Estava agora no segundo andar, onde tinha um quarto seu já preparado para que se arrumasse com a ajuda de um amigo. O noivo também poderia precisar de algum auxílio num momento tão especial.

Já era noite e a Lua cheia, como previsto, iluminava a noite radiante, por sobre as árvores nos limites do enorme terreno longe das luzes da cidade. Chegava a ser uma pena ligar a iluminação artificial à medida que os preparativos finais eram feitos e todos os que estavam ali a serviço já estavam devidamente instalados.

Tomou outro banho rápido. Raspou o pouco de barba à zero e veio pra frente do espelho. Seu amigo começou a desempacotar o terno.

- É... Acho que agora não tem mais volta. Meu amigo Denil está prestes a dar o golpe do baú!

Já tinha desistido de ralhar com seus amigos por causa dessa brincadeira, fácil de desacreditar considerando a reconhecida beleza da Senhorita Vampel. "Ludmilla", pensou ele, era um nome ao qual não deveria se acostumar, visto que daqui a anos, após simularem sua morte, se casaria com ela novamente sob novo disfarce. O sobrenome permaneceria, mas o nome seria outro, e ela lhe prometeu que seria de escolha dele para compensar a falta que sentiria do nome atual.

Tão pouco tempo, nem casado ainda, e já se sentia tão íntimo dela!

- Não me leve a mal! - Apressou-se em lembrar seu amigo. - Ela é linda! Mas continua sendo rica. E você continua me devendo a dica de que macumba faço para dar uma sorte dessas.

- E se eu te disser que o que a conquistou foi minha música? - Esse amigo, de infância, não era músico como ele.

- Me arrependo de não ter continuado a estudar piano.

- Não... Piano não serve. Não se conquista uma musicista tocando o mesmo instrumento que ela.

Em pouco tempo, estava vestido, dando os toques finais, quando seu pai apareceu.

- Deixa eu ver... - E desatou a gargalhar. Se aproximou e alisou o finíssimo e caro terno que o filho vestia, que a noiva havia pago. - Custei a acreditar! - Abraçou o filho. - Mandou bem garoto. Nunca mais vai ouvir a infame da piada!

Denilson sorriu e agradeceu. Passara boa parte da vida aguentando de seu pai, parentes e amigos a péssima piada do violinista relativa a transar com mulheres feias, a tradicional "vira a cara e passa a vara". Que fôra feita no dia que seu pai ficou sabendo do casamento, ainda desinformado da notória beleza da Senhorita Vampel, pressupondo já ser uma mulher velha.

Desceu, e tudo já estava pronto. Lá na frente, o Padre espanhol Saulo Picard, a quem Vampel fizera questão de ter como celebrante, visto ser das poucas pessoas ali que não só conhecia a realidade dos lamianoctis como viera, há pouco mais de um mês, pedir que compartilhasse sua experiência na luta contra a súcubo e demais conhecimentos sobre o assunto. A condição dela fora clara: "Celebre meu casamento e lhe contarei não só tudo o que eu puder como até o que eu não deveria."

Sua mãe, às lagrimas, já estava ao seu lado quando o mestre de cerimônias conferiu tudo e ordenou o inicio da música, silenciando a todos com a evidente abertura do ritual.

A cerimônia se iniciara com a sutileza de executar a Ária na corda Sol, de J.S.Bach. A música fora uma das sugestões do próprio Denilson em sua fixação por uma abordagem musical que dispensasse as manjadíssimas marchas nupciais de Wagner e Mendelssohn. Nessa em especial, ele venceu contra a sugestão da noiva, que curiosamente era uma adaptação do tema cerimonial da "Sala do Trono" de Star Wars. " - Parece que eu é que sou o barroco aqui! -" Dissera ele na época. Mas concordaram que seria a música cerimonial do futuro segundo casamento.

Entraram os 8 padrinhos de casamento. Dois deles eram outros lamianoctis. Fôra difícil convencer o homem calvo e branquíssimo a comparecer e ainda vestir roupas, visto que em oposição à Vampel, ele vivia nas matas completamente afastado da civilização, sempre nu, em total interação com a vida selvagem. Só se vestia quando precisava se reunir com representantes da Irmandade, que ficava atenta a todos, em reuniões que geralmente ele considerava chatíssimas. Marlon tinha pouco mais de 300 anos e era na realidade europeu, tendo vindo para o Brasil justo por seu fascínio pelas matas virgens, apenas para cada vez mais amargar a tristeza de vê-las pouco a pouco dando lugar a cidades e mais cidades.

O outro, de aparência mais jovem, era na verdade mais velho que ele, embora menos que Vampel, e em quase tudo sua antítese, vivendo há mais de um século bem estabelecido em Curitiba, e era na realidade quem mais tinha contato com a Irmandade, embora Vampel fosse considerada por esta como a representante maior dos poucos lamianoctis que existiam no Brasil. Seu nome era Teo, e já fora condenado a 80 anos de prisão pela Irmandade por ter matado humanos, há mais de um século, diferente de Marlon que não só jamais deu qualquer sinal de tê-lo feito, como garantia jamais ter matado uma pessoa.

Havia ali ao todo, afora eles próprios, apenas 5 pessoas normais que conheciam aquela realidade, dois deles trabalhavam para a Irmandade e ambos, assim como os lamianoctis, se passaram por parentes de Vampel, incluindo os outros dois representando oficialmente a Irmandade, vindos direto da Europa.

Os demais convidados, oficialmente, foram apenas 112, embora o local estivesse preparado para mais. Destes, quase metade eram família e amigos de Denilson, os demais, funcionários da Vampel Instrumentos Musicais e algumas autoridades locais, prefeito incluso.

Entrou então Denilson acompanhado de sua mãe, e por fim, após um certo suspense, o Senhor Bertoni trouxe a noiva.

Houve um esforço de atenção inequivocamente anormal, visto que da família de Denilson quase ninguém já tinha visto Ludmilla Vampel, e mesmo os poucos que tiveram, ainda assim o fizeram em poucas e breves vezes. Os únicos que tiveram de fato uma conversa mais demorada com ela haviam sido seus pais, uma tia e sua irmã mais velha, que era uma das madrinhas.

Numa das mesas, um grupo conciso de mulheres de faixa etária pós-balzaquiana à terceira idade, a maioria tias de Denil, desatou em murmurinho implacável.

- Tem alguma coisa esquisita nessa história, como um rapaz humilde como o Denilson conseguiu uma mulher rica e linda dessas?

- Qual a idade dela?

- Mais de 40 com certeza. Talvez mais de 45.

Se tivessem investigado, teriam descoberto que a documentação forjada atestaria 51 anos para Ludmilla Vampel, pois o documento emitido em 1968 atribuía-lhe data de nascimento de 1950. Nessa ocasião herdara seus bens de sua identidade anterior, Teresa Xavier Vampel, supostamente falecida em 1967 e nascida em 1914.

- Que maquiagem incrível!

- Não, não é só maquiagem. Mês passado estivemos aqui num jantar com ela. Conversamos a noite toda, ela é assim mesmo. Nunca vi uma coroa tão bem conservada.

- Dinheiro... Minha filha.

- Olha... Mesmo assim. Sei lá. Vai ver que é aquele tal tratamento misterioso que a gente vê nos anúncios.

- Isso mesmo que eu acho. Não tive coragem de perguntar pra ela mas...

- Que tratamento?

- Nunca ouviu falar da tal Sociedade Secreta da Juventude?

- Aãhh?

A maioria estranhou o fato de uma delas não ter conhecimento do tal mistério que há anos sondava alguns salões de beleza e centros de medicina estética de todo o país. Uma série de anúncios isolados em jornais, às vezes panfletos, e uma discreta divulgação boca a boca, alegando possuir um tratamento milagroso capaz de rejuvenescer qualquer mulher uns 10 anos numa única sessão. Mas o grau de sigilo era severo e o preço altíssimo.

- Minha cabeleireira tem uma amiga que fez esse tratamento e o resultado foi ina-credi-tável!

- Também sei de uma amiga cuja irmã fez. Funcionou tão bem que foi constrangedor. Nem a família a reconheceu! Os netos a estranharam!

- E que tipo de tratamento é?

- Ninguém sabe! É segredo total. Antes tem que assinar um contrato cheio de cláusulas de sigilo que faz a maioria cair fora. E ainda por cima é caríssimo. Só pra mulher muito rica.

- É... Deve ser isso mesmo. Dinheiro ela tem. E com essa idade de mais de 40 parecendo menos de 30...

- Procurei esse tratamento. - Manifestou-se uma senhora que estivera em silêncio até então. Todas as outras olharam para ela, ignorando a cerimônia cujo padre começara seu sermão, exigindo que explicasse.

- Conheci uma das donas. Tinha um salão em Goiânia, e aí juntou com um rapaz que trabalhava num centro de medicina estética e criaram essa Sociedade. Não é nem uma empresa! Parece uma religião. É um contrato civil de sigilo. - A senhora que tinha mais de 60 anos, parecia um tanto desolada ao fazer seu relato. - Mas quando li o contrato... Não podia dizer nada! Só podia contar pra outras potenciais interessadas e ainda assim com um monte de ressalvas malucas. Não dava nenhuma pista de como seria esse tratamento. Olha... Fiquei foi com medo. - Então olhou para os noivos em frente ao padre, como se tivesse encerrado o assunto. Mas mal as outras acompanharam seu olhar e ela falou de novo. - Mas depois encontrei a conhecida que tinha me falado sobre eles, e ela rejuvenesceu tanto... Nossa. Teve que se esconder por um tempo pra não ter que comentar o assunto. Largou o marido e arranjou um amante novinho, igual o Denilson. Insisti muito mas ela não falou nada. Ficou rindo da minha cara o tempo todo, e disse que eu entenderia se tivesse feito. - Fez uma pausa amargurada. - Só não me arrependo porque no fundo eu não tinha o dinheiro.

- E quanto era?

- Na época, um ano e meio atrás, Dez Mil dólares só a primeira sessão. E as segundas são ainda mais caras. E o mais incrível! Todas as que fazem a primeira sessão voltam pra fazer a segunda, e a terceira... Haja dinheiro.

- E funciona?

A senhora afirmou com a cabeça meio constrangida. - Pelo pouco que eu vi... Sim. Não é a toa que são tão reservados. Dizem que já sofreram até tentativas de assassinato.

- É uma coisa incrível! Parece bruxaria!

- Ouvi dizer que tem algo a ver com Tantra.

- Ssshhhh... O casamento! - Interrompeu finalmente outra das senhoras que já estava farta daquela história que também já ouvira falar mas que nunca levara a sério.

Mas havia outra pessoa ali que levou aquele assunto muito a sério, e foi ninguém menos que a própria noiva, que mesmo não tendo ouvido detalhadamente apesar de sua audição aguçada, tomou nota mental de que aquilo era sim algo a ser considerado com cuidado, talvez relacionado a estranhos acontecimentos de que tomara conhecimento pouco antes de ter visto pela primeira vez o adolescente que, depois teria certeza, era a nova encarnação de seu amado.

VOTOS

Ao som do Sonho de Amor de Franz Liszt, escolha da noiva, o Padre media bastante as palavras sobre as quais refletira muito. Era a primeira vez que celebrava um casamento. Era, em verdade, um estudioso de demonologia do mais elevado círculo do Vaticano, detentor de conhecimentos inacessíveis até mesmo para a imensa maioria dos teólogos da Santa Sé, tendo pouca prática em atividades paroquiais comuns. Era controverso se Ludmilla Vampel era católica, mas Denilson certamente o era.

Teve que preparar com muito cuidado o discurso. Os membros da Irmandade Lamianoctis, que tinha intercâmbio com os grupos demonológicos secretos da Igreja Católica, estavam bem atentos ao que dizia. Não que houvesse possível hostilidade, mas a relação política era delicada e se ambos tinham em comum a preocupação com a proliferação de outras criaturas não humanas, tinham divergências a respeito da melhor abordagem.

Os lamianoctis em todo o mundo estavam bem civilizados há séculos, sob estritas regras da irmandade quanto a discrição e a não atacar humanos. Qualquer iniciativa de transformar um num deles exigia uma série de etapas rigidamente controladas, a começar por um casamento, e na maioria das vezes acabava não sendo autorizado, ou sequer era possível.

Picard então discorria sobre um tema perfeitamente inteligível para qualquer pessoa, mas que somente os que conheciam o segredo podiam apreciar em sua plenitude.

- A queda do Éden amaldiçoou não apenas a humanidade, mas a todos os viventes. Desde então estamos condenados a trocar vida por vida. Nos alimentamos de outros seres vivos e cada ato de sustentação de nosso corpo envolve o sacrifício de outros viventes. A morte é então, a companheira inseparável da vida, e só nos cabe fazer o máximo possível para minimizar o sofrimento no mundo. Que cada ato vital, que implica na perda da vida de outrem, seja consciente de nossa fragilidade, de nossa interdependência, de nossa carência, pois tal como nós, o topo da cadeia alimentar, temos as vidas inferiores sob nosso serviço, também seremos por elas consumidos após a nossa própria morte. Que cada ato de vida esteja consciente deste Pecado Original, a dependência da morte, e seja permeado pelo desejo de perdão divino, e de futura reconciliação com todas as formas de vida sob a benção de Deus.

Denilson se lembrou da conversa reservada que tivera com o Padre antes, a pedido de sua futura noiva. A convocação dela, o conhecimento daquela realidade, fôra um choque para o jovem rapaz. Temeu adentrar um mundo tão estranho, lidar com realidades que o senso comum já relegara ao papel de lendas e os meios de comunicação ao papel de entretenimento. Pensou que se existiam os tais lamianoctis, os vampiros, e se existiam súcubos, sendo demônios, então as partes mais assustadoras da religião não eram mera mitologia. Isso, por um momento, lhe encheu de pavor. Como poderia compactuar com algo assim? Mesmo sendo eclético, Denilson tinha espiritualidade viva e pensara muito seriamente em se ordenar sacerdote.

Foi um grande alívio descobrir que a Igreja Católica não só tinha pleno conhecimento como tinha relação amistosa com aquela realidade. Que de fato os lamianoctis não eram criaturas a se temer, pelo contrário. Era até mais seguro conviver com eles que com a maioria dos humanos comuns, e o mais interessante, como o padre explicava agora, não havia real diferença entre humanos e os ditos "vampiros" quando considerando que ambos tiram seu sustento de outros seres vivos. Os lamianoctis podem se alimentar de sangue animal e nem sequer precisam matá-los. O sangue de um boi pode saciar completamente um deles sem que este sequer sinta falta do sangue que lhe foi tirado, ao passo que para saciar um humano teria que perder uma parte do corpo.

- E é lembrando dessa fragilidade da vida e da presença constante da morte que devemos celebrar o valor da existência, honrar nosso breve tempo de vida na Terra, pois a morte virá para todos, uns mais cedo, outros mais tarde, uns muito mais cedo, outros muito mais tarde, mas fatalmente virá. A vida eterna não é um dom acessível a qualquer ser que ande pela Terra.

E de fato, lamianoctis não viviam "para sempre". Vampel sabia muito bem que já havia passado de sua meia idade.

- E para superar os desafios da existência, a única força que temos provém do amor. Sem amor, nada seríamos, e hoje estamos aqui reunidos para celebrar a reunião dessas duas pessoas, que em nome do amor decidiram se casar perante a vida, a sociedade, e aos olhos de Deus.

E a Vampel essas palavras tocaram profundamente. O que a mantinha viva, há séculos, era o amor por seu eterno companheiro, apesar dos períodos que ficara sem ele. O padre preferiu não tocar na questão da reprodução e a maioria poderia interpretar que isso se dava ao fato de que a noiva, já tendo passado dos 40, dificilmente teria filhos, ao passo que uma minoria sabia que como qualquer lamianoctis, ela não tinha qualquer função reprodutiva. Mas eles tinham planos, para no futuro, adotar uma criança. Denilson deixara essa pretensão muito clara.

E isso o levou, mais uma vez ao recente passado, há meses atrás, quando naquele estúdio terminara de executar o adagio, a luz da gravação se apagara, ele ouvira a porta abrir e sentira a presença indistinguível atrás de si.

Num momento, sua respiração se tornara ofegante, o coração disparou, ele fechou os olhos, e de repente, se acalmou, como no despertar de um sonho tenso. Todo aquele conflito anterior, todo o estresse quase "pós-traumático" de seu primeiro contato com ela, aquele contemplar de uma realidade assustadora, ainda que fascinante, de repente parecia solucionado por uma serenidade que parecia ter lhe atingido como uma iluminação.

Então, ele simplesmente sabia o que dizer, mas quando se virava para ela já iniciando a pronúncia das palavras, ela se adiantou, com sua voz surreal.

- Em 1871, eu e Brasílio estivemos num sarau em São João Del Rey, onde pudemos apreciar algumas apresentações numa época em que eu estava realmente me interessando por música. - Disse ela circulando em torno dele, sem olhá-los nos olhos, paralisando-o com sua presença. - Num momento, foi executada uma sonata que o emocionou em especial. Uma de suas músicas favoritas, e por isso mesmo, sobre a qual ele era mais exigente.

Tendo dado quase uma volta completa em torno de Denil, ela parou, ainda sem fitá-lo, e fechou os olhos, como se saboreasse a lembrança. - Os músicos eram bons, mas ele achou que não havia sido bem executada, e desde então procurou quem o fizesse bem, mas nunca encontrou. Conhecia bem a música. Sabia lê-la na partitura, mas jamais ouviu uma apresentação dela que realmente o satisfizesse. Decidiu então praticar violino, pois seu instrumento era piano. Aliás... Foi ele quem me ensinou a tocar.

Ela se afastou dele, que finalmente pôde reparar no vestido azul escuro, cobrindo quase toda a pele, elegante, mas discreto. E ainda de costas disse. - Gosto de pensar que foi essa música que ele ouvia, em sua mente, em seus momentos finais, quando eu me despedia dele em seu leito de morte. Ao menos foi uma despedida pacífica, quase doce.

E finalmente, ela se virou, e o olhou diretamente nos olhos, o que ele esperava que demorasse mais para fazer, pois quando o fizesse, não teria volta.

E naqueles olhos castanhos, parecendo muito mais claros do que ele se lembrava, ela perguntou. - Você seria capaz de adivinhar que música era?

Ele apenas meneou com a cabeça, numa expressão que começava como se fosse "como poderia saber..." mas logo se transformando "...que era essa?" E ela nem precisou confirmar. Apenas disse. - Está gravada. Finalmente, 90 anos depois... Você conseguiu.

Então, após fechar os olhos e tomar fôlego, ele finalmente falou o que pretendia desde o começo. - Vamos mesmo fazer isso... Não é Senhorita Vampel?

Ela apenas oscilou as sobrancelhas.

E ao abrir os olhos, ele eliminou a última dúvida de que estava sim vivendo uma realidade.

- Eu... Eu tenho escolha?

O olhar dela se tornou piedoso. - Sim. Claro que tem.

- Então porque acho que escolherei aceitar como se... Como se fosse a única escolha possível?

Chegando mais perto, ela o tocou no ombro, com aquele mesmo efeito enebriante. - Se pudessem, todas as pessoas escolheriam sempre as coisas mais óbvias, as que as fazem felizes. O fato de alguém escolher a felicidade no lugar do sofrimento torna a escolha ilegítima?

E foi ali, que de alguma forma, ele soube que era irreversível.

Daquele momento passaram a se encontrar, quase todas as noites, em lugares bastante discretos. E por sorte foi menos assustador do que esperava. Aos poucos seus temores foram se dissipando, e antes que se desse conta, era como se não fosse sequer concebível não estar mais ao lado dela.

E, voltando ao presente. Eles disseram Sim.

- Então eu vos declaro Marido e Mulher.

CUMPRINDO O TRATO

Finda a cerimônia, a festa desenrolou-se normalmente. Os recém casados receberam os cumprimentos e todas as demais tradições foram respeitadas. Vampel teve que se esforçar na socialização, o que incluía comer alguns dos refinados quitutes que eram servidos pelos garçons. No momento certo foi ao toalete e como Denilson já sabia, discreta e calmamente regurgitou tudo.

Entrementes, reuniu-se em mesa mais reservada com os demais integrantes da Irmandade Lamianoctis, Marlon e Teo inclusos, que serviram como testemunhas na abertura do processo formal de inclusão de Denilson na Irmandade, que não integrava apenas os lamianoctis, mas todos aqueles que lhe eram companheiros, aliados íntimos ou servidores dedicados. Após a Lua de Mel, teriam que se dirigir à Romênia para uma apresentação formal a membros mais importantes da Irmandade. Denilson sorrira ao saber que, sim, a "capital" dos "vampiros" realmente ficava na Transilvânia! Os mitos, dentre as inúmeras tolices como não poder entrar em residências sem serem convidados ou não refletirem em espelhos, estavam corretos neste ponto.

Os músicos executaram uma sucessão de clássicos, e então jazz, e mesmo versões de músicas populares e os convidados, a maioria jamais tendo frequentado evento tão luxuoso, apreciaram muitíssimo o banquete. E os últimos foram embora quase no mesmo momento em que Vampel teve que se recolher para dormir.

Eles partiriam para a Lua de Mel na noite seguinte, mas antes fôra necessário cumprir o acordo com o Padre Saulo Picard, que desta vez veio acompanhado de uma mulher que não parecia uma freira embora se vestisse de modo recatado, parecendo um tanto deslocada. Se reuniram com Ludmilla e Denilson, onde ela descreveu em detalhes sua primeira reunião com membros da Irmandade, incluindo Teo e Marlon, em 1859, que suspeitava de atividades de súcubos no interior do Brasil, entidades que haviam sido extintas na Europa, tendo sido avistadas pela última vez em Portugal, e pareciam ter se refugiado na América do Sul.

Mal tomara conhecimento da existência delas, e tendo recebido orientações para ficar atenta a possíveis manifestações, Vampel tivera seu primeiro contato com uma, descrevendo aquela batalha que não fôra a única. Já na noite seguinte, com Brasílio ainda em estado delicado, ela sentira a remota presença das criaturas, e na segunda noite avistara uma delas.

Sabia que como ela própria, as criaturas não se expunham de dia, e que melhor ainda, nem mesmo em noites com Lua. Ordenou então aos escravos que levassem Brasílio para longe, viajando pelo dia inteiro e acampando à noite, quando ela os alcançava. Semanas depois estavam há mais de 600 quilômetros de distância, mas com o retorno da fase de Lua Nova, as criaturas os encontraram quase instantaneamente. Confirmava então, que uma vez tendo possuído mesmo que brevemente o corpo de seu amado, a súcubo poderia rastreá-lo em qualquer lugar.

O confronto foi inevitável mas desta vez, ela estava preparada. Brasílio ficou escondido no porão de uma grande casa, deixado aparentemente sozinho e atraindo a criatura para uma armadilha. No momento certo, as escravas fecharam as portas e janelas aprisionando-a e eliminando sua principal vantagem, a capacidade de voar. Os escravos estavam escondidos com ele, e embaixo da terra, na parte mais funda do porão, Vampel esperava.

Uma vez lá dentro, pôde testemunhar a total impotência de seu amado e dos escravos perante a criatura. Tinham instruções de atacá-la, mas como já havia sido advertida, eles não podiam fazê-lo. Ficaram paralisados e já fôra uma sorte que não tenham intervido a favor da súcubo quando Vampel atacou. No espaço fechado do porão, a criatura levou desvantagem e procurou fugir, mas quando logrou forçar sua saída, arrombando por fim a porta dos fundos e escapando para o terreno para desespero das escravas, já tinha uma asa quebrada e a outra largamente rasgada, perdendo sua capacidade de vôo.

Furiosa, Vampel a perseguiu pela mata, até finalmente alcançá-la numa clareira onde tentou mais uma vez levantar vôo, mas foi tarde demais, finalmente a lamianoctis a destroçou numa luta feroz, arrancando-lhe fora a maioria dos órgãos internos.

Ao alto, outra súcubo, bem parecida a não ser pelos cabelos brancos, tentara vir em socorro dela, mas chegara tarde demais e não entrou em combate direto, limitando-se a olhá-la nos olhos com extremo ódio, mas sem coragem de descer para enfrentá-la. Vampel arremessou-lhe pedras, mas ela se desviou e por fim desapareceu nas alturas.

Nas noites seguintes ela ficou atenta, e pensou ter percebido a mesma criatura rondando o local, mas terminada a fase de Lua Nova mudaram-se novamente, para ainda mais longe, noutra direção.

Nunca mais avistou súcubo alguma. Houve relatos parcialmente confiáveis de avistamentos esporádicos em décadas posteriores, com um breve pico anormal em 1955, que porém em seguida pareceu se encerrar completamente.

A narrativa foi extremamente detalhada. Bem como ela forneceu informações sobre o que os demais lamianoctis que conhecia haviam coletado, embora nenhum tivesse a emblemática experiência dela. O Padre se queixara de certas inconsistências nos documentos que a Irmandade havia lhe fornecido com informações adicionais, mas Ludmilla esclarecera que os fatos mais relevantes ocorreram justo quando ela vivia sob a identidade de Helena Viera, e única em que não utilizara o sobrenome Vampel, o que provavelmente confundira os escrivães. Daí para frente passara a sempre acrescentar seu famoso sobrenome. Além disso algumas coletâneas de dados, a maioria de lendas indígenas, faziam referência a criaturas mitológicas que confundiam lendas e entidades reais diferentes. Como os lendários cupendipes, possivelmente a descrição mais aproximada de uma súcubo, mas também com estranhas referências a uma criatura chamada moá.

Aquele momento foi como uma iluminação para a Vampel. Após um intenso instante onde recordações súbitas vieram à sua mente, das profundezas de um inconsciente que jamais seriam acessíveis pelas lembranças comuns, ela afirmou. - Ora... Mas que interessante. Há quanto tempo eu não ouvia esse nome... Moá... Moá...

- E o que era? - Denilson perguntou quase ao mesmo tempo que Picard, tão curioso e fascinado quanto o padre.

- Era o meu nome... Meu nome indígena desde que sou capaz de me lembrar, antes de receber Vampel da Irmandade. - Sentiu-se agraciada por atiçar memórias tão esquecidas. - Moá Terena.

- Então você virou um mito indígena? - Perguntou Denil.

- Há algumas lendas um tanto assustadoras sobre Moá. - Disse Picard.

- Não posso negar padre. Eu evitava matar pessoas, até para minha própria segurança. Mais de uma vez fui perseguida por guerreiros e não pense que é fácil escapar de um bando de índios lhe perseguindo. Mas nem sempre conseguia me conter. As vezes a sede me descontrolava. - Então sorriu. - Mas isso faz muito tempo.

Por fim, o assunto derivou para acontecimentos recentes, e Ludmilla, e a Irmandade, estavam bem informados da recente onda de relatos que recomeçara a partir de 1988, já havendo inclusive um vídeo de um suposto ataque de súcubo. Mas o ponto verdadeiramente delicado ocorreu quando Vampel decidiu violar uma determinação da Irmandade de não revelar um pequeno grupo de acontecimentos que atingiram seu ápice em 1990, tão estranhos que ela por pouco não saiu do Brasil.

Ao menos um ano antes dos novos relatos de avistamentos de súcubos terem se disseminado, uma série de acontecimentos paralelos estranhos vinham ocorrendo, a começar por uma agitação incomum em seletos grupos ocultistas, muitas vezes associados a antigas religiões pagãs Deusa da Terra, Mãe Dragão e outras referências a divindades cujas tradições posteriores veriam como associadas como a antítese do Deus Pai Celestial. A Irmandade comunicara movimentação anormal de iniciados em mistérios pagãos e praticantes de artes ocultas considerados como feiticeiros e bruxas, se deslocando pelo país em geral para a região central, abrangendo Minas Gerais, mais especificamente Triângulo Mineiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, noroeste de São Paulo e uma pequena parte do Paraná.

Uma série de acontecimentos incomuns ocorreram com pouca ou nenhuma divulgação midiática, como desaparecimentos de jovens homens em áreas rurais, a maioria dos quais jamais encontrados, surtos de doenças mentais, em geral de teor esquizofrênico, com relatos de alucinações diversas e alguns assassinatos em condições misteriosas.

Promovendo investigações intensas mas discretas, detetives da Irmandade, a maioria humanos normais, traçavam algumas possibilidades perturbadoras que iam além de um mero aumento nas atividades de súcubos, como ressurgimentos de seitas demonolátricas, rituais de invocação, e sobretudo disputas entre grupos ocultistas rivais com consequências letais.

Temendo que fossem sintomas que pudessem resultar numa paranóia de "caça às bruxas", a Irmandade recomendou sigilo absoluto enquanto averiguava as informações. Mas se mesmo agora, ao fim de 15 anos, o quadro, embora mais rebuscado com acontecimentos diversos, continuava tão obscuro quanto antes, naquela época era ainda mais preocupante, até por ser recente.

Em especial Vampel fôra procurada, por meios de telefonemas estranhos e até pessoas suspeitas, que sugeriam conhecer seu segredo mas que permaneciam misteriosas. Nessa época, porém, estava frequentemente viajando, e passou a fazê-lo ainda mais à medida que percebeu que algum grupo ou entidade desconhecida parecia querer encontrá-la.

O evento que catalisou sua decisão de abandonar o país e lhe fez até considerar simular antecipadamente sua morte foi um estranho relato que obtivera de um confronto em localidade ainda indefinida nas matas desse interior do Brasil, onde aparentemente feiticeiras e bruxos se enfrentaram, com possível participação de súcubos, tendo como consequência várias mortes que no entanto foram completamente abafadas pelas autoridades policiais.

Com isso, Ludmilla fôra procurar um antigo feiticeiro que conhecera há décadas, e vivia inteiramente recluso na floresta. Um típico Preto Velho que desde a primeira vez que a viu, ainda em 1944, mostrava claramente saber o quê ela era, e mesmo naquele ano de 1990, 27 anos após seu último encontro, não demonstrara surpresa alguma ao revê-la, parecendo até esperar sua presença.

Bertoni e um jovem segurança a levaram de carro até um ponto afastado da margem da floresta. Lá ela saltou, deu instruções expressas para que eles esperassem ali e não entrassem na floresta em hipótese alguma. Estavam armados, e o jovem conhecia sua patroa há pouco tempo, tendo sido recentemente introduzido à realidade da existência lamianoctis. Vampel se despiu completamente, e pela primeira e única vez o rapaz vira sua patroa nua. Ela o fez tão rapidamente que ele não teve tempo de se virar, e sob a luz da Lua Crescente e a iluminação indireta do interior do veículo pôde observar, atordoado, uma anatomia que lhe lembraria a das bonecas Susi de sua irmã.

A linha vertical onde deveria haver uma vulva era praticamente imperceptível. Quase 500 anos de absoluta inatividade fisiológica no baixo ventre selaram todos os orifícios.

A lamianoctis entrou correndo mata adentro, por um momento revivendo uma sensação que não experimentava há décadas, e que regularmente, não fazia há séculos. Movendo-se rapidamente, por entre a vegetação, saltando sobre pedras, trepando em árvores, mergulhando em rios e emergindo, se deliciando com o açoite do mato em sua pele, e frio do vento, o frio ainda maior da água, lhe fazendo lembrar porque não fazia aquilo com mais frequência.

Se o fizesse, provavelmente nunca mais sairia do mato.

MÃE DA NOITE

O diálogo, embora breve, foi tão marcante e perturbador que Vampel preferiu descrever, até mesmo com os modos de falar, seu encontro com preto velho em sua tapera, quase invisível entre a mata virgem na encosta de um morro, sobre uma grande pedra cuja beirada pendia para a um abismo. A pequena fogueira queimava sobre a pedra, aquecendo uma pequena panela velha de metal onde fervia um líquido, enquanto o idoso seminu, aparentando ao menos uns 70 anos, fumava um cachimbo.

- A bença minha Mãe da Noite.

- Boa noite Pai da Serra. O senhor se lembra de mim?

- Má cumê que nóis isquece? Voismicê é lenda, fia das mata mais antiga. Sempre tâmo interado pelos ispírito das coisa que ocê faiz.

- Então sabe por que eu vim?

- Sei sim minha Mãe da Noite.

- O que aconteceu naquela clareira das pedras, perto da curva do rio, na última Lua Minguante?

O preto velho se virou para uma mulher idosa que estava mais ao fundo da tapera, amassando raízes sob uma pedra.

- Minhá véia. Mi traiz o cipó. - A senhora demorou a se mover, e bem devagar, veio com um punhado de ramos envoltos numa folha e cumprimentou a visitante. - A benção, Mãe da Noite. - Nunca a havia visto, mas de imediato entendeu o que ela era.

O preto velho retirou a panela da água do fogo e adicionou o conteúdo que sua companheira lhe trouxe. Mexeu, esperou um pouco, e de um só gole bebeu o líquido quase fervente.

A própria Vampel ficou impressionada. Podia perceber que a temperatura não seria suportável nem para ela mesma.

O velho pareceu entrar em transe profundo por alguns minutos, enquanto ela esperou. E quando ele falou, sua voz era completamente diferente.

- O que lhe inquieta, minha filha Terena?

Vampel fez uma reverência. Nunca entendera perfeitamente o que era aquela entidade, mas manteve o segredo de sua existência. Nem a Irmandade tinha conhecimento.

- Há 11 noites atrás, há 27 quilômetros à noroeste...

- Houve uma luta entre dois grupos, principalmente, bruxas e súcubos. - A entidade a interrompeu, silenciando-a. - Se encontraram finalmente, numa noite sem Lua, após mais de um mês de procura. Um grupo, com três bruxas, um bruxo e quatro milicianos fortemente armados deram confronto a um grupo de cinco súcubos. No primeiro combate, de um lado duas bruxas e dois dos soldados foram mortos, do outro, duas súcubos foram mortas e uma gravemente ferida. Mas então surgiu uma sexta súcubo, diferente, e exterminou o restante do grupo, deixando os outros dois soldados vivos apenas para satisfazerem as súcubos, e pessoalmente possuindo o bruxo ao final.

Vampel hesitou, mas quando ia perguntar.

- Os homens tinham treinamento especial e estavam sob proteção das bruxas, conseguindo resistir temporariamente ao encanto das súcubos.

- Que grupo era esse?

- Sociedade secreta. De tradição mais antiga que você, à procura de sua mestra, a Mãe da Noite.

Vampel estranhou. Até hoje ela era a única criatura que era chamada por esse nome.

- Eles procuravam por mim?

- Não. Eles procuravam pela sua Mãe da Noite. A mesma que procurou por você.

- Minha... Criadora?

- Sim.

- Quem é ela? Por que...

- Há coisas que não posso responder, nem mesmo saber. Há um motivo para esta parte do mundo ter sido deixada em paz pelas civilizações há muitas eras, para que as entidades ancestrais que por aqui viveram nunca fossem profanadas pelas ações dos demônios ou dos humanos. A maioria já se foi há muito tempo, mas sua essência ainda permanece, protegendo a pureza dessas terras. Há um motivo que não me atrevo a questionar ou prescrutar. A sua Mãe da Noite está além do meu alcance. Mas a prisão do submundo foi aberta. Os anjos da luxúria foram soltos, é só questão de tempo para que consumam a terça parte dos homens em todo o mundo.

Ludmilla estava desnorteada. Não fazia ideia do que era tudo aquilo.

- O que são os anjos...

- Boa noite, minha filha Terena.

Então o preto velho saiu do transe, e voltou a observar sua visitante como antes.

- E só isso minha Mãe da Noite. Us ispríto só diz o qui qué. Nun dianta insisti.

- Eu tenho uma mãe da noite?

- Ah... Tem sim.

- E ela está viva?

- Hum... Sei não sinhora. Acho qui murreu. Mais vai vê revive!

- Pai da Serra...

- Sim minha Mãe da Noite.

- O que devo fazer? Essas... Criaturas, mataram minha mãe? Querem me matar também?

O preto velho olhou pro céu, fumando seu cachimbo, como se procurasse a resposta nas estrelas.

- Ô num sei minha Mãe da Noite... Mais us ispríto disse qui num dá pra sabê tudo. Sinhora tem vivido muin tempo, isperando as coisa contecê. I as coisa tão cuntecendo. Mais tem medo não sinhora... Tem medo não. Ocê é forte. E já já vai incontra seu amor.

E foi tudo o que ela descobriu. Conversaram ainda mais algumas coisas mais leves, ela agradeceu e foi embora.

Reencontrou o segurança e Bertoni no mesmo lugar. No porta mala do carro haviam grandes galões de água e sabonete, onde ela se lavou, se enxugou e se vestiu antes de entrar no carro. E vieram embora

- Eu estava decidida, Padre, a sair do Brasil. Aquilo tudo me perturbou muito no momento. Tinha alguém que supostamente seria minha criadora me procurando, e ela teria sido morta?! E o pior, nem a Irmandade sabia do que se tratava! Ela não está protegendo informações, e sim estava tentando proteger nossa comunidade de uma possível onda de pânico. Tivemos muito problemas no passado. Em 1967 eu havia encerrado minha identidade como Teresa Xavier Vampel porque alguns grupos ocultistas inoportunos se aproveitaram da onda anti comunista para desbloquear informações e nos procurar. Por isso simulei minha morte com um velório público onde todos puderam conferir meu corpo aparentemente falecido, afim de eliminar quaisquer possíveis ações contra mim.

Picard e sua silenciosa mas atenta acompanhante, assim como Denilson, estavam boquiabertos.

- Por sorte, ninguém importunou a jovem herdeira Ludmilla Vampel, e apesar do susto, em 1990 não havia mais lugar para temores políticos que pudessem viabilizar ações de grupos oportunistas usando a cartada da suspeita de subversão para desbaratar a vida alheia. Ao menos não em escala realmente preocupante. Mesmo assim, cheguei a preparar minha ida para a Espanha, pois também queria evitar a Romênia. O único motivo pelo qual não fui, é que por muita insistência fui alguns meses depois acompanhar uma apresentação de formatura num dos colégios que tinham parceria com a Vampel Instrumentos Musicias, e lá, embora eu estivesse apreensiva e me lamentando que tivesse que honrar aquele compromisso, ocorreu algo que eliminou por completo todas as minhas preocupações.

- O quê? - Aguçou-se a curiosidade do Padre.

Ela apontou para seu marido. - Eu o vi pela primeira vez. - Denilson se surpreendeu. Se entreolharam, sorriram, e deram-se as mãos. - Então me dei conta que apenas uma única coisa de meu encontro com o Pai da Serra realmente importava. O fato dele ter dito que eu encontraria meu amor. Desde então, minha vida percorreu em total tranquilidade.

Após fornecer algumas informações adicionais, Padre Picard estava preocupado. - Espero que isso não lhe cause problemas com relação à Irmandade Senhorit... Senhora Vampel.

- Não se preocupe. Tenho certa autonomia. Temos apenas 38 lamianoctis registrados na América Latina, eu sou a mais antiga. Mas de qualquer modo, espero estar ajudando a Irmandade. Compartilharmos informações me parece ser a melhor forma de lidarmos com possíveis problemas.

- Certamente. - Concordou Picard. - Infelizmente a Irmandade tem me parecido um tanto inconsistente em relação a nosso intercâmbio, com recuos que sugerem divergência interna.

- Essa inconsistência tem um nome Padre, chama-se Maximilian.

- Maximilian Katehon?

Cofirmando com a cabeça, Ludmilla, num raro momento de maior expressividade, arregalou o olhos e expressou espanto ao frisar. - Ka-te-hon... Padre. Nome que ele mesmo se deu! De todos os membros da Irmandade que conheci mais detalhadamente ele é o único que me preocupa. Tem sido figura importante e ganho destaque na hierarquia, em especial com suas pesquisas genéticas. Foi ele quem desenvolveu um teste capaz de prever que pessoas seriam geneticamente compatíveis com um processo de conversão laminaoctis. Ele tem cerca de 340 anos, tem muitas ideias interessantes, e muitas preocupantes. Em geral nunca conseguia convencer muitos a apoiar suas propostas, mas temo que com os recentes acontecimentos ele ganhe mais adeptos.

- E acha que ele seria o principal responsável por nossas recentes dificuldades de comunicação?

- Certamente. Recomendo prestarem mais atenção com exatamente que membros do conselho tem sido designados para troca de informações.

- Sim. Irei sugerir a meus superiores para observá-lo melhor.

A conversa ainda se prolongou por quase uma hora, até que se despediram. Os visitantes foram até o carro em frente ao jardim da casa, onde um motorista e uma freira os aguardavam, e partiram, aparentemente satisfeitos com a entrevista.

- Agora meu amor... É hora de irmos. Nossa Lua de Mel nos espera.

LUA NEGRA DE MEL

Em seu meio milênio de vida, Vampel percorrera vastamente a América do Sul, estando possivelmente em todos os estados do Brasil. Mas após assumir identidade civil e começar a se passar por uma cidadã normal do Império, perambulou principalmente pelo Sudeste e Centro Oeste brasileiros.

Após duas semanas de Lua de Mel, estava de volta agora aos arredores de Araxá-MG, num de seus sítios mais discretos, que ocasionalmente hospedava outros lamianoctis que porventura visitavam o país. Denilson ficou bastante surpreso com a estrutura que existia para atender as necessidades específicas de criaturas que não podiam se expor à luz solar. Os poucos funcionários locais eram muito discretos, bem pagos, prestativos e nunca faziam perguntas potencialmente problemáticas.

Caminhavam no limiar do sítio, defronte a uma mata de galeria que cercava o riacho. Afastados das luzes, por mais que o céu estivesse limpo e a noite fortemente estrelada, Denilson andava quase às cegas sendo levado por sua companheira, que enxergava perfeitamente.

- Para mim, é tão claro quanto seria uma noite de Lua Cheia exepcionalmente clara.

- E quão claro é uma noite de Lua Cheia para você?

- Como um dia nublado.

- E num dia de Sol não conseguiria...

- ...nem abrir os olhos. - Parou e o abraçou, olhando nos seus olhos, bem perto para que pudesse vê-los mesmo com tão pouca luz. Ele tinha uma lanterna mas preferia acostumar a vista com a escuridão. - Infelizmente não posso acompanhar você sob o Sol. Somente em dias muito nublados eu posso arriscar alguma exposição. Sinto muito. Mas à noite serei toda sua. Sempre.

- Estou começando a enxergar. - Disse e puxou ela pela mão, tentando andar no escuro.

- Na verdade a maioria das pessoas consegue com algum esforço. Antigamente todo mundo sabia andar no escuro. Não tão bem quanto eu, claro.

- Então... Me dá licença.

- Hum?

- Preciso fazer algo que laminoctis não fazem. - Disse sorrindo. - Tem que ser um momento a sós. - E realmente conseguindo se guiar, foi até um canto mais afastado do mato.

- Desculpe. Havia me esquecido como era. - Afastou-se sorrindo, dando-lhe a privacidade desejada.

Caminhou no escuro lentamente, sem olhar mas sem deixar de ouví-lo, captando em detalhes o som da urina atingindo o solo, se deliciando com um momento tão tolo mas, que por isso mesmo, tornava a situação tão mais real. As necessidades humanas do companheiro que nos últimos 90 anos ela não precisara se importar. E foi estranho pensar nisso, pois só então passou a considerar as necessidades sexuais dele, que nessa idade dificilmente adormeceriam.

E não saberia dizer se esse pensamento aguçou seus sentidos, ou se foi essa percepção que inspirou o pensamento, pois justo naquele momento sentiu a presença que não sentia há mais de um século.

Foi tudo muito rápido.

Num instante percebeu um vulto descendo em direção a Denilson, mas antes que pudesse se mover, antes que pudesse ao menos gritar, outro vulto desceu em sua direção, agarrando-a. Horrorizada percebeu que foram ainda mais separados do que já estavam.

A criatura tentou levá-la para o alto, mas não conseguiu e terminaram caindo no chão, rolando no caminho de areia clara. Se ergueram ao mesmo tempo e se observaram. E então se reconheceram. A mesma súcubo que assistira sua semelhante ser morta nas mãos de Vampel.

Foi há 142 anos! Mas lá estava ela! Os mesmos cabelos brancos, contrastando com a tez mulata bronzeada, olhos dourados, pronta para se vingar.

Em poucos segundos se sentiu incrivelmente estúpida. Como pudera trazer seu amado de volta para a mesma região, quase o mesmo lugar, onde aquilo acontecera? As succubus podiam viver até mais que lamianoctis, podiam hibernar por décadas. Era certo que não via nenhuma delas há mais de um século, mas como não fora capaz de antever essa possibilidade?!

Ao longe ouviu Denilson sendo atacado pela outra súcubo, e sabia que não poderia correr em seu socorro. Teria que enfrentar aquela primeiro. Ele era um jovem saudável e resistente, suportaria no mínimo um ou dois minutos. Três no máximo. Era esse o tempo que ela tinha para se livrar da adversária que tinha à frente.

A visão de uma sucúbo é mais acurada e sensível que a de uma lamianoctis, por isso a demônia percebia até a cor vermelha das córneas de Vampel quando esta avançou. Não teve tempo de decolar, sendo levada o chão pelo ataque brusco, ela reagiu puxando a inimiga por trás, com a cauda e as asas, tentando tirá-la de cima dela e abrir espaço. Seu objetivo era travar uma luta com mais liberdade de movimentação, pois entendera porque sua mãe, há quase um século e meio atrás, ficou em desvantagem.

Ludmilla por outro lado anteviu isso perfeitamente, pois reconhecera a súcubo, que estava maior, com asas mais longas, evidentemente mais madura e mais forte, mas definitivamente era ela. A mesma que vira sua companheira ser morta e a encarou na floresta, mas não teve coragem de descer do alto para enfrentá-la. Devido à semelhança, era bem possível que fosse filha dela. Não deixaria ela se afastar, tinha que se aproveitar da vantagem de sua força superior.

A demônia porém conseguiu forçar sua oponente a recuar, enrolando a cauda por trás em seu pescoço, pretendendo estrangulá-la, e puxando pelos ombros com os polegares das asas. Vampel percebeu que era melhor inverter a abordagem, deixou-se ser puxada pelas costas e no momento certo girou o corpo afastando-se mais e se livrando da cauda em torno do pescoço, fazendo a súcubo perceber que parecia inútil tentar estrangulá-la, pois a vampira nem sequer pareceu se incomodar e nem mesmo procurou tomar fôlego após se livrar. A lamianoctis agarrou então as asas da inimiga, com intenção de quebrá-las, como fizera da outra vez.

Mas a adversária não facilitou. Antevendo a abordagem usou as próprias asas para puxar o corpo contra a oponente, atingindo Ludmilla com os dois pés na esperança de empurrá-la e conseguindo desvencilhar uma das asas, mas Vampel segurou a asa esquerda com as duas mãos, pronta para torcer as articulações dos dedos até quebrá-los. A súcubo cravou as unhas nas mãos brancas da lamianoctis e finalmente conseguiu se soltar, recuando e prontamente saltando para o alto tentando alçar vôo.

Não o teria feito se fosse mais experiente em combate. Sair do solo era justo a etapa mais lenta e difícil do vôo de uma succubus, pois não tinha como mover as asas em toda a sua amplitude devido a barreira sólida do chão, o que em geral as fazia pular primeiro, com as asas apontadas para cima, e então movê-las depois. Mas o salto só seria realmente eficiente se tivesse tomado muito impulso, agachando-se mais e se lançando ao alto tanto com as pernas quanto com os braços. Não o tendo feito devidamente, foi fácil para Vampel, num único salto, agarrá-la antes que se distanciasse.

Apesar disso, foi uma surpresa que essa súcubo parecesse ter asas mais fortes que sua mãe, visto que insistindo no ruflar violento das asas conseguiu se erguer mais alto levando a vampira com ela. Um arrepio tomou conta de Ludmilla, que teve que se agarrar com mais firmesa contra a adversária, sentindo-se subitamente mais fraca. Enquanto as enormes asas as levavam para o alto, seus corpos se enfrentavam com os demais membros, e a cauda ainda colocava a lamianoctis em desvantagem, desferindo golpes doloridos que atingiam suas costas com a pequena, mas duríssima, unha da ponta, que ainda inoculava uma substância incômoda.

Vampel sabia, porém, que se tratava de um dos muitos recursos que as súcubos tinham de provocar ereção intensa nos homens, ou prolongar-lhes o desempenho sexual e produção de esperma. Em tese seria inútil contra ela, mas as perfurações ainda eram lesivas e o hormônio podia elevar os batimentos cardíacos de forma letal, podendo até mesmo ser utilizado como veneno cardiovascular, além de em mulheres normais também serem afrodisíacas. Não tendo impulso sexual e com um sistema caríaco diferente, tudo indicava que lamianoctis seriam imunes, mas ainda não se conhecia possíveis efeitos de superdosagem em seus organismos.

Após ser perfurada nas costas pela enésima vez, Ludmilla agarrou a cauda, a puxou e a mordeu com toda força, sentindo quebrar as vértebras e provocando dor suficiente para a succubus perder altura, o que, como já estavam a mais de dez metros, era desejável, pois uma queda naquela altura podia não ser letal para a lamianoctis, mas seria no mínimo dolorida e considerando as condições, talvez até incapacitante por mais tempo do que Denilson ainda poderia resistir.

Quando mordeu a cauda, foi que algumas coisas ocorreram à Vampel.

Primeiro, se deu conta de que não lutava apenas a nível físico mecânico contra a adversária. Algo nela parecia sugar-lhe a energia. Alguns estudiosos chamavam succubus de Lamianoctis Absorvitas, devido sua capacidade de sugar uma sutil 'eletricidade vital" de quaisquer seres vivos, em geral de modo tão discreto que a maioria seria incapaz de compreender a razão de seu cansaço adicional, mas às vezes de forma mais intensa, e parecia que a capacidade extra de vôo da demônia estava sendo diretamente extraída da vitalidade de Vampel.

Segundo, se lembrou de respirar, sentindo o ar revigorante restaurando parte de suas forças, e tendo ainda mais certeza de que a criatura lhe sugava energia na medida em que seu contato corpo a corpo aumentava. Quase como se a cada inspiração, parte do ar fosse drenado para a súcubo.

Terceiro, percebeu que o sangue de sua inimiga era surpreendentemente saboroso, e chegava a ser chocante essa percepção naquele momento. Então, só havia uma coisa a fazer. Se a súcubo era uma Lamianoctis Absorvitas, Vampel era uma Lamianoctis Hematophagus, e então contra atacou de forma equivalente, cravando os dentes no pescoço da demônia.

Sugou o sangue violentamente enquanto a succubus reagia com ainda mais agressividade, cravando as unhas das mãos na inimiga, mas sem evitar ficar mais fraca e perder altura. Por fim se deixou cair, pois precisaria usar os dedos das asas para se livrar daquele abraço mortífero. Bateram no chão e o impacto fez Vampel soltá-la por um momento, mas também desnorteou a demônia. Levantaram-se ao mesmo tempo mas a lamianoctis foi mais rápida. Correu contra a adversária, saltou nela e com as pernas abraçou tanto os braços quanto as asas da súcubo no momento exato em que estavam em posição vulnerável, com os braços ajudou a imobilizar os dedos das asas, e mais uma vez cravou os dentes em seu já rasgado pescoço.

Não demorou muito tempo.

Ainda que a inimiga retaliasse, não apenas com as unhas, mas aumentando ainda mais a sucção de energia, não podia compensar a perda de sangue que chegava a produzir uma euforia viciante na vampira. Foi num estalo que se lembrou que precisava parar para socorrer seu marido.

Saindo de cima da agonizante inimiga, chegou a ficar tonta com a sensação que o sangue lhe causara. Bebera bem mais do que normalmente precisava, e vomitou um bocado. Então deu-lhe as costas, convencida de que ela não tinha mais condição de se levantar, e correu até Denilson.

Aqueles poucos metros pareceram uma distância interminável. Sentiu que demorara muito, mais do que Brasílio, há 142 anos, foi capaz de aguentar. Foi difícil correr, rasgando o pouco que restava das roupas. Sua pele branquíssima escurecida por imensa quantidade de sangue tanto da súcubo quanto que o que escorria de seus ferimentos. O "veneno" afrodisíaco certamente lhe afetando, pois sentia seu coração vibrar mais intensamente do que nunca, como se fosse explodir, e seu corpo estava anormalmente quente.

Mas então viu a bendita cena.

O que antes temera ser a pior coisa que poderia lhe acontecer, dera lugar ao alívio de ver a outra súcubo já indo longe, em retirada, Denilson terminando de se levantar, tentando ajeitar as calças e aparentemente bem, ao lado de outro homem, completamente nu e branquíssimo. Outro lamianoctis que acompanhava com os olhos o vôo da demônia, um tanto frustrado com sua fuga.

- Marlon!? - Vampel gritou em surpresa. O lamianoctis se virou para ela. O velho rosto amigável, que nunca lhe pareceu belo, era agora como o de um anjo. Mas ela agarrou Denilson, que ficou assustado com o estado dela e a força desmedida do abraço.

- Denil! Denil... Den...- E então fez o equivalente a chorar, sem lágrimas, em desespero, implorando perdão e se culpando.

Denilson limpou o rosto dela, mais preocupado com sua esposa que com si mesmo. - Calma! Calma amor... Eu... Eu estou bem. - E de fato parecia, apesar de um tanto ofegante. - Mas... O que aconteceu com você? - E então, ela contou muito breve e resumidamente.

- Era ela... Tenho certeza... Ela voltou pra se vingar... 142 anos atrás e... - O abraçou de novo. - Como pude ser tão estúpida! Coloquei sua vida em risco...

- Confesso que fiquei assustado, mas Marlon chegou rápido! Bem antes de começar a ficar... - O que iria dizer deixaria claro que a experiência não teve tempo de ser desagradável, mas ele se conteve. Vampel se virou então para Marlon e o abraçou.

- Obrigada irmão... Muito obrigada... Isso paga mil vezes a dívida que você tinha comigo. Agora sou eu que lhe devo.

Marlou agiu com cortesia, afastando um pouco para observá-la melhor. - Você está bem? Foi bastante ferida e seu coração está...

- Estou. Não se preocupe. Ela tentou me estrangular, me intoxicar e... Mas estou bem. E você? O que estava fazendo aqui?

- Eu tenho morado por essas matas. Além disso a Irmandade me pediu para vigiar vocês. Não gostaríamos que algo estragasse sua Lua de Mel e... Com esses relatos de súcubos...

Ela o abraçou de novo. - Muito obrigada!

- Espere, vamos ver isso. - Ele começou a examinar seus ferimentos, Denilson também, apesar de enxergar muito menos.

Ele havia terminado de urinar quanto sentiu um arrepio espantoso, e uma ereção quase instantânea, e de repente havia sido derruado no chão e a súcubo estava sobre ele. Foi um susto. Ficou paralisado por um momento, sem enxergar direito o que acontecia, mas seu corpo entorpecido por odores que jamais havia sentido o deixaram sem reação, e não demorou a sentir prazer, o que por outro lado o deixou muito apreensivo. Chegara a pensar se fora alguém enviada por Vampel para satisfazê-lo naquilo que ela não podia, e só então se deu conta do que se tratava.

Então, quando começou a sentir um calafrio ainda mais intenso, como se seu fôlego fosse puxado mais e mais e começava a ser incômodo, a criatura foi arrebatada de cima dele. Marlon, como todo lamianoctis, mesmo tendo forma masculina, era completamente insensível aos encantos das succubus. Aliás sua genitália era tão atrofiada que mais parecia um querubim renascentista. Travou combate com a demônia, mas a capacidade de vôo dela o manteve a distância durante a maior parte do tempo, tentando contorná-lo e avançar para Denilson, que ainda estava no chão, tonto pela estranha experiência.

Num gesto de esperteza, a súcubo avançou e conseguiu derrubar Marlon no chão, e então ela saltou para o céu e sumiu ao perceber Vampel se aproximando.

- Isso está feio... Mas não é nada grave. - Disse Marlon, observando os vários ferimentos que deveriam desaparecer em no máximo um mês. Ele próprio tinha apenas dois arranhões mais superficiais. - Mais me preocupa os possíveis efeitos colaterias dessa toxina.

- Temos um físico aqui.- Vampel disse a respeito de um dos funcionários do sítio, que era da Irmandade e tinha conhecimentos médicos sobre lamianoctis, e todos foram para a casa de campo.

Ela não lutava há 57 anos, e nesta nesta última ocasião não fôra um desafio, pois apenas dominara dois assaltantes que tiveram a infeliz ideia de tentar lhe subtrair seus pertences, e além de não conseguirem, ainda perderam cada qual meio litro de sangue. Sentiu-se "fora de forma", mais fraca e descuidada. Teve dúvidas se teria vencido a provável mãe daquela que acabara de lhe atacar, que era seguramente mais experiente. Precisava voltar a treinar.

Mais tarde, por volta das 5:30 da manhã, curativos aplicados, Marlon finalmente se despediu, após um longo agradecimento de sua irmã. Correu para a mata, rapidamente desaparecendo. Denilson tentava a todo custo tranquilizar sua esposa, que dera uma série de telefonemas em busca de um local mais seguro para continuar sua Lua de Mel. O modo como ela se culpava por quase tê-lo perdido o enchia de pena.

Mas ele foi sincero. Antes temera adentrar naquele estranho mundo. Levara a sério as ameaças sobrenaturais e elas eram, aliás, o que mais lhe fizeram adiar sua inevitável aceitação da proposta. Mas agora, confessava que aquele evento, embora ainda um tanto assustador, ao mesmo tempo fôra fascinante, lhe fazendo sentir com mais intensidade a realidade em que se envolvera, que mesmo com a presença dos outros lamianoctis no casamento, ainda era um tanto intangível.

Agora não. Agora ele sentia tudo com uma plenitude que jamais imaginara, e o isso o fazia sentir-se mais vivo, e feliz do que nunca. Tentou então transmitir tudo isso para sua esposa, esforçando-se para convencê-la a se perdoar.

- Temos que ir para bem longe, além do alcance dela que... Certamente poderá rastreá-lo agora. Mas há limites. Uns 3 a 4 mil quilômetros deve bastar. E de preferência num local frio. Elas não gostam de frio.

- Não quer ir logo pra Europa?

Ela o olhou como se implorasse. - Não... Depois. Quero que fiquemos sozinhos por mais tempo. Se formos agora... Estarão o tempo todo me procurando. Ainda mais depois desse ataque. Aahh... Maximilian vai fazer mil perguntas!

- O que há de tão errado com esse cara? - Ele perguntou sorrindo, curioso, mas um tanto preocupado.

Como frequentemente fazia quando mergulhava em memórias, ela olhava pro vazio. - A princípio... Nada concreto. É mais uma intuição que me avisa que é preciso ter cuidado com ele. Ele tem... Uma certa fixação por mim.- Olhou para seu marido e sorriu. - Não se preocupe. Não é nada afetivo. É uma curiosidade científica. Ele me considera a mais misteriosa das lamianoctis, porque nunca conseguiu mapear meu DNA e não consegue me encaixar em nenhuma linhagem. Diz que sou um tipo de anomalia. - Quase começou a rir mas então sentiu uma dor no pescoço. O aperto da cauda da súcubo, deixara um marca que demoraria alguns dias para desaparecer. Marlon devia estar agora sumindo com o corpo dela.

- Na verdade você vai gostar de Maximilian. Todos gostam. Ele é carismático, simpático... Mas... Um tanto orgulhoso. E esse nome... -

- Kater...

- Katehon.

- Katehon... O que tem de estranho nesse nome?

- Maximilian é seu nome original, e ele escolheu Katehon, que é uma palavra grega que significa... Bem. Algo como 'anjo', 'enviado de deus', ou 'preseça de Deus na Terra.'

- Uau! - Denilson confirmou com a cabeça. - Realmente não é nada modesto.

Ludmilla riu, mesmo sentindo a dor no pescoço. - Não... Ele não é ... NA-DA modesto!

O telefone tocou e ela atendeu rapidamente. Conversou em francês por um tempo e enfim desligou.

-Consegui. Temos uma casa em Ushuaia, na Terra do Fogo. Lá é longe e frio demais para as súcubos se arriscarem.

- Ushuaia... Legal. Eu nunca vi neve.

Ela olhou para ele, fascinada. - Não. Nem você, nem Juliano, nem Brasílio nunca viram. Foi um dos sonhos não realizados deles. Ver a neve, e ver uma...

- Aurora boreal?!

E ela quase teve um êxtase ao ouvir aquilo. Não cansava de se surpreender com o fato dele nada ter mudado. Abriu um dos maiores sorrisos que ele já viu. - Sim. No caso, podemos ver uma Aurora Austral.

Enfim, foram dormir assim que o Sol nasceu. E mal o Sol se pôs, foram até o aeroporto da cidade e tomaram um jato particular. Desembarcaram no extremo sul da Argentina no fim da madrugada e chegaram à casa que ela conseguira pouco antes do amanhecer.

E a sorte fez com que Ludmilla arriscasse observar o horizonte já clareando, por trás da montanha, os raios do Sol já começando a ser notáveis por entre as nuvens, enquanto observavam o raro espetáculo de uma Aurora Polar.

F I M

Marcus Valerio XR

Outubro de 2017 a Janeiro de 2018

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