Versão 6.

OBS: Este texto não está finalizado. A qualquer momento posso decidir acrescentar alguma coisa, conforme possa me ocorrer ou ser solicitado. Sempre é tempo para comentar um livro. As atualizações mais recentes estão em VERDE

CRIOGENIA

         Esta estória foi o resultado de uma série de idéias distintas que originalmente não estavam agregadas. Há muito tempo eu já alimentava a idéia de escrever algo sobre um homem que fora criogenado e descongelado 5 mil anos no futuro, muito além do esperado. Esse foi o ensejo inicial. Não tinha um motivo, apenas queria que fosse assim, um salto imenso para um longínquo futuro, onde eu também já imaginava um planeta Terra vastamente florestal, livre da maior parte das cidades e aglomerados urbanos, com uma baixíssima, embora abastada e sofisticada população. O título do esboço original era apenas "5.000", que depois se tornou o título do primeiro capítulo em algarismo romano, o "V" com um travessão acima.

         Nunca gostei de lidar com o tema das viagens no tempo, por estas serem essencialmente irracionais (Crononautas é uma parcial exceção.) exceto aquelas que avançam apenas para o futuro. Mesmo assim preferi que meu "viajante do tempo" fosse para o futuro por um outro método, mesmo para evitar a implausibilidade de já termos, em nosso presente ou futuro iminente, algum dispositivo que permita avançar no tempo, pois GRADIVIND, diferente de outras estórias minhas, parte de nossa realidade factual, ou seja, pressupondo que todo o nosso passado real está intocado, diferente do Universo DAMIATE por exemplo. A idéia de criogenados despertarem em futuros longínquos e imprevistos já tem sido recorrente na FC, em especial televisiva.

         Por sinal, para viabilizar tal situação, era imprescindível sair do Universo DAMIATE, embora eu já tivesse considerado a possibilidade de ambientar essa premissa inicial nele, visto que daqui a 5 mil anos, ainda seria cerca de 3 mil anos à frente de ALICE 3947, e há muito que penso em dar um tipo de catarse final no Universo DAMIATE exatamente por volta do ano 5.000 dEC, isto é, dois mil anos antes de GRADIVIND, que seria o ano 7.000 dEC. No entanto, neste universo há premissas de influência mentalista que tornariam inviável a simples idéia da criogenia em si, visto que isso implicaria em paralisar apenas o corpo físico, deixando o astral e o mental completamente livres. O diálogo que coloquei no começo da estória, entre o protagonista e a tatuadora, visa chamar atenção para essa possibilidade, que descobri pela primeira vez ao ver um episódio de uma série de ficção fantástica, provavelmente PSI Factor, onde o espírito de um homem assombrava uma personagem, pedindo socorro, congelado, querendo ser libertado de sua prisão criogênica.

         Isso não aconteceria no Universo DAMIATE. O corpo astral e mental de uma pessoa congelada simplesmente ficaria livre, visto que não receberia mais nenhuma influência do corpo físico, causando o rompimento completo da ligação vital. Ou seja, para todos os efeitos, seria como se seu corpo tivesse morrido, e sua mente teria o destino adequado a suas características, isto é, dissolução nos planos astral ou mental, o que resultaria na total extinção da individualidade, ou dependendo de seu grau de meta-individuação, a permanência no plano astral, sendo até possível sua conexão com um futuro novo corpo. (Embora no Universo DAMIATE a maioria das mentes jamais "reencarne".)

         O que inviabilizaria o tema desta estória é que no Universo DAMIATE, quem fosse descongelado após muito tempo teria um destino similar ao dos que foram ressuscitados após muito tempo da morte, ou seja, sofreriam no mínimo uma mudança radical de personalidade, passando a produzir, com o tempo, uma nova mente individual. Ou seja, a Continuidade Mental seria rompida. Isso, ou então, no caso de uma mente mais coesa, esta poderia se reconectar com o corpo físico, mas isso traria toda sua experiência no astral, que neste caso não seria perdida. Poderia até mesmo haver o caso de uma mente muito poderosa que já estivesse em outro corpo, detectar o descongelamento do corpo original, e conectá-lo telepaticamente. Ou seja, criogenia no Universo DAMIATE é um assunto complicado, provavelmente invocaria MetaNaturalidade e inviabilizaria o estória como ela se desenvolveu.

O VALE MURADO E A CIDADE FLUTUANTE

         Estes foram resultado de um sonho que tive certa vez, de um homem que, por algum motivo, acordou dentro de um vale completamente cercado por montanhas intransponíveis, embora fosse vasto e farto, e com uma misteriosa nuvem central e imóvel. Na verdade, não sei quanto foi sonho, e quanto foi um complemento deliberado após me dar conta de ter sonhado, enquanto ainda estava na cama de olhos fechados. Faço muito isso. Desperto, mas logo em seguida tento dormir de novo, e num estado semi consciente vou tentando desenvolver o sonho.

         A cidade flutuante foi deliberadamente inspirada na Laputa de JohatHam Swift, mas em especial no desenho de Hayao Miyazaki, com o qual coincide com o fato da cidade estar abandonada. Assim, a idéia do personagem construir uma asa delta e tentar alcançar a cidade também já estava prevista nessa estória / sonho que outrora cheguei até em pensar desenvolver num conto totalmente diferente. A idéia de fundi-la com a do homem descongelado 5 mil anos no futuro surgiu assim que comecei a escrever o primeiro capítulo.

SATÉLITE DE JÚPITER

         Essa era outra idéia totalmente independente. Eu tinha ensejos de escrever algo sobre um grupo de pessoas que por algum motivo vai a um distante futuro mas pensa estar em outro planeta pelo fato de avistarem um imenso planeta joviano nos céus. Com isso, a história giraria principalmente em torno do assombro dos personagens e, em como descobririam que estavam sim, na Terra, que fora movida pelo espaço por algum evento que não cheguei a desenvolver.

         No começo não gostei da idéia de misturar esses temas, mas vi que não havia muito além dessa idéia primária, ao passo que já estava desenvolvendo no GRADIVIND uma série de noções que acabaram acolhendo essa situação. Minha maior resistência a essa fusão era que na concepção original, era um grupo de pessoas, inteligentes, que discutiam entre si sobre o que poderia ter acontecido.

         Acabou ficando no situação de um homem solitário, mas que tem inicialmente uma série de informações a serem desvendadas, e depois sistemas de dados mais sofisticados, embora tenha que enfrentar uma série de dificuldades para entender o que de fato aconteceu.

         Pode soar especialmente inverossímil a idéia de que a biosfera terrestre sobrevivesse a um afastamento de tal natureza, mas devo lembrar alguns pontos que foram levantados apenas sutilmente, e sugerir outros, perfeitamente dedutíveis, para aumentar o grau de plausibilidade da idéia.

         Está sugerido que o planeta está sim mais FRIO, como seria de se esperar. O protagonista, na Parte 1, relata o congelamento diário de lagos e rios a partir da noite até às manhãs. No entanto, ele tem dificuldade para se dar conta disto pelo fato de seu corpo já ter sido adaptado a uma temperatura mais baixa, bem como sua Veste possuir um poderoso sistema de isolamento e manutenção da temperatura corporal. E embora o protagonista desconfie que esteja em algum lugar da Ásia, é evidentemente impossível determinar se esta seria a parte mais aquecida do planeta, visto que o eixo meridiano poderia estar suficientemente inclinado para que aquele fosse, até mesmo, o local mais quente do mundo.

         Mas o mais importante é que existem modos de conservar o calor num planeta mais distante. Pode-se aplicar substâncias em sua atmosfera para intensificar o efeito estufa, ao mesmo tempo que permite maior entrada de raios solares, ou pode-se até mesmo instalar usinas geradoras de calor, preferencialmente nos pólos.

         Ademais, durante o processo de mudança da Terra, o GRADIVIND seguramente adotou providências especiais. Foi citado inclusive que a órbita da Terra em torno de Júpiter é suficientemente inclinada para que ela jamais entre em sua sombra. Além do mais, com a destruição de Marte, e com a guerra espacial utilizando toda sorte de armas gravitacionais, e a posterior interferência do GRADIVIND, fica implícita a possibilidade de uma alteração vasta na configuração do sistema solar, que poderia até mesmo ter aproximado Júpiter do Sol, ou mesmo tornado a estrela mais quente.

         Em RAIO-Y, há um exemplo detalhado de terraformação capaz de transformar um mundo completamente inóspito num planeta habitável, e isso com uma tecnologia bem inferior ao de GRADIVIND.

FLORESTAS FRUTÍFERAS

         Foi lendo Herland que me empolguei com a idéia de que uma agricultura voltada para produção de frutos em árvores altas poderia ser muito mais vantajosa, devido a sua verticalidade, do que uma que demande imensos campos horizontais sem aproveitamento algum do eixo Y. Mas isso exigiria uma tecnologia biogenética avançada, que poderia produzir uma imensa variedade de árvores transgênicas capazes de dar frutos por todo o ano ocupando um mínimo de espaço horizontal. E de preferência ofertando frutas pequenas, macias e leves, que não ofereçam risco ao caírem das alturas, podendo ser facilmente consumidas.

         Além do mais, embora eu próprio não seja um vegetariano, acredito que realmente só teríamos a ganhar se, no futuro, eliminássemos o consumo de carne substituindo-o por alternativas não somente vegetais, mas mesmo frugais. Sem levar em conta questões místicas ou éticas, penso mesmo que o veganismo poderia ser extremamente benéfico para uma civilização se fosse racionalmente instituído, aos poucos, ao longo de um progresso social de longo prazo. Creio que na própria estória isto esteja bem justificado, visto que as florestas transgênicas que cobrem quase toda a área emersa do planeta dispensam qualquer sistema de produção alimentar em escala industrial, fazendo a humanidade voltar ao estilo de coleta, num sentido também mais poético. Colhendo os "frutos" de um vasto avanço tecnológico e planejamento social.

"RANGER-X"

         Uma das minhas muitas inspirações para esse estória foi o videogame Ranger-X para Mega Drive / Genesis ("Ex-Ranza" na versão japonesa). Em especial esta terceira fase abaixo.

         A música espetacular acompanha um robô combatendo hordas de inimigos no cenário deslumbrante de uma floresta no futuro, que foi exatamente a imagem inicial que tive, talvez a pedra mental fundamental de toda essa estória. Foi pensando nessa sequência que, subitamente, imaginei uma Terra muitos milênios no futuro, fisicamente selvagem, com parcos humanos vivendo no subterrâneo. Mas minha visão inicial incluía heróinas, totalmente humanas, pilotando os robôs.

         Essa mesma fase conclui, no confronto com o "chefe de fase", com a imagem de um lago, que reflete uma montanha, parecida com o monte Fuji, que também me inspirou visualmente. Assim, tenha certeza de que GRADIVIND deve sua existência a Ranger-X, por sinal, um dos melhores jogos de Mega Drive e um de meus favoritos.

AS TETRAHUMANAS

         Sempre achei que, a não ser que uma tragédia roube nossa ciência e tecnologia, a humanidade do futuro será inegavelmente mais alta. Pouco me importa que alguns estudiosos da atualidade pensem que as mulheres do futuro serão mais baixas, crentes de que a evolução irá se sobrepor sobre a vontade e vaidade humanas. Digo isso porque cada vez são mais acessíveis os mais diversos métodos de intervenção corporal e que a manipulação genética das futuras gerações é fato inevitável.

         Na verdade, somar as potencialidades de determinação anatômica do futuro e as perversões corpóreas do presente pode soar quase como um pesadelo. Temos um mundo repleto de piercings, tatuagens e toda forma de body art que varia desde o sublime e belo até o horripilante e asqueroso. Imagine isso potencializado por avanços enormes nas áreas de cirurgia estética!

         Primeiro pensemos. Quantas mulheres lamentariam ter seios pequenos se procedimentos de "turbinagem" fossem tão baratos, rápidos e seguros quanto uma escova progressiva? Quantos homens não eliminarão suas barrigas quando procedimentos equivalentes a lipoaspirações forem tão triviais quando extrair um dente? Quem se conformará com a baixa estatura quando as cirurgias de alongamento das pernas não consumirem mais que poucos dias de repouso e parcos recursos financeiros, quem sabe até sendo pagas pelo estado?

         E agora pensemos. Quantos não se submeteriam a intervenções muito mais exóticas? Num mundo fascinado por criaturas fantásticas, penso que orelhas pontudas e olhos brilhantes seriam só o começo da lista de alterações corpóreas mais desejadas no futuro. E considerando todos os fetiches que podemos encontrar, todas as "tribos" urbanas, potencializadas pelos relativismos que louvam "mulheres-girafas", não me surpreenderia se padrões nada menos que inumanos passassem a ser perseguidos por ousadas neo gerações. Teremos certamente muitos problemas com relação à liberdade de determinar a própria aparência e os padrões moderadores do conservadorismo e do simples bom senso.

         Salvo uma catástrofe que destrua nossa civilização, a humanidade do futuro vai ficar diferente, provavelmente mais saudável e mais de acordo com seus próprios padrões estéticos. E se não tenho muita dúvida em afirmar esse progresso na medicina estética, tenho muitas dúvidas em exatamente quais serão tais parâmetros estéticos, por isso, acho difícil prever o que será considerado bonito e atraente daqui a mil anos, quanto mais a 5 mil.

         Ademais temos as questões práticas. Quando isso for possível, porque ficaríamos restritos à estética. Porque não nos fazer mais fortes, rápidos, resistentes, com recursos que hoje são inalcançáveis? Com tantos defeitos típicos desse nosso corpo tão imperfeito, porque nos satisfazer com joelhos de tão má qualidade, colunas vertebrais que não parecem se adequar a posição alguma ou limitações tão tolas quanto a impossibilidade de ver as próprias costas ou "colocar o nariz no cotovelo"?

         Portanto, GRADIVIND foi uma oportunidade de explorar algumas possibilidades. Há opções pragmáticas, como úteis caudas ou asas, e opções estéticas, como peles prateadas ou ausência de cabelos. Poderia ter pensado em muitas outras, e até sugeri que existam muitas outras configurações corpóreas, mas essa não era a principal preocupação da estória.



Seria essa a aparência facial da última versão de Dir-Zá?
Eu imagino olhos maiores. Afinal Lilly Cole não fica muito longe.
Também uma de minhas maiores referências visuais ao imaginar as tetrahumanas, ao menos a cabeça, é a ginóide de comercial Philips Robotskin.

GINOCRACIA

         Em paralelo, lidei nesta estória, mais uma vez, com um futuro onde as "mulheres" se tornaram as principais dirigentes da civilização. O que, sinceramente, penso que seja uma tendência macro histórica, se, insisto, tudo correr bem em termos de desenvolvimento. As "Formações" da humanidade pincelaram parte desse processo, em especial a questão da partenogênese, que tornaria o sexo masculino completamente dispensável em termos reprodutivos.

         Muito me impressiona que diversos escritores de FC tenham projetado nossas peculiaridades culturais para a quase totalidade dos espaços e tempos que suas imaginações lhes lograram criar, a ponto de praticamente reproduzir modelos culturais incrivelmente restritos, até mesmo em nosso próprio planeta, universalizando-os. Assim, seus extraterrestres, além de quase sempre serem tão atropônicos quanto nós próprios, também são de sexo masculino, além de brancos, anglo-saxãos, só ficando de fora a opção religiosa porque seria de uma falta de imaginação cavalar.

         Falando nisso, já não basta nossa quase onipresente concepção de Deus como sendo um ser masculino, quando os próprios conceitos de criação, conservação, justiça etc, são arquetipicamente femininos? Faria muitíssimo mais sentido que Deus fosse visto como um ente feminino, até porque a própria vida em si é um fenômeno mais próximo da feminilidade, visto ser a masculinidade apenas um recurso natural acidental que acelerou a evolução. É perfeitamente possível que numa outra biosfera se desenvolva uma forma de vida neutra, ou cuja dominância sexual permaneça com o sexo que se encarrega de 99% do trabalho reprodutivo.

         Mas isso vem pouco ao caso. Apenas aproveitei para exercitar essa noção que subverte as formas mais tradicionais de futurologia, embora a literatura que conceba futuros feministas, ou utopias feministas em geral seja bastante rica. Tanto homens quanto mulheres conceberam sociedades onde as mulheres se tornaram dominantes, ou mesmo o único sexo, e curiosamente tais sociedades sempre são retratadas de forma extremamente positiva. Por outro lado, jamais sequer ouvi falar de uma utopia onde só existissem homens, por motivos que me parecem óbvios. Mas isso é uma outra, e muito boa, discussão. (Em parte desenvolvida na Mensagem 800.)

         Em GRADIVIND, na Terceira Formação, temos na verdade uma civilização a princípio igualitária, mas com predominância de gerências femininas, de modo similar a que nossa sociedade ocidental tem se aproximado da igualdade de gênero embora com predominância masculina. Mas na Quarta Formação há praticamente o fim da sexualidade, gerando seres basicamente assexuados, mas que terminaram por conservar a aparência e modos do sexo dominante anterior, da mesma forma como muitos autores concebem seres a princípio neutros, como se fossem masculinos, a exemplo dos anjos.

UTOPIA ANARQUISTA E OU COMUNISTA

         Sempre foi preocupação dos ideólogos revolucionários libertar as classes trabalhadoras da servidão das classes dominantes, mas e se essas classes trabalhadoras não se importassem em servir?

         Muitos autores de FC abordaram exaustivamente esse tema, porém, quase sempre com a premissa de que a classe trabalhadora do futuro seria de máquinas que desenvolveriam consciência e se rebelariam contra seus criadores e senhores, numa nova versão da revolução de massas. Essa premissa se assenta na idéia de que a humanidade atingiu um nível onde a automação se tornou sua principal fonte de produção, e que uma categoria especial de máquinas dispensou o trabalho humano. Se deixarmos de acrescentar a isso a idéia de que desenvolveriam vontade própria e se rebelariam, o resultado óbvio é que a humanidade teria atingido um tipo de paraíso.

         GRADIVIND trabalha com a idéia, popular na FC por sinal, de que as máquinas atingirão o estado de auto suficiência, e eficiência, plena. Não precisaremos mais trabalhar, sistemas de produção automatizados e auto regulados cuidarão de tudo, e assim, o dilema de separa a sociedade em classes servis e classes servidas, ou numa única classe auto servida, ou, o que é mais factual, em várias classes relativamente auto servidas e interdependentes, terminaria. Com isso, restaria saber o que faríamos com o nosso tempo livre.

REPRODUÇÃO ARTIFICIAL

         Correlato e em contraste aos temas anteriores, o advento progressivo de métodos artificiais de reprodução, dos quais os "bebês de proveta" foram apenas o primeiro e tímido passo, poderão vir a contribuir para a própria obsolescência da sexualidade. O que já se insinua nas Segunda e Terceira Formações, mas só se consuma na Quarta.

         Não se trata de pular um mero estágio do sistema reprodutivo, mas todo ele, conservando no máximo parte do patrimônio genético. Corpos podem vir a ser completamente construídos por métodos puramente artificiais, podendo ter como ponto de partida uma ou mais matrizes de DNA, ou mesmo nenhuma, apenas seguindo modelos previamente concebidos e otimizados.

         No entanto isso poderia extinguir apenas a finalidade biológica da reprodução, não necessariamente seus meios sensuais. Uma coisa é abrir mão de um procedimento custoso em prol de um mais eficaz tendo o mesmo resultado, outra, bem diferente e mais difícil, é abrir mão dos prazeres advindos de tal procedimento. Portanto, é possível que mesmo com a total superação da reprodução sexual normal, ainda seja resguardado o prazer sexual, como aliás, os próprios métodos contraceptivos já o fazem num nível mais restrito.

         Difícil saber se isso levaria a uma diminuição ou aumento do apetite pelo prazer sexual. Em GRADIVIND optei pela diminuição, de modo que sexo é um tipo de diversão praticado por apenas uma minoria da humanidade, que pode se reproduzir por métodos bem mais práticos, contando com a idéia de que muitos prefeririam suprimir seus impulsos sexuais se isso fosse facilmente possível. Embora possamos imaginar o inverso. Na falta de todos os problemas típicos da reprodução sexual, inclusive as doenças, também é possível pensar que haveria um incremento maciço de sua prática, o que poderia consumir muito tempo livre. E vimos que na Terceira Formação isso em parte foi utilizado para neutralizar as investidas masculinas que tentavam retomar o controle da civilização.

AS FORMAÇÕES DA HUMANIDADE

         Podem ter ficado um pouco confusas, eu mesmo me atrapalhei às vezes, mas podem ser esquematizadas de um jeito simples, dando enfoque especial à questão reprodutiva. Todas as datas são aproximadas, referindo-se aos períodos em que a maior parte da humanidade se reproduzia pelo método em questão, não havendo, claro, um limiar claro entre uma formação e outra. Na verdade, o advento das novas formações apenas significa que a maior parte da população passou a adotar tal método. Jamais significou a completa extinção dos métodos anteriores.

F.ErasReproduçãoCaracterísticas
1a até
2500
dEC
Sexual normal Começa desde os primórdios da humanidade, sendo seu estado original.
2a 2500
a
4000
Artificial, em câmaras de gestação Começando com a inseminação artificial até atingir processos de gestação que apenas coletavam o DNA dos genitores, mantendo os fetos em constante observação e manipulação nas câmaras artificiais. Começaram a surgir os transplantes de cérebro, embora pouco acessíveis.
3a 4000
a
5600
Sexual normal, partenogenética e auto fecundação espontânea. Todas as mulheres da nova geração passaram a ser dotadas de capacidade partenogenética. A auto fecundação foi uma mutação imprevista que se espalhou rapidamente em meados do Quarto milênio acelerando ainda mais o aumento da parte feminina da humanidade. Cérebros móveis começam a surgir em 5400.
4a 5600
a
7000
Construção artificial de corpos. Não mais se tratava de "gestar" corpos em câmaras artificiais, mas de construí-los por completo, em questão de horas ou no máximo alguns dias. Alguns poderiam incorporar material genético prévio, mas a maioria era totalmente original, podendo ser feitos em versões infantis, produzindo cérebros novos, ou adultos, para receber cérebros móveis, que atingiram configuração definitiva, padronizada e controlada pelo SISTEMA em cerca de 5900.

         A partir de 6700 começam a surgir iniciativas organizadas de instituir uma nova formação, mas o disenso sobre quais deveriam ser suas características, que iam desde a eliminação de corpos carbônicos em favor de corpos silicônicos ou metálicos, até a reversão para uma forma próxima ao estado original, inviabilizou qualquer tentativa de implementação. Curiosamente, foi esta última proposta que ganhou mais adeptos, principalmente entre os extra terrestres, que aderiram em número bem menor à Quarta Formação. Mesmo assim, os movimentos acabaram sendo extintos, em parte por terem sido cooptados por grupos inexistencialistas que se infiltraram neles com o objetivo oculto de tornar a humanidade mais vulnerável ao extermínio.

         Enfim, só lembro que todas essas datas são aproximadas, devido aos eventos que inviabilizam uma contabilização precisa do tempo.

AS "ARMAS" SENSUAIS

         Enquanto eu começava a escrever a parte 2, ainda não tinha decidido as principais características das criaturas que o protagonista viria a conhecer. Na verdade, durante muito tempo oscilei entre idéias bem distintas, inclusive entre algumas que eram bem mais insinuantes, mas acabei decidindo pelo contraste entre criaturas assexuadas de aparência feminina, que ainda conservariam atributos sexualmente atraentes, sabendo muito bem que tipo de efeito isso pode ter sobre certos admiradores do tema.

         A idéia de transformar seios em armas é paradoxalmente antiga mas pouco disseminada, e me foi sugerida pela primeira vez pelos nomes de certas modelos e atrizes sensuais norte americanas de seios grandes, que faziam referência a armas, como Letha Weapons, Colt 45 ou BB Gunns. Ora, as idéias casavam. Se a reprodução normal fosse abolida, os seios teriam função meramente sensual, mas se a própria sexualidade o fosse, o único motivo para que as Tetrahumanas ainda os tivessem seriam novas funções.

         Não é uma idéia ausente nos meios de FC erótica, em especial na produção hentai, mas é curiosamente pouco explorada, principalmente onde mais deveria, os EUA.

OS CÉREBROS MÓVEIS

         Essa é outra idéia antiga que a princípio nada tinha a ver com nenhuma das anteriores. Decidi introduzi-la quando já estava no segundo capítulo, mas eu já planejava explorá-la largamente. Na verdade, me impressiona que ela já não tenha sido utilizada por autores em larga escala, se o foi, eu desconheço. Pois já flertamos com a idéia de transplantes cerebrais. Assim me parece que cérebros móveis seriam uma consequência natural do avanço científico.

         Há uma resistência contra a idéia. Eu próprio, ao pensar nela pela primeira vez, senti certa repulsa. Mas isso se deve principalmente devido a influência de crenças espiritualistas, para as quais "aprisionar" a mente exclusivamente ao cérebro soa como uma afronta, já não bastasse a própria criogenia em si ser mal vista pelos kardecistas, por exemplo. Portanto, obviamente, essa é outra idéia difícil de desenvolver no Universo DAMIATE, embora mais pelas consequências, não pela possibilidade em si.

         Não é a primeira vez que desenvolvo uma idéia absolutamente contrária à do Mentalismo. Em Além da Ressurreição trabalhei com a idéia da completa interdependência de mente cérebro, ainda que com a noção de um plano mental onde a mesma é resguardada no caso da destruição cerebral, só podendo ser recuperada com a reconstrução de um cérebro perfeitamente equivalente, a nível sináptico! Uma idéia que, por incrível que pareça, é bem antiga, estando presente na teologia bíblica, apenas substituindo a noção de mente pela de alma.

         Em GRADIVIND, esse plano mental não existe. O universo é claramente materialista, e a extinção do cérebro implica na extinção inevitável e irreversível da mente. Isso ocorre porque, não havendo um backup mental autêntico, seria impossível restituir com perfeição uma mente individual mesmo que seu cérebro fosse perfeitamente reconstituído a nível físico. Porque não bastaria uma reconstrução precisa dos cerca de 100 bilhões de neurônios, seria necessária a reconstituição de cada conexão sináptica, cada estrutura cognitiva que pode interligar um sem número de neurônicos específicos de forma diferente, e a quantidade de possibilidades existente está DEFINITIVAMENTE, além da capacidade de armazenamento de qualquer tipo de sistema de informação concebível! Não importa que tipo de computadores venham a ser desenvolvidos no futuro, não há, no universo, matéria suficiente para criar um banco de dados capaz de armazenar todas as possibilidades de conexões cerebrais!

         Como foi dito O SISTEMA pode guardar algumas estruturas cognitivas, embora não saiba exatamente o que elas são. Só a própria mente individual pode lhe dizer. Assim, pelo conceito de Superveniência Mente Cérebro em Filosofia da Mente, sabemos que a implementação de uma determinada estrutura física específica terá sempre um certo conteúdo mental, mas o mesmo conteúdo pode ser implementado por outras estruturas diferentes.

         Analogamente, sabemos que se copiarmos um CD de música, sua reprodução física exata certamente resultará no mesmo conteúdo musical. Mas esse conteúdo também pode ser reproduzido em estruturas físicas totalmente diferentes, e o mais interessante, mesmo sendo capazes de reproduzi-las, não sabemos o que elas são a não ser que as executemos. Muitíssimo menos, o computador poderia sabê-lo.

         Ou seja, a igualdade só funciona num sentido. Igual conteúdo físico implica em Igual conteúdo mental, mas não necessariamente Igual conteúdo Mental implica em Igual conteúdo físico. Somando isso ao fato de que é impossível determinar qual o conteúdo de tal estrutura física sem que ela seja implementada na mente, da mesma forma como um não falante de chinês pode até desenhar ideogramas, mas sem saber seu significado, então, O SISTEMA só poderia armazenar eficientemente os conteúdos mentais com a colaboração ativa da mente.

         Isso tudo apenas para dizer que seria necessário o armazenamento do cérebro em si, não sendo possível apenas um tipo de registro do conteúdo cerebral.

CONTROLE DE INFORMAÇÃO

         Será que, numa civilização tão poderosa, e que contém até mesmo recursos de auto preservação extremos como a invocação a um ser virtualmente onipotente, faria sentido controlar a informação? O controle de informação não seria típico principalmente de governos ilegítimos e ou mau intencionados? O que O SISTEMA deveria temer?

         Pode não ter ficado explícito, mas penso que está contido no texto a idéia de que na realidade o controle de informação é puramente condicionado a capacidade de uso responsável da informação. Hoje, vivemos numa era de acesso livre a informação sem precedentes na história, mas poucas pessoas sabem realmente fazer bom uso de tal maravilha. Inequivocamente, a maioria da população faz um uso, na melhor das hipóteses, modesto dos recursos da internet, e muitos acabam na verdade se emburrecendo muito mais do que conseguiriam sem tal recurso.

         É nesse sentido que O SISTEMA controla o acesso a informação. Notamos que o protagonista, no início, se deparava com várias restrições, mas quanto mais conhecimento desenvolvia, mais acesso obtinha, ou seja, O SISTEMA liberava informação de acordo com a competência daquele que acessa em fazer bom uso das mesmas, e o protagonista, evidentemente, era alguém que sabia fazê-lo.

         Voltando ao nosso mundo atual: É realmente bom que jovens completamente alienados e despreparados tenham acesso livre e não moderado à sistemas ideológicos, concepções políticas, doutrinas religiosas, etc, para os quais não tem qualquer preparo cognitivo para lidar? Bem, sem dúvida é melhor do que jamais terem acesso algum independente do preparo, mas penso o quanto ganharíamos se todas as pessoas ainda em treinamento na arte de aprender sempre contassem com uma moderação orientadora. Isso evitaria adesões precoces a sistemas de pensamento, cooptação por doutrinas bitolantes e sobretudo os ardis de certos sistemas de pensamento que transformam a aceitação acrítica numa virtude e condenam qualquer forma de questionamento crítico.

         No fundo, todo sistema de controle de informação, mesmo em nosso contexto atual, admite esse tipo de liberação de acesso de acordo com o 'mérito'. Mesmo um sistema político extremamente opressor será mais tolerante com o fato de um respeitado historiador consultar informações político ideologicamente delicadas, do que com um jovem imaturo, mesmo porque, para a devida ocultação de tais informações, é inevitável que alguém as conheça, e qualquer sistema, para que possa devidamente controlar a informação, tem que saber o que está controlando. No entanto, em nosso contexto atual temos algo que está praticamente extinto na ambientação de GRADIVIND, a Família e a Escola.

         Em GRADIVIND, tais instituições não são citadas porque simplesmente não existem, ao menos a nível oficial, assim como não existem Universidades nem instituições de pesquisa. Toda a "educação" é ministrada pelo SISTEMA, e por iniciativa do próprio interessado, e é exatamente por isso que há controle de informação, da mesma forma como mesmo nas escolas mais liberais, haverá algumas restrições às crianças em seu acesso a certos conteúdos, nem tanto por sua potencial periculosidade, mas pela impossibilidade de serem sequer compreendidas, podendo gerar até mesmo futuros bloqueios.

         Portanto, ao controlar a informação, O SISTEMA tem diretrizes, restringindo principalmente aquelas que podem ser mau utilizadas por pessoas desprepadas, tanto que nada poderia fazer com aqueles que, pelo próprio mérito, redescobrissem a Equação Gravitônica.

EXISTE GRAVIDADE?

         Há um fato científico claro e muito problemático na premissa fundamental de GRADIVIND, que é a enorme dificuldade que tem ocorrido para se entender a Força Gravitacional. Minha breve e interessante discussão com um professor de física, nas mensagens 693 e 705 sobre uma nova teoria da gravidade não é uma excentricidade isolada. Têm de fato surgido tentativas de unificar gravidade e eletromagnetismo e até negações completas da existência da gravidade. Embora abordagens de vanguarda bem mais aceitas, como Supergravidade de 11 Dimensões e outras ousadias da Teoria-M, consigam ser ainda mais bizarras.

         GRADIVIND vai num sentido parecido. A Força Gravitacional, como uma força da natureza conduzida pelos hipotéticos grávitons é negada, mas enquanto "uma" força entre outras, passando a ser, na verdade, a estrutura fundamental do universo, e por isso mesmo indetectável, pois qualquer outra força ou instância da natureza está assentada sobre ela, num nível muitíssimo sutil e infra estrutural. Pelo mesmo motivo pelo qual uma partícula fundamental de luz não pode, em si, ser vista (e o mesmo acontece com a luz em si, pois nós vemos os objetos iluminados, ou no máximo a poeira em suspensão no ar), os componentes subestruturais da gravidade não poderiam ser detectados por estruturas que se assentam sobre eles.

         Desse modo, existe sim A Força Gravitacional, sendo a força fundamental que compõe todas as demais. Nesse sentido, há uma convergência com o Universo DAMIATE, onde a Gravidade é uma das duas forças fundamentais da natureza, a Força X, de atração, em oposição à Força Y, de repulsão, que é o próprio espaço-tempo.

A EQUAÇÃO GRAVITÔNICA

         Não sou bom em matemática. Até me saio bem em aritmética e geometria, de tradições filosóficas gregas, mas não nas tradições médio orientais, especialmente Álgebra e Trigonometria. Por isso, fui bastante reticente em expor uma fórmula para a Equação Gravitônica que tanta importância tem na estória. Acabei optando por um recurso estético, aproximando o nome GRADIVIND da fórmula da equação. Idéia que só surgiu praticamente após ter terminado a estória.

         Mas, se me for perguntado, teria que dar alguma satisfação sobre quais são os termos da equação.

         Diferente do "G" da fórmula newtoniana da Gravitação Universal, o "Gr" seria a determinação do valor gravitônico, isto é, uma noção de gravidade alterada pela concepção de reação à expansão espaço temporal, e não como mera força natural. Ela seria o resultado do quádruplo de "Di", que seria o número de Dimensões espaciais relevantes para o cálculo, algo que até hoje está em discussão. Portanto, o primeiro termo da equação gravitônica, "Di", dependeria de sabermos afinal quantas dimensões possui nosso universo, muitos acreditam que são 11, ou pelo menos quantas são realmente relevantes para determinação do valor gravitônico.

         Segue-se então a raiz quadrada de "In", a invertida da expansão espacial, numa alusão estética a noção do decaimento da atração gravitacional, que se dá ao quadrado. Essa inversão seria a determinação de exatamente quanto de "resistência" à expansão existe. E por fim, o valor mais importante e misterioso, o Terceiro termo da Equação, seria o "D", que seria a constante de transmissão da onda de gravidade, que se daria num plano Dimensional específico. Ou seja, seria a "malha" subestrutural por onde, paradoxalmente, o "arrasto" gravitacional se converteria na mais onipresente força da natureza.

         POR FAVOR! Não tenho nenhuma pretensão com essa idéia. Ela é apenas um recurso literário!

         Ela também está exposta sob o ponto de vista do personagem principal, que não tinha idéia das consequência de sua descoberta. O conhecimento dos termos da equação permitiria que qualquer criação de campos de força, inclusive magnéticos, com os mesmos parâmetros, penetrasse na malha gravitacional do universo, tendo acesso instantâneo a todas as forças fundamentais que, no fundo, seriam vistas de modo similar ao do Universo DAMIATE, isto é concebidas como uma dualidade primária entre Força Y (Espaço / Tempo), que é de repulsão, e a Força X, de atração, a própria Gravidade. Sobre as quais todas as demais forças seriam construídas. Ou seja, controlando-se a Gravidade, controlar-se-ia tudo.

         O personagem também não se deu conta de que sua equação se assemelhava a uma palavra, que resultou no nome GRADIVIND, e por isso achava a expressão familiar. Claro que GRADIVIND também é um anagrama resumido de DIVINDADE e GRAVIDADE. A isso, se deve os pré títulos de cada parte, que evoluem até a forma final.
GRADIVIND
GRADIVINDADE
GRAVIDIVINDADE
GRAVIDADIVINDADE
GRAVIDADEDIVINDADE

Sistema

GRADIVIND

/

\

O SISTEMA

<=>

Deusa da
Gravidade

(Deusa "Gradivind")

         Creio que O SISTEMA foi a coisa sobre a qual mais falei ao longo da estória, dispensando maiores explanações. Mas ao final deixei claro uma analogia com a santíssima trindade tendo O SISTEMA como o Espírito Santo, e ao invés de Pai e Filho, fiel a minha noção de maior adequação da feminilidade ao divino, associei o GRADIVIND à Mãe, e a Deusa da Gravidade à Filha. A analogia não é precisa. O SISTEMA não é inteligente! Mas a própria concepção de trindade divina também é irracional. Deliberadamente.

         Também sempre tive em mente que num nível de ultra tecnologia, a criação de um sistema integrado onipresente e virtualmente onipotente tenderia a ser inevitável. De um modo ou de outro, "Deus" seria construído. O GRADIVIND então seria a tecnologia possível mediante o controle dos parâmetros da Equação Gravitônica. Uma vez acessada a camada sub dimensional da gravidade, estaria aberta uma miríade de possibilidades para o controle total das forças fundamentais da natureza, a fonte de todo o poder. O SISTEMA seria então inserido na própria malha gravitônica, passando a interligar uma infinidade de sistemas menores, e seria indestrutível porque suas instruções estariam vagando infinitamente por essa subestrutura, sendo imediatamente recuperadas por qualquer dispositivo informático.

         Como dito. O SISTEMA não tinha então um servidor central, mas isso não significava que não pudesse ser, de algum modo, contornado, visto que quem tivesse acesso livre à malha gravitônica poderia também estabelecer novas instruções, passando a neutralizar ou mesmo controlar O SISTEMA. Para preservar a segurança, o GRADIVIND ativaria sua contraparte, a Deusa da Gravidade, que diferente do SISTEMA, possui inteligência artificial legítima, uma mente, uma personalidade e individualidade, embora dotada das máximas qualidades. Por isso mesmo, ela não pode estar constantemente ativa, porque uma mente individual volitiva está sujeita a todas as vicissitudes da existência, inevitavelmente mudando de comportamento com o tempo, pela interação implacável com as caóticas flutuações da alta complexidade típicas de uma civilização.

         Mas se a única parte realmente consciente do Sistema GRADIVIND está durante a maior parte do tempo adormecida, a quem cabe acordá-la? Como poderia O SISTEMA, uma tecnologia de lógica "bruta", saber quando tal necessidade realmente ocorre? Poderia prever algumas situações, mas jamais todas, principalmente as advindas de questões culturais. Por isso a instituição de verdadeiras tradições religiosas que permitiriam a inteligência coletiva da civilização despertar a Deusa no caso de real necessidade.

         Também não bastaria a mera vontade dos seres senscientes. A "súplica", a oração, desencadearia um processo que seria avaliado pelo SISTEMA, e de acordo com a situação, ativaria a Deusa ou não. Além da questão comportamental envolvida, pois a Deusa é um ser sensciente, embora artificial, há também o problema do consumo de energia. A manipulação da malha gravitônica permite feitos extra ordinários, mas não é gratuita em termos de energia.

         Uma das formas de aliviar esse gasto é colocar os recursos de penetração e inicialização próximos a fontes de grande gravidade. E como é inviável fazê-lo perto do Sol, a opção óbvia seria o planeta Júpiter, onde suas imensas massas gasosas poderiam ajudar a manter o GRADIVIND plenamente ativo, a Deusa desperta, por períodos longos de tempo. Portanto, o deslocamento da Terra para Júpiter permite que ela seja protegida mais rapidamente no caso de uma emergência, visto que a fonte de energia de ativação, o planeta joviano, está mais próxima, embora a diferença pudesse ser considerada desprezível em algumas situações.

         Enfim, o Sistema GRADIVIND era de fato composto por dois outros, O SISTEMA, e a Deusa da Gravidade. O SISTEMA por si só pode administrar recursos, mas sempre obedecendo códigos e regras bem definidas, e tem limites energéticos de ação. A Deusa pode usar toda a potência do GRADIVIND, controlando diretamente O SISTEMA de forma livre, volitiva e consciente.

         Algo que devo ascrescentar, e insistir, é que a Deusa Gravitacional teria uma inteligência essencialmente humana, embora máxima. Isto é, sua sabedoria seria apenas quantitativamente superior à de um ser humano, devido ao fato de poder dominar uma vastíssima quantidade de informações. Mas não seria qualitativamente superior. Nesse sentido, não seria uma "divindade" no sentido teológico tradicional, não tendo qualquer conhecimento que vá além da estrutura material e lógica do universo.

         Há também uma Deusa da Gravidade no Universo DAMIATE, mas é algo totalmente diferente.

O INEXISTENCIALISMO

         Foi minha primeira abordagem literária sobre o tema que já desenvolvi academicamente, o PESSIMISMO ESSENCIAL. A meu ver, algo similar ao Inexistencialismo é o passo lógico de uma radicalização da visão existencial que prega a completa desvalia da existência humana. Pessoalmente não acho que no nosso contexto teremos grupos terroristas desse tipo, porque faltaria a tais adeptos exatamente o ingrediente principal que leva pessoas a atos extremos, isto é, uma pulsão vital fortíssima, ainda que equivocada e voltada ao exato contrário do que prega.

         Mas estamos falando de uma ambientação milênios no futuro, com contextos culturais radicalmente diferentes e onde as condições existenciais são totalmente outras. Mas creio que tudo isso esteja bem explicado na parte final da estória, bem como há muito material em minha monografia citada acima. Só quero acrescentar que a idéia de introduzir esse tema só me ocorreu mais ou menos quando eu estava no meio da estória.

A AGONIA DA EXISTÊNCIA

         Mas há algo que não abordei diretamente em minha monografia sobre o tema, e que é um tanto mais sutil do que pode parecer à primeira vista. Intuí esse conceito há muito tempo, e o incluí como uma das idéias principais do principal personagem do Universo DAMIATE, o próprio DAMIATE. O conceito de Agonia Existencial é a inversão absoluta de tudo o que nossa vida e nosso universo parece ser, uma luta constante por existir. Originalmente, como expresso brevemente no livro virtual ALICE 3947, era a noção de que no fundo, o que todo ser humano deseja é apenas deixar de existir, e que toda a realidade não passa de uma simulação mental onde as mentes individuais se obrigam à auto ilusão, criando a ficção de efemeridade, com o intuito de eliminar a Agonia Existencial que experimentam quando estão totalmente despertas, visto que podem fazer absolutamente qualquer coisa, exceto deixar de existir, sendo virtualmente onipotentes.

         Ou seja, é a idéia de que somos deuses que tudo podem, exceto aquilo que mais desejam, cessar, desvanecer. E para se livrar do sofrimento da obrigatoriedade da existência, mergulham numa auto ilusão que tenta lhe convencer do absoluto contrário. DAMIATE, no entanto, tenta reconfigurar o NARVA galáctico, isto é, a hiper estrutura mental que define todas as regras e todo o objetivo de sua "jurisdição" existencial, de modo a eliminar a Agonia da Existência em sua fonte. Ao menos, acredita nisso.

         Já em GRADIVIND, a Agonia Existencial ficou restrita a âmbito menor, visto que não há todos os conceitos metafísicos pseudo espiritualistas típicos do Universo DAMIATE, reduzida apenas à sua expressão mais básica, a percepção da inevitabilidade do sofrimento. O que restou de mais importante, é que diferente do que é pregado pelo Pessimismo Essencial puro e simples, o Inexistencialismo prega uma Agonia Existencial que não deriva da mortalidade, da inevitabilidade do sofrimento ou qualquer outra miséria típica da existência. Ela seria uma coisa em si, que se aplicaria até mesmo aos deuses. De certa forma, os Inexistencialistas diriam que a própria Deusa da Gravidade sofre de Agonia Existencial. Aliás, cabe notar que a Deusa nunca é mencionada pelos Inexistencialistas. Isso foi proposital, mas deliberadamente não me preocupei em explicar o porquê.

         Claro que pode-se objetar que o Pessimismo Essencial prega sim essa Agonia Existencial nesses termos, como minha própria monografia parece apontar. Mas quero dizer que se o faz, entre na mais terminal das contradições, como se as que já possui não fossem suficientes, visto que seu ponto de partida fundamental é a mortalidade. O que quis dizer é, que nesse sentido, o Inexistencialismo é mais coerente, só entrando em contradição exclusivamente por negar o valor do fundamento no qual se baseia, ou talvez pela tirania de uma subjetividade que se propõe não simplesmente objetiva, mas intersubjetiva.

         Mas deixando de lado esse aprofundamento filosófico, devo dizer que embora factualmente exista em nosso mundo um Pessimismo Essencial e variadas formas de Otimismo Vitalista, deve-se admitir que o último já causou muito mais estragos que o primeiro. A maioria dos genocídios e opressões ideológicas tem como base alguma forma de vitalismo, em geral, pregando virtudes superiores de uma etnia sobre outra. Por isso mesmo decidi criar um neologismo para me referir a um Vitalismo Otimista autêntico e Universal, o VITALIANISMO.

REENCONTRO FAMILIAR

         Não me ofenderei se alguém não acreditar no que vou dizer agora, mas a idéia de que a família do personagem não tivesse morrido só foi me ocorrer quando já estava finalizando a parte 4, bem depois do diálogo onde uma possibilidade absurda de ressuscitá-la é discutida.

         O objetivo inicial era marcar psicologicamente o personagem, com uma profundidade indelével que definiria parte de seus comportamentos. Em especial os menos sensatos. Juro que jamais havia me ocorrido que Dir-Zá e Ei-Kis seriam, de fato, sua esposa e filha! Ao menos não conscientemente. Somente depois de ter-me decidido por esse fechamento, o que aliás atrasou a finalização da estória em no mínimo umas duas semanas, é que voltei atrás e reescrevi algumas partes para já apontar essa possibilidade desde o início, pois detesto que haja surpresas marcantes numa estória que já não estivessem sugeridas nas entrelinhas, embora de preferência não previsíveis.

         Ou seja, é bom que o leitor se surpreenda, mas que quando reexamine o texto, perceba que os elementos necessários para fundamentar aquele final já estavam sim presentes, de modo que não se acuse a estória de ter sido drasticamente alterada.

         Como frequentemente ocorre, escrever uma estória pode ser tão surpreendente para o autor quanto para o leitor, sendo frequente que o mesmo seja surpreendido pelos caminhos da narrativa que, às vezes, parecem adquirir vida própria. Por isso, apesar da resistência inicial, preferi honrar meu inconsciente, que pode ter sido mais esperto do que eu, e ceder ao que aparentemente ele estava construindo sem que eu percebesse.

         Quando tive a idéia de que Tânia e Érika estariam vivas, primeiro pensei em justificar a alteração de memória do personagem devido a ele estar em um tratamento contra a Agonia Existencial por meio de simulação, uma possibilidade que está implícita em grande parte da estória. Mas não gosto da idéia de diminuir o grau de compartilhamento da experiência dos personagens, reduzindo-a a um mero mundo mental particular. Depois pensei em fazer uma alteração mais restrita, onde apenas Ielg, Dir-Zá e Ei-Kis teriam a memória alterada, e ele seria novamente descongelado na esperança de que se comportasse de forma diferente. Mas isso incluiria alterar também a memória de quase todos os demais personagens.

         Finalmente tive a idéia a seguir, que embora extrema, solucionou o problema, ainda que criando um outro.

INVERSÃO TEMPORAL

         Como já afirmei, minha única incursão em viagens no tempo foi em Os Crononautas, que é uma versão da história original de H.G.Wells. Mas ao final de GRADIVIND, vemos que a deusa faz o tempo voltar cerca de, o equivalente a meio ano, de nosso padrão atual. Isso pode ser considerado uma viagem no tempo?

         Literalmente talvez, mas não tradicionalmente, visto que só quem realmente teria viajado seria a própria Deusa, e assim, os problemas relativos às relações de causa e efeito ficam restritos a Ela. Ou seja, haveria um lapso causal no fato de Ela ter voltado todos os processos naturais, invertendo todos os eventos, mas sendo capaz de manter os conteúdos que A levaram a fazer isso. Teríamos então um possível paradoxo. Se a Deusa fez tudo voltar, como Ela própria poderia saber disso? Como não perdeu o registro dos acontecimentos ocorridos? (Ver meu texto sobre Viagens no Tempo e Paradoxos Temporais.)

         Evidentemente, para que pudesse ter conservado tais "memórias", então nem todos os eventos foram de fato invertidos. Os conteúdos necessários para manter os registros intactos tiveram que ser paralizados e mantidos à salvo da inversão, ao mesmo tempo que outro segmento da realidade teria que ser mantido no sentido temporal normal para que a Deusa pudesse continuar atuando.

         Esses conteúdos estariam então no "campo gravitônico", a dimensão "D" da equação. Assim uma "pequena" parte foi conservada e todo o restante invertido, tendo como impulso inicial a própria inversão gravitacional desencadeada pelos inexistencialistas. O que evidentemente presssupõe que há "folga" no campo gravitônico para sustentar toda a realidade normal e algo mais.

         Lembre-se que nada mudou na perspectiva dos humanos. Nenhum deles tem condições de se lembrar do "tempo original" porque ele foi aniquilado, deixando por completo de existir. Nem o protagonista poderia lembrar. Somente a Deusa tem os registros. Então, para todos os efeitos, nenhum dos humanos pode sequer saber se a tal reversão realmente aconteceu, tendo que aceitar a palavra da Deusa Gravitacional.

         Um amigo meu ficou com a sensação de deus-ex-machina a esse respeito, ainda que isso não tenha ocorrido para concluir a estória, mas sim, apenas para recompensar o protagonista, embora isso, em parte, já tivesse ocorrido. Só então me dei conta de que todo o GRADIVIND é um imenso deusa-ex-machina. Juro que se essa expressão tivesse sido lembrada por mim antes, teria a colocado em um dos títulos. No entanto, lembre que essa inversão temporal poderia ter sido totalmente dispensada da estória.

         Ademais, não há sequer como saber se isso já não ocorreu antes. Uma outra Inversão Temporal já pode ter sido realizada antes, em especial durante a guerra espacial. Mas a destruição de marte poderia sugerir que isso não ocorreu, ou a Deusa a teria impedido, ou talvez Ela tenha de fato impedido algo ainda pior.

         E isso, só GRADIVIND sabe.

OBS: Este texto não está finalizado. A qualquer momento posso decidir acrescentar alguma coisa, conforme possa me ocorrer ou ser solicitado. Sempre é tempo para comentar um livro. As atualizações mais recentes estão em VERDE


Versão 6.

Marcus Valerio XR
Versão 1 de 25 de Fevereiro de 2011
Versão 2 de 01 de Março de 2011
Versão 3 de 05 de Março de 2011
Versão 4 de 10 de Março de 2011
Versão 5 de 15 de Junho de 2011
Versão 6 de 19 de Setembro de 2011